Por uma escola que todos querem

A diretora da Escola Municipal Professor Souza Carneiro, na Penha, Eliane Ferreira, não perde a capacidade de se surpreender com a escola. Há vinte anos no posto, 16 deles em escolas dentro do Complexo da Maré, ela diz que aprendeu a olhar para a escola de vários lugares. Ora como aluna, ora como mãe, ora como professora, ora como diretora, ela viu muitas mudanças e transformações. Em cada posição, uma inquietação dupla: qual é o lugar da escola na sociedade, e qual é o nosso lugar na escola? As tecnologias, que papel têm desempenhado na tarefa de tentar responder esses questionamentos? A resposta, invariavelmente, envolve a forma como lidamos com a parafernália que nos é apresentada.

Eliane Ferreira: "A escola tem de ter sentido" / Foto: Roberta Voight

Eliane Ferreira: “A escola tem de ter sentido” / Foto: Roberta Voight

Uma certeza Eliane já carrega: “Aprendizagem pressupõe interesse e motivação. Trata-se de abrir um canal de diálogo entre o sujeito que está ali para aprender e o sujeito que está ali para ensinar. Escola é para viver, não pode ser um ovini jogado no meio da sociedade”, afirma.

Entender as novas tecnologias e a suas aplicações possíveis dentro da escola pressupõe considerar as dimensões tempo e espaço, como bem demarcaram André Couto e Fernando Mozart, são questões importantes para se entender as novas tecnologias dentro da escola. Ideia reafirmada também por Eliane:

“Será que o problema da escola com a tecnologia está na idade do professor, na formação ou em como a gente olha para esse sujeito?”, questiona, ao mesmo tempo em que assegura que não se trata apenas de um recurso, mas de linguagem.

“O computador e as tecnologias chegaram sem que a escola desse conta de questões básicas que ainda estavam pendentes com a sociedade. Não basta ter a parafernália dentro da escola. A escola precisa saber aonde ela quer chegar, qual o sentido que ela tem”, completa.

A escola tem de ter sentido. Ou tem de continuar a ter sentido. E se tecnologia distancia, a ética aproxima. “Eu sou do tempo do betamax e também do iPhone. Tecnologia de ponta, para mim, já foi giz colorido. Hoje há muitos recursos. O desafio é pensar como a escola se apropria dessas tecnologias”, opina ela, que lida com a inserção de recursos no ambiente escolar desde o início na profissão e passou por experiências diversas. “Fomos vendo o quanto o computador, aquele com sistema operacional DOS, lá atrás, dava autonomia, e o quanto era preciso ousar”, conta.

Não basta, no entanto, pensar só no aluno, tem de preparar também o professor e na gestão dos recursos, que são também de pessoal. No município, quando foram feitas as primeiras experiências de informatização da gestão, em 1999, ela percebeu uma terceira vertente que também merecia igual atenção. “As demandas também passaram a ser protocoladas muito mais rapidamente, e recebemos uma avalanche de demandas. Vieram facilidades, mas também problemas”, relembra.

A coleção de tentativas inclui erros e acertos. Em uma outra escola, ela desenvolveu um projeto embrionário, em parceria com o jornal O Globo, o Repórter do Amanhã. Era a abertura para o aluno ávido para aprender e assumir o seu protagonismo. As crianças produziam as matérias e tinham capacitação dentro do jornal.

De rádio a mimeógrafo, de disquete a DVD, ela já testou muito para ampliar o repertório dos alunos. Tecnologia é um caminho sem volta, ela aposta, sem perder o foco na pergunta que considera chave: por quê o aluno vai à escola? “A resposta pode ser ‘porque eu quero’, ‘porque minha mãe vai me bater’, mas pode ser também porque a escola representa tantas possibilidades e horizontes. O adolescente que está na escola elabora e produz conhecimento de modo diferente de uma década anterior. Então, eu tenho de repensar a minha forma de ensinar, sobre os recursos dos quais disponho, que caldo posso tirar de toda essa parafernália”, prega.

O trabalho é árduo e as tarefas são múltiplas e envolvem muitas negociações. O que Eliane intenta é estabelecer o compromisso da escola com o trabalho intelectual, ou seja, a partir do aprendizado técnico, agregar conhecimento e valor para a vida. “O lugar da escola é fazer refletir, trazer o diálogo entre ontem e hoje. Não se pode prescindir da dimensão intelectual do seu trabalho. O aluno vai mudar e tenho de estar preparada para essa mudança. A dimensão ética também perpassa essa discussão.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s