Conversa com a plateia

Ilana Strozenberg, na mediação, abre a conversa com a plateia / Foto: Roberta Voight

Ilana Strozenberg, na mediação, abre a conversa com a plateia / Foto: Roberta Voight

Na escola, quando você é pequeno, você é obrigado a ser bom em tudo. Isso não é limitar muito o jovem? (Leonardo Rangel)

Fernando Mozart – A gente vive em um universo midiático, um novo contexto que acentuou o potencial interativo. Como se apropriar desse potencial em um processo educativo? Se a educação não é pensada unidirecionalmente, em outro paradigma em que conhecimento é produção coletiva e fruto de interação entre sujeitos, como se apropriar dessas tecnologias para potencializar a educação?

André Couto – Fui um aluno amado pelos professores porque tirava boas notas e não tinha problema com aula expositiva, mas o ponto é a falta de reconhecimento da  singularidade. A escola que a gente deseja é uma escola de singularidades e não uma escola de diversos Andrezinhos.

E como pensar que um professor do século passado consegue dar aula? (Nyl)

Eliane Ferreira – Realmente, é isso: temos uma escola do século 19, um professor do século 20 e um aluno do século 21. Como adapto à realidade? É chamar o sujeito para discutir esse currículo.

Fernando Mozart – Não importa se você usa uma coisa ou outra, a questão chave é o processo, é a mudança de paradigma, é criar um contexto favorável. É o que você faz com a tecnologia para conservar ou para transformar. Precisamos de educadores abertos a se apropriarem do que está no mundo. A escola é um coletivo de educadores, vamos trabalhar juntos, com cabeça aberta e coração para enfrentar esses novos desafios.

A escola tem visão de local antigo por ter uma pessoa ali passando conhecimento. A gente só recebendo, fica cansativo. Como adaptar o currículo para a realidade do aluno, isso é o que o professor deve se questionar. Antigamente, um dez do aluno dava ao professor a sensação de dever cumprido. E agora, qual o momento em que vocês pensam que o objetivo foi alcançado, o momento em que vocês percebem que deu certo? (Elisabeth)

Eliane Ferreira – Não é pedagogia do oprimido,  é para o oprimido. O sujeito não pode ser abolido dessa discussão e é claro que a tecnologia não foi pensada para a escola. A escola vai na enxurrada de todas essas mudanças. Cabe a quem tem uma formação mais humanista trazer o sujeito para essa discussão para que ele não seja apenas mais uma ferramenta.

Jonathan – Como o professor consegue ter noção do impacto do trabalho dele? O aluno passou a ser aluno, isso é humanização. A escola é produto do meio. O NAVE em Recife é totalmente diferente, são outras experiências, outras vidas. O currículo tem de ser responsivo, flexível, a professora de biologia ensina cidadania, não meramente biologia.

André Couto – Ao avaliar,  dar uma nota e dizer se a pessoa é boa ou ruim é falacioso, essa é  uma estratégia avaliativa que diz muito pouco. Os professores não abrem mão disso. Há  muita gente querendo mudar, mas é muito duro para quem está lá ter sua  competência como educador questionada. Não é questão de querer ou não querer inovar, as pressões externas são muito duras. É uma situação difícil.

Fernando Mozart – Currículo é consequência de todo esse papo. Há interesses, e formas de tirar do foco o principal e colocar em foco uma ideia antiquada de educação, que está morrendo, mas que tem força política. A gente tem de mudar o conceito de avaliação, para que serve isso? A avaliação tem de estar a serviço do desenvolvimento. Como acompanhar as mudanças tecnológicas para ajudar as pessoas a se desenvolverem mais? Avaliação processual? Bancas? Na Oi Kabum! não tem prova, o aluno é avaliado no processo, nas bancas, em grupo e individualmente.

Participação de jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Participação de jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Esse debate me deu um susto. A gente não está mais no celular, a internet das coisas está aí… aonde a gente vai chegar? O foco é sempre nas novas tecnologias, mas se esquece do sujeito nessa história, qual o impacto não só nos professores, mas também nos alunos? A minha maneira de ler, escrever, pensar e dialogar mudou. A informação que antes chegava em mãos agora está na nuvem. Onde estaremos daqui a cinco anos?  (Pedro)

Fernando Mozart – Nós educadores temos de superar o receio e partir para dentro, que é pensar sobre o que fazer para renovar, inovar, mudar a educação tomando partido dessas novas possibilidades? Quando Paulo Freire falava do diálogo e da interação, não havia internet, mas ele falava das coisas mais básicas, como aprender a se expressar, a partir da vida, a ouvir, a conviver, a dividir. As tecnologias interativas podem ser apropriadas pela pedagogia freireana de uma maneira incrível, articulando a distância com a  presença, porque a relação humana é a base de tudo. Educação à distância unidirecional é o mesmo que foi feito no passado, e não queremos isso. Há um potencial incrível nessas tecnologias educativas. O educador vai ter de mudar a sua função, porque o educador do passado morreu. Não será fácil transformar esse sistema. Algo morreu e algo novo ainda não o substituiu, mas tem muitas experiências sendo feitas e muitas possibilidades. Transformar o sistema é desafio herculeo de médio e longo prazo.

Eliane Ferreira – A tecnologia muda os paradigmas de tempo e espaço e muda também os sujeitos. Esse sujeito é que precisa ser pensado, como também a sociedade em que estamos. O teletransporte em sala de aula é para daqui a pouco, mas nada disso vai mudar a pergunta que é qual o sentido da escola? A escola reflete a sociedade e o sentido dela vai variar no tempo e no espaço. A escola tem sentido? A escola vai ter sentido quando tiver sentido para um e para todos. A totalidade é uma ilusão, mas a gente não pode ter um índice de analfabetismo como se tem num país que fez os investimentos que fez nesses últimos vinte anos.

André Couto – Como fomentar os quereres desses alunos? As novas mídias são passageiras, o que fica? É bacana, é novo, é diferente, vamos fazer. Mas qual a profundidade disso? Até que ponto não fica artificial, superficial? (Carolina)

Eliane Ferreira – Tem de mudar a lógica do ensinar e aprender, tem de ensinar o aluno a perguntar e não a só pedir respostas. É a partir das perguntas que você aprende. (Eduardo) Galeano diz que quando se entende todas as respostas mudam-se as perguntas.

Fernando Mozart – Transformação é centrar menos no professor e mais na aprendizagem do aluno. Para isso, é preciso ouvir e interagir para mobilizar e interessar esse aluno. Ele vai aprender coisas porque ele precisa. O desafio do educador é provar que a matemática está na vida. Matemático não é educador. Tem de aprender a ser educador. Aprendi com outros educadores.

Jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Como conciliar inovação, o professor líder, com a política pública? Nas escolas públicas há origens e dificuldades muito diferentes. Há alunos que chegam  e sabem mexer no celular, mas qual o nível de informação que eles têm? O ensino fundamental foi universalizado, mas ainda é muito precário. Como isso se concilia com o menino que sabe mexer no celular? (Anabela Paiva)

Fernando Mozart – Quando a gente pensa em política pública depende da correlação de forças na sociedade e da sustentação no tempo. Para transformar o sistema serão necessárias décadas e é preciso força política para sustentar. No aqui e agora, há coisas estratégicas, e o professor resiste. Há a resistência conservadora que não quer dialogar com o mundo atual e a resistência do que quer fazer coisas diferentes e sabe que o contexto é adverso mas, nas frestas, ele faz alguma coisa. Numa sala de aula, o professor que quer fazer diferente, bem ou mal consegue fazer alguma coisa. O professor não pode ser subestimado. Muita gente vem experimentando coisas novas e de valor. Nesses 30 anos, conheci muitos professores incríveis em contexto violento e recursos parcos, mas que metem a mão na massa e fazem coisas muito significativas. O desafio do professor de escola pública é imenso, é muito fácil desistir. Ele diz ‘eu tô lá, mas já desisti’. Mas é grande o número de pessoas que fazem coisas interessantes. Em todas as instâncias que se tenha para ajudar a formação do educador, é fundamental ajudar. Professor tem de perceber que é um aprendiz a vida toda, é preciso se atualizar, abrir mão de conceitos antigos. Vi muita gente boa se transformando. Não adianta ensinar Paulo Freire só, o desafio é existencial, o quanto você está disposto a mergulhar nessa nova prática, como aprender a ouvir, a conciliar, a educar o muito diferente? Como se aprende a fazer isso? Toda a formação pedagógica que foi dada não ajudou. O desafio de formar educadores é estratégico, é para se fazer agora e sempre.

André Couto – No Brasil, a educação é tão estratégica que a gente não pode ficar à mercê da aleatoriedade. Não pode ser assim. Educação pública envolve grandes números. Não podemos depender de um eleito que teve uma epifania. É política de massa. E quem não tem a sorte de encontrar bons professores?

Eliane Ferreira – Nós somos herdeiros do estigma da escravidão. A escola pública ainda não é do interesse público. O Brasil não proclamou a República ainda, e não aboliu a escravidão completamente. Vivemos num país de tarefas históricas incompletas.

Ilana Strozenberg – A gente não aboliu a escravidão para ninguém. A tradição hierárquica atinge quem está embaixo e quem está em cima, porque impede as pessoas de ouvir. Quem pode centrar no aluno é o professor e, para isso, ele tem que aprender a ouvir.

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