Fotografar as origens

Criador da Zona Imaginária e da Casa Amarela, o fotógrafo MAURÍCIO HORA fala da experiência no Morro da Providência, que o tornou conhecido no mundo. Nascido no Morro da Providência e ourives de profissão, Maurício Hora trabalhou 19 anos com joias, até se transformar em fotógrafo. A primeira câmera ele comprou numa troca de um trabalho. E descobriu desde cedo que fotografar seu cotidiano não seria tão simples. “Me deparei com um problema sério: a polícia não podia me ver com a máquina”, conta. Driblando os impedimentos ora provocados pela polícia, ora pelos traficantes, Maurício conseguiu fotografar o lugar em que nasceu, estimulado por uma descoberta: o centenário do Morro da Providência, comemorado em 1998. É o ano da primeira exposição dele, “O olho da favela sobre a cidade”, sobre a história da favela mais antiga do Rio de Janeiro. “Comecei a fotografar em 83, mas só fui me envolver mesmo com a história da Providência por causa dos 100 anos. Antes, eu era um jovem idiota que queria sair da favela. Não tinha esse olhar transformador que tenho hoje”, resume. A exposição abriu muitas portas para Mauricio – e trouxe alguns problemas também. “O RJTV fez uma entrevista comigo, que foi exibida num sábado à noite, dia que a cadeia assiste TV. O dono do morro estava preso e ficamos sabendo que todo mundo lá parabenizava o cara. Durante muitos anos, eu era o suspeito de ser X9 número 1 do Morro”, lembrou.

A repercussão na imprensa na época chamou atenção para Maurício Hora, e levou à Providência muitos pesquisadores sobre o tema da violência na cidade e transformações na Zona Portuária. “Tem muita tese por aí que ajudei as pessoas a fazerem”, diz.

CONEXÃO FRANCESA

Numa dessas intermediações com o mundo acadêmico, chegou até ele um estudante francês, que mudou o trabalho todo que estava fazendo, ao conhecer a Providência. “O trabalho dele rodou o mundo e fez um barulho incrível. Na época, até o prefeito me chamou para explicar porque o Favela Bairro não estava passando pela Providência”, lembra. A conexão com a França ficou mais forte com a realização do Projeto Favelité, em 2006, Ano do Brasil na França, que cobriu a estação de RER Luxemburgo, em Paris, com fotos do Morro da Providência, feitas por Mauricio Hora. O artista francês JR viu as imagens e dois anos depois chegou à Providência para fazer um trabalho com Mauricio, gravando nas casas do Morro os rostos dos moradores fotografados – hoje uma dessas obras está em exposição no MAR – Museu de Arte do Rio. “Foi um projeto de um mês, com muita gente filmando, fotografando, e todo dia a gente tinha que ir falar com o tráfico. Com eles não tem antecedência. Se não avisar no dia, ferrou”, conta.

NEGOCIAÇÃO PERMANENTE

Nesse mesmo 2008, outro episódio de violência levou o pânico à Providência, com o assassinato de um morador pelo Exército. Ouvir Maurício falar da sua história na fotografia é conhecer também as muitas tensões que marcam a história da cidade, especialmente nas favelas. Fotografar a Providência nem sempre é simples, e as negociações são necessidade constante – seja com moradores, traficantes, forças policiais. “Até 1998, da rodoviária à Praça Mauá, ninguém andava com máquina fotográfica naquela região”, pontua Maurício, lembrando episódios de violência que marcaram a história da cidade, tendo a Providência como palco. No mais recente, moradores filmaram um grupo de policiais da UPP, alterando a cena de um suposto confronto com um traficante da região. “Aquilo não foi uma novidade. Nós ficamos sabendo do filme antes da mídia e conseguimos que a polícia atuasse logo e prendesse os policiais”, conta ele, lembrando que a rápida reação da Polícia Militar em relação aos policiais envolvidos foi determinante para a reação dos moradores ser diferente de 2001, quando uma situação semelhante mostrou imagens de policiais envolvidos na morte de uma menina inocente. A reação da comunidade foi furiosa: com mais de 10 carros queimados, além de ônibus e caminhões. “Foi o caos”, resume, lembrando outro episódio, em 2008, quando os moradores também reagiram a uma ação do Exército retirando do alto do morro a Bandeira do Brasil fincada lá.

MAIS CÂMERAS, MENOS ARMAS

Mais conhecido no exterior do que no Brasil, Mauricio Hora mostrou no Rio de Encontros o programa Manos e Minas, feito em 2014 pela TV Cultura de São Paulo, falando sobre a origem fotógrafo. No programa, sabe-se que o pai dele foi traficante e que sua atuação é voltada para que as crianças troquem brinquedos de armas por câmeras fotográficas. “É uma arma muito mais poderosa”, resume.

Desde 2013, Maurício tem ido com frequência a Canudos, dedicando-se a um trabalho que traça paralelos entre a cidade, onde havia a planta chamada favela, e a Providência, que primeiro foi chamado Morro da Favela, e abrigou ex-combatentes de Canudos. “A ideia é fazer um livro de arte, construído por mim, mas não um livro meu. É um livro de pertencimento da comunidade”, explica ele, que vem percebendo cada vez mais repercussão do trabalho no Brasil. “Antes, para conseguir outro olhar sobre a favela, só através da mídia estrangeira”.

Também professor de fotografia, Mauricio criou a cooperativa de fotógrafos Zona Imaginária, pensando muito na aquisição de equipamentos para uso dos fotógrafos. “Tem equipamentos que são muito caros e sozinho é muito difícil comprar e é necessário ter. São poucos fotógrafos, por exemplo, que vão poder cobrir as Olimpíadas: quem não estiver dentro de jornal, possivelmente não vai ter equipamento para cobrir aquilo. A dificuldade é essa. Eu penso hoje na Cooperativa por conta disso: não para estar ensinando, mas para estar agenciando ou nos preparando para ter equipamentos”, explica. Criador também de uma casa de cultura na Providência, a Casa Amarela, Maurício conseguiu mobilizar moradores para que o espaço não fosse demolido, na esteira de transformações que estão acontecendo na Providência. Mas anda meio desencantado com o espaço, invadido pela polícia três vezes em 2014 e uma este ano. “A última acabou com a casa. Eles arrombaram a porta e foram embora. As crianças entraram e bagunçaram tudo”. A justificativa para a invasão? Ele responde citando uma conversa tensa de 2005. “Um oficial mostrou a mão espalmada para mim e disse: ‘tenho esse mandado aqui que serve para a comunidade inteira’”. A história na Providência vem mudando, mas nem tanto.

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