Cadê a verdade que deveria estar aqui?

Jornalista não nasce pronto, tem de ter boa formação. Notícia não vem do nada, tem de ser apurada e editada com profissionalismo e segundo critérios rigorosos. A profissão de jornalismo exige metodologia, esta é a primeira lição dada aos seus alunos pela coordenadora do curso de Jornalismo da UFRJ e pesquisadora de mídias digitais do Programa Avançado de Cultura Contemporânea – Pacc/UFRJ. E a verdade, vale o aviso aos céticos, também existe. Ou, pelo menos, é possível ficar o mais próximo do lado certo. Mas, para isso, diz ela, é preciso entender que, na guerra das narrativas, nenhuma repercussão é gratuita.

Cristiane Costa: “Jornalista não é juíz" / Foto: ESPM

Cristiane Costa: “Jornalista não é juíz” / Foto: ESPM

Ex-repórter e editora da revista Veja, do Jornal do Brasil e do Portal Literal, Cristiane aprendeu na prática com quantos caracteres e perguntas assertivas se escreve um bom texto. Já na academia, ela, além da formação de jornalistas, se debruça sobre as mudanças que as mídias sociais estão provocando no fazer profissional.

A verdade existe ou é uma construção e  tudo ficou muito relativo? Segundo Cristiane, a verdade é um ideal. E, no jornalismo, um ideal quase inatingível. “Daí talvez seja mais importante falar em busca da não mentira, porque incorrer na mentira é o pior que pode acontecer a um jornal ou um jornalista”, afirmou ela, em ampla defesa da apuração bem feita.  “Não basta dizer que o Romário tem uma conta de três milhões de dólares na Suíça. É preciso checar, achar uma fonte confiável. Mas a  checagem se faz cada vez menos, seja por falta de tempo ou outras razões.” Além disso, continua, como o mesmo fato pode ser contado de muitas maneiras, a velha regra não mudou: vale, sempre, ouvir os dois lados.

“Jornalista não é juíz, tem por função chegar o mais próximo dos fatos”, ressalta Cristiane, lembrando a boa e velha imparcialidade, tão pouco adotada atualmente. “Os fatos têm de ser narrados, ainda que sejam contra os ideais do jornalista.”

Jornalismo, por sua vez, não se limita à informação, é também opinião, outra onda que tem invadido as redações, sejam elas tradicionais ou não. “Em nome da opinião, a checagem vai para o espaço. O jornalismo moderno prega a objetividade, que tem na subjetividade como o seu contrário”, analisa.

E a imprensa brasileira, como faz?

Cristiane Costa expôs o que acredita que todos veem e raramente questionam: o Brasil – e isso é verdade para a grande maioria dos países hoje – possui conglomerados de comunicação controlados por poucas famílias. Os veículos que formam o mal afamado PIG (Partido da Imprensa Golpista), denominação consolidada no nosso país durante a ditadura militar, como O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, IstoÉ e Veja, que divergem em suas linhas editoriais de veículos como Carta Capital, Revista Forum, Brasileiros e Carta Maior. Na televisão, o embate se dá entre a TV Globo e a GloboNews, cuja perspectiva vai na contramão da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação). Na internet, a polarização também segue aguerrida: do lado da chamada direita, estão as páginas O antagonista, MBL e Revoltados online;  do lado da esquerda estão  Mídia Ninja, Rede Brasil Atual, Tijolaço, Pragmatismo Político e Brasil 247.

Nesse contexto, onde buscar informação? Cristine sugere que se vá a sites como The Guardian, El Pais, NYT, The Intercept, e comenta “Especialmente agora, após o impeachment, as pessoas começam a buscar informações em outras fontes.” Vale também preservar o lugar do humor, que, segundo a professora, assumiu para si a imparcialidade que é seria do jornalismo. Os sites Sensacionalista e Surrealista, Porta dos fundos e piaui Herald estão aí para quem quiser conferir.

Mas é bom saber que nenhuma notícia circula gratuitamente. Independentemente da linha editorial que adotam, os dois lados mantêm robôs que atuam para aumentar a repercussão das informações que divulgam. “A rede é atualmente um espaço onde há uma guerra de narrativas. Está na hora de cobrar da imprensa que baixe o tom e volte a ser menos opinativa e mais factual”, defende Cristiane.

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