Conversa aberta com a plateia – parte 1

Uma das curadoras do Rio de Encontros, a jornalista Anabela Paiva faz a primeira intervenção: “As redes são muito inflamáveis, as informações se repetem e, mesmo equivocadas, ganham status de verdade. Como grupos se organizam para criar cortinas de fumaça? E como as discussões nas redes sociais influenciam decisões legais e a criação das leis?”. Na sequência, julgamento e condenação entram em discussão com o caso de um funcionário de uma rede de supermercados demitido em tempo recorde após manifestações ofensivas na rede. Monopólio da opinião, preconceito, escola e cárcere, é possível comparar? Afinal, como a Justiça define o que é tragédia quando se trata de exposição de mulheres na rede? Abaixo, os provocadores elencam suas respostas a outras indagações.

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João Márcio Dias: “Há interesse em desviar o foco de um fato maior.” / Foto: Natália Gonçalves

João Marcio Dias – No dia do ataque à Maju, descobriram as contas do Eduardo Cunha na Suiça. Semanas depois, outra denúncia, outro deputado, foi a vez da Taís Araújo. Outra semana depois, outro deputado, e o caso da Sheron Menezes. Então, começa a parecer estranho. Quando acontece algo que ameaça nossos coronéis, vem um movimento na internet que tira o foco desse fato. Cris Vianna e Ludmilla também foram alvo de ataques, e ninguém ficou sabendo. Já foi vulgarizado. Vai ocorrer outro tipo de crime para fortalecer essa cortina. Há interesse em desviar o foco de um fato maior.

Ainda assim, a internet tem um lado positivo maravilhoso, que possibilita que negros, gays e outros grupos debatam os seus próprios movimentos. São pessoas que nunca se encontrariam, ideias que jamais se confrontariam e que têm na internet um espaço possível. Ainda bem que não existe nada pronto. O gay se sente empoderado e vai à luta. Tudo é mimimi hoje? Não, é que antes você falava as maiores asneiras e ninguém revidava. Um movimento fantástico é entrar em contato com a empresa onde a pessoa trabalha, já aconteceu no Carrefour. Entre o funcionário da rede emitir opinião preconceituosa e ser demitido foram duas horas. As empresas são responsáveis pelo que circula em suas páginas e, como as pessoas podem incitar ao crime, é preciso ter moderação. Você tem responsabilidade pelo que é publicado na sua página. O cara aprendeu a lição dele, espero. A internet pode fazer com que problemas que levariam muito tempo na justiça sejam resolvidos mais imediatamente. E as pessoas estão somando forças porque a rede possibilita o agrupamento.

Andrea Pachá – Existe o mito do juiz neutro. O juiz pode ser imparcial com possibilidade de interpretação. De uma forma ou de outra, as decisões justas não são as que acolhem o que a maioria quer. Se julgar de acordo com opinião pública, daqui a pouco a gente mata as pessoas e as pendura no poste. A pessoa é inocente, até que se prove que ela é culpada. Se defendo princípio, vale para todo mundo, não pode valer para um e não para outro. É racional e razoável defender princípio e que não estejamos sujeitos à opinião pública. O Judiciário, em grande parte, tem se mantido autônomo na hora de tomar uma decisão contra a majoritária. Já na elaboração de novas leis, o impacto é imediato. Você vai criando leis específicas, como o feminicídio, para atender a uma demanda como se isso alterasse a cultura da violência. A importância é simbólica porque se fala de segmentos não contemplados na História com nenhuma lei de proteção.

Dizer que toda opinião é preconceito é uma defesa de quem sempre teve o monopólio da voz. O monopólio da verdade é princípio da intolerância. Como juíza, vejo que não existe mentira, todos acreditam no que estão dizendo. Quem acha que toda opinião é preconceito é aquela pessoa que encerra a discussão dizendo ‘mas é minha opinião’. Cultura do escracho, venha de onde vier, é abominável. Até para o que escreve o que escreve é preciso dar a presunção da inocência. Banalizar a realização ou me satisfazer com a dor do outro é um sentimento ruim. É como perder a fé em toda a rede de proteção e princípios em que você acredita.

“Quais os limites para se entender o que é agressão moral, se nossos próprios representantes fazem isso?”
Aline Copelli

Andrea Pachá – Claro que há limites. Assustadora é a imposição do limite que vira manifestação de intolerância. Já postei ‘eu não quero mudar meu nome, isso é meu direito. Você não quer que eu mude meu nome, isso é intolerância. Você quer proibir que eu mude meu nome, isso é fascismo’. O limite da agressão é quando diz respeito ao outro. Por que o Congresso precisa dizer o que é família e excluir do conjunto o que não se enquadra no modelo que ele define? Por que discutir um modelo que não existe? O Judiciário precisou agir porque o Legislativo não legislou sobre o casamento homoafetivo. O mundo não é do jeito que você pensa. O mundo não é do tamanho da bolha em que a gente vive. A intolerância deve ser enfrentada no debate da complexidade. Precisamos criar canal de realidade entre os espaços.

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Nyl MC: “Como ensinar comunicação no ambiente escolar?” / Foto: Natalia Gonçalves

“Numa comparação entre a escola e a prisão, os carcereiros seriam os inspetores, e os diretores, os delegados. Como ensinar comunicação de fato social no ambiente escolar?”
Nyl MC

Andrea Pachá – A escola continua a mesma escola de 100 anos atrás. E, nesse modelo, não se promove nenhuma revolução, o professor não é uma autoridade. Estamos em um momento de transformação. Pela cultura e pela arte, afirmamos os espaços de conhecimento. Vejam o movimento dos meninos ocupando as escolas: é música, poesia, um ambiente muito rico em transformação, mesmo com toda a resistência. Sobre os casos de mulheres fotografadas e expostas na rede por ex-namorados e sobre como a Justiça define o que é tragédia, gente vence tantos preconceitos e estabelece uma educação mais horizontal em tantos aspectos, como o sexual, por que foto vazada ainda causa tanta comoção? Juridicamente, continuo assustada com a comoção que o nu pode causar em 2016. Monica Lewinsky sofreu bullying em 1994 e, passados tantos anos, ela se sente na obrigação de falar sobre isso pela preocupação com a exposição. Há uma construção cultural machista. Mulher fotografada e vazada na internet é piranha, é reprovável. Sobre a necessidade de se criar uma tragédia, os tribunais são tão vitimas quanto nós.

João Marcio Dias – Sim, o formato das escolas é incrivelmente parecido com presídios. Não entendo porque escola tem grade e nem porque os alunos não podem interagir com a cidade. Você obriga o cidadão, aos cinco anos, a fazer o dever de casa. Por que? Deixa a criança brincar, subir em árvore. As pessoas estudam dentro de uma caixa de sapato e não são encorajadas a pensar.

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