Conversa com a plateia

A plateia se manifesta sobre afetos e conflitos na internet / Foto Audiovisual ESPM

A plateia se manifesta sobre afetos e conflitos na internet / Foto Audiovisual ESPM

Hora de a plateia dizer o que pensa, perguntar sobre o que tem dúvidas.

“Uma experiência do ITS, com a plataforma Mudamos, mostrou que o que se imaginava que podia ser ferramenta de democracia acabou virando espaço dos clichês. O cara nem lê o post e segue o efeito manada. Pessoas da minha geração achavam que internet ia facilitar a participação política: agora, eu posso comunicar, o que nos levou a achar que era um momento de explosão da democracia. Mas, na verdade, os debates são rasos e não estimulam debates mais aprofundados, e eu gostaria de ouvir sobre esse aspecto.” (Silvia Ramos)

Mônica Machado – A internet é propícia para discussão política, mas depende de como se encara a política. A hashtag #primeiroassedio, por exemplo, é um fenômeno: um tema tabu, sobre o qual não se fala em espaços públicos, mas proliferam no ambiente digital narrativas que não seriam contadas nunca. Internet tem muito de renovação também. No Brasil, o uso das hashtag é interessante porque é mobilizador. Há um espaço de representação, lugar de fala importante. Começamos a ver pequenas mobilizações. Internet é espaço de alteridade, dos discursos autorais, é espaço de intersecção de vozes. Já há vários coletivos e pequenos grupos locais já fazendo uso expressivo dessas possibilidades.

Cora Rónai – A internet não aprofunda? As pessoas não se aprofundam, ponto. A internet apenas põe isso em evidência. As pessoas nunca quiseram discutir. A gente está descobrindo o problema do ser humano, que é superficial. Quem discute é minoria no mundo. A gente acha que todo mundo deveria estar envolvido no debate político ou afetivo, mas isso não é verdade. As pessoas querem ir para o bar com as pessoas que já conhecem e conversar sobre assuntos que já dominam. Elas deveriam sair dessa zona de conforto, mas para quê? Aprofundar não é necessidade. O fulano quer ficar quieto no trabalho dele, não o chateie.

 

“Sobre as amizades virtuais, questiono: se não tenho memória do sentimento, se nunca vivi aquilo, como vou experimentar essa amizade?” (Renata Kodagan)

Cora Rónai – Afetos na vida virtual e na virtual não são uma coisa ou outra, mas uma coisa e outra. Há trezentos níveis de afetos na vida da gente. Acho que os reais e os virtuais se complementam. Mas o amigo virtual não é necessariamente inferior. O núcleo virtual de todos se ampliou imensamente. E amizade de um amigo virtual pode ser tão densa e necessária quanto a de uma pessoa que está ao nosso lado. A internet passou a te dar amigos de acordo com os seus interesses. Pessoas que têm interesses em assuntos muito específicos encontram vozes para dialogar na internet.

Betty Wainstock – Em minha tese de doutorado em psicologia, estudei especificamente sobre a manifestação do luto na internet, e trabalhei mais especificamente com pais enlutados. Foi um estudo de cinco anos, com 20 pais. Ao entrevistar esses pais enlutados, constatei que eles querem falar sobre o filho que se foi, e somente é possível a troca com quem passou por essa experiência. A internet possibilita essa interação.  Há exemplos de pessoas que nunca se viram na vida real, mas que se aproximam e são família.

“Quando se fala em tecnologia e comunicação, predominam as figuras masculinas. Onde está a representatividade feminina?” (Nyl MC)

Cora Rónai – Sempre houve poucas mulheres, não sei o porquê. A Xerox teve um dos grandes laboratórios e se ressentiu de não encontrar mulheres. A tendência de mulheres nas exatas não é tradição. Mesmo eu, que gosto de tecnologia, não acho tão mortalmente interessante. Uma coisa é usar a tecnologia e fazer coisas. Onde faltam mulheres é na criação de novas tecnologias. O que falta no Vale do Silício é gente comparticipação direta nas coisas que explodem. Os caras se sucedem, louros e de olhos azuis. É tudo muito igual, é uma chatice. A cultura nerdé mais masculina que feminina. E não é que mulher não entra. Pelo contrário, eles estão loucos para que mulheres entrem. Pode ser que um dia as mulheres cheguem.

Mônica Machado – A Wikipedia, segundo estudo de um pesquisador americano, é majoritariamente masculina. Apenas 3% de quem contribui com aquele conteúdo colaborativo são mulheres. É um exemplo de que é preciso falar mais sobre essa representatividade.

“O bloqueio do WhatsApp é legítimo?” (Nelson Teles)

Cora Rónai – É ridícula qualquer proibição. Se a companhia de luz se recusa a dar informação sobre um usuário, vão cortar a luz de todo mundo? Os juízes fazem isso por não conhecerem com o que estão lidando. As teles, apesar de não gostarem do WhatsApp, não estão por trás dessas interrupções, têm de cumprir a determinação.

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