A conversa está aberta

Nossa tradição cultural é um modelo em que tudo vem de cima, disse Ilana Strozenberg, antes de abrir a rodada de participação da plateia. Hora da conversa propriamente dita, que no Rio de Encontros, segue um modelo nada convencional. Entre opiniões, adendos, relatos e desabafos, perguntas que vão desde o que viabiliza sonhos ao que pode manter e fazer prosperar as participações de públicos mais diversificados. Afinal, quem paga a conta? Em ordem de perguntas e respostas, segue abaixo o que disseram plateia e provocadores.

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Plateia no Rio de Encontros / Foto: Thiago Brito

“Quero saber, delicadamente: quem paga a conta e remunera o trabalho que vocês fazem? Aliás, o financiamento é uma pergunta que vale para todos”, Denise Kosta

Rafael Rezende  – O Meu Rio saiu do campo das ideias para o concreto com grana de pessoas e organizações que têm muito dinheiro e acreditaram no projeto. A primeira grande vaquinha é uma possibilidade, mas há outras, como editais de fomento à cultura e coletivos de mídia e buscar quem tenha relação com o território. O financiamento colaborativo, como Catarse e a Benfeitoria, são opções também. Os financiadores estão todos no site, mas (o projeto) não seria sustentável só através deles. Fomos atrás também de quem tem pouca grana mas também acredita na ideia. É crowdfunding nato, na sua essência. A equipe é profissional e remunerada, tudo direitinho. E tem de estar tudo direitinho. Manter custa R$ 50 mil mensais. Para isso, precisamos de 2,5 mil doadores independentes a R$ 20 por mês. Essa é a meta.

Fabro Steibel – Abrimos para doação e tivemos dez reais. Temos dois financiadores internacionais, empresas, agências. E não tem dinheiro do governo no projeto.

José Miguel González Casanova – Faço pesquisa sem dinheiro. E como produtor cultural, acredito que o mercado encarece o produto, separa produtor do consumidor e isso é um problema. O capitalismo financeiro está em crise. Quero criar uma economia alternativa que funcione. Como posso ir além do museu onde está a instalação do projeto? Encontrei parceria nas Quebradas. No México, a mais importante moeda, o Túmin, criada pela Universidade Vera Cruz, funciona em 20 dos estados da república. Essa moeda tem um valor equivalente ao peso. São moedas usadas para consumir dentro do bairro, criar uma economia local. A moeda dos irreais pretende fomentar uma troca maior na cidade, do país, na América. Como podemos criar essa economia alternativa? Eu devolvo a pergunta: além do museu, da universidade, da academia e chegar a outros meios? Assim poderemos construir grandes redes de economia. Vamos criar essa economia? É um convite.

“Como mobilizar não somente o universitário, a academia, mas a juventude popular, já que as plataformas atuais mobilizam muito mais uma classe média? Como seduzir o jovem e aproximá-lo desse debate?”, Veruska Delfino

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Veruska Delfino: “Como mobilizar a juventude popular?” / Foto: Thiago Brito

Rafael Rezende – Na escolha da mobilização, a gente pensa no processo de exclusão. Não podemos estar em todos os lugares, por isso, importa com quem a gente se articula para fazer os projetos circularem. Será lançada este mês uma ferramenta de denúncia de violações de abuso do Estado. Uma ferramenta de encaminhamento das denúncias aos órgãos responsáveis. E o público será o que está sofrendo esses abusos.

“Para que vai servir o que já foi feito? Qual o próximo passo da Mudamos? Quem vai ouvir e concretizar essas propostas tendo um Congresso tão difícil como o que temos hoje?”, Anabela Paiva

Fabro Steibel – Pensamos em discutir políticas públicas. Temos a figura do embaixador, uma figura que se interessa por aquilo e que leva a ideia para frente. A Constituição tem mecanismo de participação direta. Com 1% das assinaturas o projeto pode ir direto. O próximo desafio é garantir a votação pelo telefone. O feedback da implementação é importante, algo que o Meu Rio faz muito bem. Quanto mais você quiser mudar, mais pressão você vai sofrer. Já aconteceu com pessoas que trabalharam conosco, de serem perseguidas.

Rafael Rezende – Existem casos em que os governos começaram a reconhecer a legitimidade das ferramentas de colaboração. Tentamos entender quando os governos de fato querem incluir as pessoas na tomada de decisões que vão mudar o destino do país e quando fazem marketing e criam iniciativas para parecer participativos. Somos usados como censores da cidade ou vamos de fato participar e ser considerados? Participação de fato, incluir o cidadão na tomada de decisões é outra coisa.

“Os três projetos têm um viés muito fortemente marcado pelo aspecto pedagógico. Não é comum a sociedade pensar sobre como elaborar políticas públicas. Porque não se ensina o que é política pública?”, Pedro Cruz

Rafael Rezende – Sem dúvida a educação política é a saída. Como dar protagonismo aos voluntários e membros? Nossa ideia de fortalecer o Meu Rio é buscar pessoas interessadas em participar e ensinar para outras pessoas.

“Quero saber da continuidade das mobilizações. O próprio debate sobre impeachment esfriou. Como manter o interesse? E como mobilizar onde a internet é restrita?”, Nyl MC

Rafael Rezende – Precisamos dialogar com partidos e parlamentares. A gente mantém o princípio do diálogo. Alguns políticos entenderam o que deve ser a política no seculo XXI e tem os que vão sempre dizer que somos uns moleques que querem se intrometer no trabalho de vereadores e deputados e tumutuar sessão. No Maranhão, o governo está querendo criar uma forma de participação. E lá o nivel de penetração da internet é muito baixo. Se no Rio achamos pouco, não sabemos como é lá. Há indicadores muito graves. As cidades começam a se deparar com a necessidade de ter internet e muitas cidades menores não têm esse acesso. Como chegar ao Nordeste? Estamos nos esforçando para chegar lá. O primeiro passo é entender que não dá para ser igual. No Rio, em São Luís ou Recife, cada território tem sua singularidade. Não é só replicar.

Fabro Steibel – Em 2013, perguntaram sobre as manifestações: o que aconteceu? Eu duvidei que alguém explicasse. Como pegar a voz das manifestações e as tornar possíveis de provocar transformação? A dificuldade de escutar permanece porque o que causou as manifestações continua. O Mudamos pega um pedacinho do que causou tudo aquilo. Duas mil pessoas vigiando uma escola parece pouco, mas é muita gente. Você não precisa de todo mundo, mas precisa ter gente para provocar. De onde as pessoas vêm é uma questão que temos de problematizar. A gente fala pra todo mundo.

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