Nas comunidades, dentro da rede

Monica Machado, provocadora / Foto Audiovisual ESPM

Com quase 20 anos de atuação como professora da Escola de Comunicação da UFRJ, Monica Machado, mais recentemente, se dedica a pesquisar como os jovens lidam com a internet. Em 2012, quando muita gente de comunidades carentes ainda engatinhava no uso de plataformas digitais, participou do projeto Rio Geração Consciente, com jovens de Manguinhos, Maré e Cantagalo.  No ano passado, conquistou o título de pós-doutora em Antropologia Digital pela University College London (UCL), onde desenvolveu uma extensa pesquisa sobre os usos das tecnologias digitais e se engajou no grupo de pesquisa Why We Post?, coordenado pelo antropólogo Daniel Miller.

O Rio Geração Consciente envolveu, durante um ano, um debate sobre os impactos das tecnologias da comunicação no cotidiano das comunidades, desenvolvendo estratégias de produção de mensagens de reivindicação de direitos de cidadania. O resultado final foi a criação de uma campanha em parceria com a ESPM.

No Cantagalo, particularmente, Mônica estreitou os laços. É de lá o Museu de Favelas, ela estabeleceu vínculos com os jovens do território e envolveu alunos da UFRJ. O resultado foi a reformulação do site da instituição, uma revista digital de quatro edições, um hotsite para divulgar o circuito cultural turístico da comunidade, além da criação das páginas nas redes sociais.

– O Museu é um ponto de memória na comunidade. Quando entrei, eles engatinhavam no uso das plataformas digitais. Realizamos um trabalho de muitos atores para viabilizar a tradução de memória oral, mas que levou também a outras expressões culturais, como musicalidade, religiosidade e experiências de resistência. São vários temas representados nas casas como instalações artísticas. Um museu sem sede, sem território fixo.

Paralelamente a esses quatro anos de relação com os jovens, Mônica desenvolveu realizou observações etnográficas para entender como os jovens vinham lidando com as tecnologias nessas regiões. Mesmo com a dificuldade imposta pelas imprecisões estatísticas sobre o universo, mapeou a experiência dos usos das redes sociais nesse universo, constatou que certas expressões de relacionamentos culturais estavam se dando de forma expressiva nas redes sociais.

– O Facebook aparece como dominante, e o Twitter, assim como Snapchat, não têm presença expressiva. Há uma rede de relacionamento e solidariedade forte que é interligada pelo WhatsApp, que entrou muito fortemente. Esses dados são do final e 2014, mas acredito que são válidos até agora.

Why we post?

Monica Machado, no seu pós-doutorado, passou a integrar o projeto de pesquisa Why We Post, que reúne antropólogos de diferentes regiões do mundo para trocar experiências etnográficas e investigar os usos e consequências das mídias sociais nas vidas das pessoas.

– A antropologia digital pensa como as tecnologias de comunicação vêm sendo apropriadas pelos universos sociais de diferentes culturas.

Para analisar a experiência cultural em periferias, o grupo parte do pressuposto de que é o mundo que está mudando as mídias sociais (título do livro How the world changes the social mídia, primeira publicação do grupo, lançado em fevereiro de 2016) e não o contrário, como muitos pensam. Ao promover a troca dos resultados de pesquisas realizadas em contextos tão distintos como Brasil, Inglaterra, Chile, Índia e Turquia, entre outros, o trabalho mostra que as redes sociais são uma forma de ampliação das relações e que garantem tanto a copresença afetiva como a manutenção das relações familiares, mesmo quando há deslocamento geográfico de membros da família.

– Embora sem a eventual presença física, há muitas vantagens embutidas nessas novas formas mediadas de comunicação. A internet muda a vida e a experiência dos seus usuários, sendo que cada contexto cultural apresenta suas especificidades.

Links importantes:
Why We Post?
Rio Geração Consciente
Museu de Favela
Sobre Daniel Miller

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