Por uma escola feliz

Valorizar o contexto cultural é trazer a experiência do aluno para dentro da sala de aula. Em sua fala, o cineasta, diretor e roteirista de TV, criador e diretor de animações e de sites Fernando Mozart não economiza exemplos de como a tecnologia pode contribuir para a criação de um novo ambiente e novas posturas em sala de aula. A vida do aluno, efetivamente, deve estar dentro da escola. E os recursos são muitos, ele garante. Se bem usados, podem provocar transformações.

Fernando Mozart: "Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos" / Foto: Roberta Voight

Fernando Mozart: “Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos” / Foto: Roberta Voight

Professor de oficinas de criação há mais de 20 anos, Mozart trabalha com arte e mídia na educação, na formação de professores e de jovens desde o início dos anos 1980, quando criou uma produtora com amigos, em pleno advento do videocassete. O primeiro desafio, na Secretaria de Cultura do MEC, abriu um mundo de possibilidades e a certeza de que o audiovisual podia ajudar a levar a vida dos alunos para dentro da escola. Bastou para garantir a sua permanência na área e o interesse pelo tema. Hoje, ele é coordenador da escola de arte e tecnologia Oi Kabum!.

Como era o futuro no passado e qual é o futuro no presente? Mais de 30 anos atrás, ao trabalhar com alunos numa escola da Tijuca, Zona Norte do Rio, Mozart ouviu uma pergunta que o move até hoje: “Ano após ano, os alunos condenados pelo sistema seguiam na repetência. Por que os alunos não aprendiam, e o que podíamos fazer para reverter aquele quadro?, a professora queria saber”, conta.

A saída foi criar um contexto favorável para que os estudantes trouxessem conteúdos para a sala de aula. “Querem fazer novela? Vamos fazer novela. O que é importante? Aprender a contar, somar e dividir, escrever? Criávamos situações de aprendizagem para juntar uma coisa com a outra. Enquanto isso, a professora desenvolvia atividades complementares. Vamos medir a casa do Heitor (um dos alunos) e trazer o resultado para o quadro. A professora sabia que era uma oportunidade para o desenvolvimento deles, e ia fazendo conexões de conceitos e conteúdos. Se em 1984 o vídeo era algo novo, o mais importante para aquela educadora foi que ela facilitou o processo de interação entre ela e os alunos, eles e a comunidade”, relembra, exibindo um vídeo no telão.

A lição foi devidamente assimilada e a instigação permanece: “Como fazer o menino aprender fatoração se ele não está interessado em fatoração? Uma aula feliz, em que os alunos são sujeitos ativos, desperta o interesse porque os jovens desenvolvem projetos criativos a partir de seus próprios temas e assuntos”, garante. E seja o vídeo, o cinema, o teatro ou qualquer outra linguagem, todas elas ajudam nas interações e no desenvolvimento do processo pedagógico e criativo.

“Tem a ver com a vida deles. A conta para caber todo mundo na kombi que vai levá-los ao local da filmagem precisava ser feita, e a professora agregava matemática à dinâmica da criação do projeto. O vídeo facilitava o percurso da cultura para a sala de aula, ajudava no protagonismo das crianças, já cansadas do fracasso escolar. Elas começam a perceber que é uma troca”, afirma ele, que, nos últimos sete anos, atua com alunos de baixa renda de 16 a 21 anos.

É importante, portanto, repensar métodos. A escola segue imprescindível, mas aquela que transmite conteúdo apenas, segundo Mozart, está fadada a perder a concorrência. “Os jovens desenvolvem projetos criativos a partir de seus temas, seus assuntos, formas e material para reforçar o aprendizado de formas diversificadas. Todos vão aprender o básico. Eles não têm de saber todos os conteúdos porque os conteúdos estão no mundo.”

O mundo mudou desde 1984, mas as tecnologias hoje são mais baratas, fáceis e integradas. Na Oi Kabum!, o celular é uma ferramenta, e as regras são construídas junto com os alunos. “A escola odeia o celular. O professor teme a evasão pelo celular, mas os alunos evadem o tempo todo. No entanto, a escola pode ser um recurso fundamental para que nos apropriemos das tecnologias”, reforça Mozart, com o argumento de que escola tem função e é ambiente favorável para incentivar protagonismo, leitura crítica do mundo; e é lugar propício a se superar frustrações, a críticas e ao trabalho em grupo:

“Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos. Não basta acessar a fonte, é preciso aprender a aprender. É no processo de construir o seu projeto que você vai obter meios de se desenvolver como pessoa, cidadão e profissional”, argumenta.

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