Deixem que pensem e que falem

Quem tem legitimidade para falar e como encontrar informações confiáveis? “A notícia falsa é propagada porque as pessoas não se dão ao trabalho de ler. Há uma massa de informações que as pessoas divulgam baseadas no título. Temos de fazer escolhas e, quando escolhemos, estamos selecionando um viés”, ponderou Anabela Paiva, ao abrir a primeira rodada de perguntas, relatos e comentários vindos da plateia. Ativistas e  produtores, alunos e estagiários de projetos como Universidade das Quebradas, Circo Crescer e Viver, Cecip e Parceiros do RJ, a representantes de ONGs e instituições acadêmicas como UERJ, ESPM e UFRJ deram o tom da conversa a partir daí.

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Provocadores e plateia no Rio de Encontros: informação em disputa / Foto: ESPM

“Com todo respeito, eu não acredito em imparcialidade de nenhum interlocutor. É sempre parcial quem apresenta o que checa. Mas isso não é defeito. Pior é hoje defender um lado, e outro amanhã, por dinheiro”, iniciou Denise Kosta. Bruna Rios quis saber qual medida adotar para barrar o fluxo de informações que nunca sabemos se são verdade ou não verdade. Como checar mais rapidamente? Leonardo Rangel relembrou o dia em que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, alegou chuva para pedir à população que ficasse em casa, mas houve quem dissesse que era só para evitar trânsito na rua. Lorran Portilho questionou: quem trabalha na Globo tem mesmo dificuldade para expressar suas opiniões? Luis Gustavo Soares estava interessado na crise que o jornalismo atravessa, se falta dinheiro ou referência. Leonardo Oliveira aproveitou o embalo: como identificar quem faz um jornalismo crítico, isento? Como ser parcial sem mentir? Como defender posições, sem mentir?

A palavra volta, então  aos provocadores, comentando mais diretamente algumas  perguntas específicas da plateia, respondendo a questões mais gerais ou debatendo entre si.

Cristiane Costa – A  grande dificuldade é separar o joio do trigo. É natural que as pessoas se identifiquem com um determinado lado. Talvez por isso seja tão difícil falar em imparcialidade. Não se busca   mais a verdade dada, que já se sabe que não existe. O grande marco foi a cobertura das Diretas Já, que levou milhões de pessoas às ruas, e foi ignorada pela  televisão. Até o momento em que não deu mais para omitir. O público hoje pode ter muito mais informações, é menos ingênuo e mais questionador. Ele perdeu a certeza, mas tem acesso a tudo e pode ouvir os dois lados. Não é mais só o jornalista que tem de ouvir os dois lados. O público também. Tem de ficar claro que o jornalismo e  a publicidade são diferentes.

Cristina Tardáguiia – Checagem tem um problema, que é a base de dados de que se dispõe. Para dizer que fulano está mentindo, tenho de ter uma base na qual a audiência acredite. Tem que ter o furo jornalístico? Não. O importante é estar certo. Eu já perdi vários furos por opção. Tem de tudo no jornal. Jornal é um monte de gente. A minha posição não é a posição do Globo, onde nunca entreguei um texto que estivesse em desacordo com o que eu penso. Nada te obriga no jornal a botar seu nome onde você não quer. A função do repórter no jornalão é dar trabalho para o editor. O cerceamento não pode ocorrer na apuração. Já na Lupa, não adianta querer fazer só que você sabe ou quer, tem que ser gestor. Eu tenho de saber quanto custa uma assessoria jurídica porque é óbvio que vou ser alvo de processo. Esse lado gestor dá trabalho. Assim como seguir toda a metodologia do checking também dá trabalho. O texto é extremamente hiperlinkado. A imparcialidade deveria existir e eu tento conseguir  isso loucamente: faço uma busca real para dar o mesmo número de porradas no governo e na oposição. E o humor? ocupa um espaço bacana, mas não resolve. Não se pode falar de impeachment só fazendo graça. Torna leve, mas a reflexão é efêmera. Se  precisa de dados, de declarações. Viva o humor, mas não se pode parar nele, não.

Rafucko – O papel do humor é o papel da arte, criar um absurdo para chamar a atenção para o absurdo da realidade. Você constrói e desconstrói. Tem a ver com a tomada de consciência. As mudanças não acontecem aí, mas  a partir daí. E acho que pode ser parcial, desde que fique claro o lado que você está defendendo. O William Bonner só muda a cor da gravata, é todo certinho para passar neutralidade, isenção, lisura. Por isso eu exploro a sexualidade dele usando meia arrastão e  vinte gravatas. A gente tem de desconstruir a imagem para dizer onde está a parcialidade. A caso do Santiago Andrade, cinegrafista que morreu atingido por um rojão na cabeça em janeiro de 2014, durante um protesto no Centro do Rio de Janeiro, é um exemplo: o video mostra que foi acidente,  os manifestantes não mataram um membro da imprensa da forma como foi noticiado. Ele (Santiago) estava numa zona de conflito, e a empresa deveria ter sido processada. A empresa era a responsável pelo lugar onde ele estava. Mas a notícia não foi dada como deveria.

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