Conversa com a plateia – Parte 2

Plateia no Rio de Encontros / Foto Audiovisual ESPM

Plateia no Rio de Encontros / Foto Audiovisual ESPM

“Os pais não se dão conta do que as crianças estão fazendo na internet, com tantos fakes no ambiente virtual? Internet influencia adolescentes ou são fatores externos?” (Aline Copelli)

Monica Machado – Os adolescentes e crianças no ambiente digital precisam de monitoramento e supervisão. Há uma geração familiarizada com as ferramentas, e as gerações mais novas estão entrando cada vez mais precocemente. Mas os pais não têm muito conhecimento, e isso provoca um gap cultural expressivo. Os jovens foram criando seus próprios filtros. Essa questão das relações que se abrem num mundo desterritorializado, a criança convive e amplia mundo além do seu quintal e escola, há ampliação de cenário que precisa ter controle. Todos envolvidos numa tentativa de criar alguns sistemas de supervisão. Esse debate é incipiente e precisa ser aprofundado no Brasil.

“Agora está rolando o a favor ou contra a Escola sem Partido, o que vocês pensam sobre isso?” (Larissa Ventura)

Cora Rónai – Escola sem partido? É uma miragem, um unicórnio, não existe. Teoricamente, uma escola apenas científica, sem discussão política, sem ideologia. Do ponto de vista lógico parece razoável, mas do ponto de vista real, não existe. O grande movimento teria de ser por uma escola plural. Mas esse nem é o principal problema da escola brasileira. O principal problema é o ensino, apesar dos professores. O desempenho dos alunos brasileiros é tenebroso. Esse é um problema muito maior do que qualquer ideologia. Não precisamos construir escolas, precisamos formar professores. Criamos o mito da educação superior. Todo mundo precisa ter diploma superior? É muito caro para um país formar um engenheiro para ele dirigir Uber. Estamos em crise, mas não há profissional formado para consertar tomadas adequadamente. Todo o sistema de ensino brasileiro deveria ser revisto.

Monica Machado – A causa deveria ser em defesa da escola plural, não escola sem partido.

“O Twitter pode ser usado como ferramenta de debates?” (Lorran Portilho)

Cora Rónai – Debates sérios são difíceis em qualquer lugar. Em 140 caracteres, é impossível, não dá. Limita demais a conversa. O Twitter é telegráfico e te informa, esse é o mérito. Qualquer coisa além disso, é difícil de fazer. A conversa é muito fragmentada. Basicamente, te leva para outros lugares. Não é lá que o debate vai acontecer.

“Falta de censura é o que eu louvo na internet atualmente. Mas quero saber sobre o lado negativo da falta de censura.” (Leonardo)

Cora Rónai – Falta de censura é sempre positiva. Com os desagrados, a gente lida com palavras. Discurso de ódio tem de ser banido, pois as pessoas não podem fazer qualquer espécie de discurso.

Cora Rónai e Monica Machado conversam com a plateia / Foto Audiovisual ESPM

Cora Rónai e Monica Machado conversam com a plateia / Foto Audiovisual ESPM

Na relação entre política e redes sociais, cada um dos lados tende a ondas de extremismo. Como vocês veem as mentiras nas redes sociais? Qual o limite?” (Leonardo Oliveira)

Monica Machado – A agressividade ganha a desculpa da proteção da tela: a partir dali você pode dizer tudo. Mentira? Não tem jeito, tem de desconfiar do que está vendo. Aos poucos, as pessoas vão percebendo, estão ficando mais atentas. Sobretudo as novas gerações vão aprender a evitar melhor. Mas todos têm de saber que é preciso estar atento.

Cora Rónai – Internet leva a extremismo? Internet alimentou os discursos? Os imbecis perderam a modéstia, há gente que antes não tinha onde se exprimir. Idiotas como Bolsonaro sempre existiram. A imbecilidade é ancestral, não precisou da internet para progredir. O acirramento ocorre porque pessoas diferentes se encontram mais na internet que no ambiente real. Se tem alguém que pense diferente, ela vai procurar sua turma. Na internet, você descobre quem é e o que pensa aquele cara com quem você encontra todo dia. A internet permite ver, mas não é ela que está criando aberrações. O ser humano é um animal inviável desde que veio ao mundo. As pessoas ruins e péssimas se sentem mais validadas quando encontram os seus pares igualmente ruins e péssimos. Internet não cria essas pessoas, só nos mostra o que está por aí.

“Como fazer para que fiquemos mais independentes do Facebook e de suas mudanças de algorítimos?” (Luiz Gustavo)

Cora Rónai – O algoritmo vê o que você usa e quer te apresentar as coisas que você gosta, mas você pode sair disso. Isso não configura uma censura. Você não pode deixar tão aberta. São parâmetros, não censura. Não pode imagens de nudez, por exemplo. São parâmetros de entrada e regras de comportamento. Tenha um pouco mais de trabalho, em vez de seguir a timeline, veja o que os seus amigos estão postando, vá direto aos perfis.

“Fale sobre o projeto em que você tira uma foto e registra um momento importante do seu dia, one second everyday” (Ilana Strozenberg)

Cora Rónai – O aplicativo é 1se, que permite que você cada dia um segundo da sua vida e, no fim, tem seis minutos. Há muitos projetos interessantes a partir dessa ferramenta. Eu fotografo todos os dias. Antes de dormir vejo qual segundo do dia vou usar. Para início de conversa, você começa a pensar mais no que você faz durante o dia. E quando você começa a registrar um segundo do seu dia, você começa a prestar atenção ao que acontece. É fascinante. Você começa a dirigir o projeto com um olhar mais artístico também. Um segundo é uma foto que se mexe e que tem som.

Monica Machado – O Instagram faz muito sucesso nas comunidades porque amplia sentido do compartilhamento visual. A fotografia sempre foi muito cara. Mulheres dizem que pela primeira vez conseguem fazer histórico de imagens de suas famílias e registrar o primeiro álbum de família. É a primeira vez que se tem essa experiência. A democratização do celular na favela contribui para isso. Os smartphones ampliaram o uso das ferramentas e possibilidades.

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