Quanto vale o tempo no ‘Banco dos irreais’

É possível viver sem dinheiro e estabelecer trocas em outras bases além do capital. O artista plástico mexicano José Miguel González Casanova tanto crê nessa premissa, que criou o Banco dos Irreais, uma interface que une pedagogia e arte, trata a informação como economia, tem o tempo como valor, e está pronta para quem quiser participar.

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José Miguel González: “Nós questionamos a economia única do dinheiro como nos é naturalizado.” / Foto: Thiago Brito

A ideia é derivada de outros experimentos. Professor da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), mestre em  Artes Visuais, autor dos livros “Gramática del dibujo en 100 lecciones” e “Agenda oculta”, o artista residente no Museu de Arte do Rio realizou, em 1998, o Banco Intersubjetivo dos Desejos, um estudo sobre desejos, aqueles que se expõe e os que deixamos guardados. Foi conversando com grupos significativos que ele descobriu o que querem cubanos, mexicanos, venezuelanos, canadenses, colombianos e argentinos entre outros povos.

O Banco dos Irreais é uma plataforma capaz de reunir pessoas e fomentar a solidariedade e a autonomia frente ao dinheiro. Tanto que a  economia solidária pregada por Gonzalez estabelece uma nova relação entre produção e consumo, privilegia a cooperação e a boa vida, rechaça a acumulação de capitais. A circulação é livre, mas os bens são outros. “O que procuramos é criar uma ferramenta que promova a economia alternativa além do dinheiro como uma forma de economia única. Podemos criar entre nós outras maneiras de estabelecer trocas. Nós questionamos a economia única do dinheiro como nos é naturalizado”, justifica.

O irreal criado agora por Gonzalez não é imaginário. Tem cédula, até. E cada irreal  pode ter  o exato valor do conhecimento que se troca. Se alguém oferece aula de música, pode pedir em troca a aula de design que outro ofereça, e o contrato está selado. As relações podem ser simples assim, prega o professor artista. As lições são muitas e o  site contêm dicas, mutirão de horas aberto a projetos específicos, o troca-treco. O tempo é sempre o balizador das relações.

O projeto é estético na medida em que cria uma sensibilidade e possibilita experiências e relacionamento. Plataforma livre, sem fim determinado, neutra e sem controle da moeda, o Banco dos Irreais foi  inaugurado há apenas um mês e  já tem 80 cadastrados. “As pessoas fazem as trocas diretamente entre elas. A relação é direta entre os usuários e sem controle. O importante é construir novas formas de viver o mundo, de trocar experiências e questionar o capitalismo. Não é possível quantificar, a relação é uma vivência”, finalizou, arrancando suspiros da plateia.

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