Diálogo de tempo e imagens

A historiadora ANA MARIA MAUAD fala do papel da fotografia como mediadora do passado Com perdão do lugar comum, a apresentação “Prática fotográfica e experiência histórica – a fotografia como agenda história”, feita pela professora da UFF Ana Maria Mauad foi uma aula interessante e sucinta sobre fotografia, que mobilizou a plateia do Rio de Encontros. “As perguntas do debate permeiam minha reflexão de mais de 30 anos trabalhando sobre fotografia”, disse Ana, historiadora social, que fez uma síntese das questões que vem abordando em suas pesquisas sobre a relação entre história e fotografia. “Como não sou historiadora da fotografia, mas historiadora social, a fotografia para mim é um suporte, uma mediação com o passado”, disse ela, que apresentou algumas ideias-chave com as quais trabalha. “Em primeiro lugar, na relação entre fotografia e história, a fotografia é uma imagem documento, uma fonte histórica”, explicou, apresentando uma imagem de Augusto Malta, com a qual ela trabalhou num projeto para o Museu da Eletricidade, e que permitia entender os sistemas de fornecimento de energia para a cidade – a gás e elétrico – através daquele registro fotográfico. “A documentação escrita não dava informações que a fotografia sintetizou. Neste caso, ela é uma imagem documento”.

IMAGEM COMO DOCUMENTO E MONUMENTO

Outra ideia chave apresentada por Ana é a da fotografia como imagem-monumento. “O passado nos deixa de legado uma série de representações de como as sociedades queriam se ver no futuro”, explicou Ana, dessa vez apresentando uma imagem clássica da fotografia, chamada “Os 30 Valérios”, feita pelo fotógrafo paulista Valério Vieira, em 1902, em que o próprio fotógrafo aparece 30 vezes na imagem, desempenhando 30 papeis diferentes, “numa época em que não existia Photoshop”. “Ele cria um monumento ao próprio realismo fotográfico, discutindo e apontando representações em torno dessa ideia da fotografia como espelho do real”, disse. Como as ideias não são estanques, logo depois de fazer a diferença entre as imagens, Ana Mauad demonstrou que ambas podem também ser encaradas como de outro tipo. “Gosto de pensar um pouco que a fotografia que a gente chama aqui de imagem documento é também um monumento à lógica do trabalho, num momento pós- Abolição, no início do século 20, onde o trabalho tradicionalmente vinculado à mão de obra escrava, tinha que ser reconfigurado em termos de representação social. Ela cria uma representação que se projeta para o futuro da própria ideia do trabalho. Ao mesmo tempo, a imagem que a gente chama de monumento é também uma imagem documento, porque aponta registros da técnica fotográfica, do estado da arte em termos de representação. Então, quando a gente trabalha com fotografia e história, a fotografia é tanto fonte quanto objeto de estudo da história”, explicou.

FOTOGRAFIA COMO AGENTE DA HISTÓRIA

Mas isso não é tudo. “A fotografia é também agente da história: há experiências sociais que só existem porque são resultado de um trabalho fotográfico”, afirmou Ana, referindo-se à produção da fotógrafa americana Genevieve Naylor, que nos anos de 1940 e 1941 fotografou o Brasil a serviço do Departamento de Estado Norte Americano. “Esse é um bom caso de fotografia como agente da história porque ela produz um conjunto de imagens da cidade que circularam como exposição itinerante nos Estados Unidos, dentro de um protocolo político de relações internacionais, que buscava criar a face do bom vizinho para o Brasil”, explicou.

Nos últimos anos, Ana vem estudando as relações das múltiplas práticas fotográficas – a fotografia pública, institucional, de imprensa, familiar – e a obra de Genevieve tem tido especial atenção em sua análise. Para Ana, o conjunto das fotos sobre o Brasil, apresentadas numa exposição em Nova York, representa uma “prática que engendra diferentes experiências históricas – de intimidade, publicização, de construção de identidade, de alteridade”. A fotografia de Genevieve Naylor atua, portanto, como “agente da história, dotada de um poder de ação, modificação do mundo social”. Com a missão de fotografar o país no período da política da boa vizinhança, Genevieve produziu uma documentação bastante extensa. E Ana ressalta que o trabalho em nada parece um mero registro burocrático ou desinteressante.

De volta aos Estados Unidos, ela fez exposição “Rostos e Lugares do Brasil”, sendo a primeira mulher a expor no MoMA. Apresentou 50 imagens – selecionadas de um total de mais de 2 mil fotos – produzidas no Rio (ela morou Leme), na região do Rio São Francisco e no Sertão, registrando pessoas, hábitos, festas populares, Carnaval, e cenas cotidianas. A exposição foi dividida em cinco temas: Carnaval, Copacabana, Rio de Janeiro, Sertão e Festas Religiosas. “Essas imagens permitem, ao mesmo tempo, perceber que, para além dos protocolos oficiais, o olhar sensível de uma fotógrafa, que se formou na New York School of Social Research e participava de uma geração de fotógrafos formados pelo olhar engajado, permitia com que ela produzisse uma imagem de um Rio de Janeiro que não era só litoral, apesar de ele estar presente. Ela mostra uma cidade que foi conformada pelos seus diferentes tipos sociais, onde a valorização do sujeito, a relação dele com seu lugar social estava sendo definida pela forma como ela fotografava. Nas fotos dela, o Rio se desenhava pelas lentes da boa vizinhança como um lugar plural, e as imagens produzem um sentido fora do padrão das fotos oficiais produzidas pelo próprio Governo Vargas”, pontuou Ana.

FOTOGRAFIA PÚBLICA

“Trouxe essas imagens para a gente poder ver como elas produzem uma representação da cidade que vai além dos protocolos oficiais e, ao mesmo tempo, identificam o Rio de Janeiro como uma cidade americana, no mosaico das repúblicas americanas, no momento em que os Estados Unidos estão definindo as três Américas como um espaço de controle político dentro do quadro da polarização entre democracia e nazismo. A fotografia dela está atuando neste sentido. Então é um agente da política da boa vizinhança”, pontuou.

Esse é um exemplo de fotografia pública, conceito que Ana Maria vem desenvolvendo nos últimos tempos. “Os movimentos de 2013 me animaram muito a pensar sobre isso”, contou ela, que vem pensando sobre “o que significa a capacidade de a fotografia democratizar a imagem?”. “Trabalhos como o do Mauricio Hora, do Imagens do Povo, da Tatiana Altberg, que é tornar essa imagem pública do ponto de vista de construção do espaço público. Politizar o espaço visual é um desafio”, acredita.

Interessada na reflexão crítica sobre fotografia, Ana Mauad, ao debater com a plateia, falou sobre três questões principais, levantadas no debate. A primeira é de ordem ética, que, como ela ressaltou, ultrapassa o fato de estar portando ou não uma câmera fotográfica. “É uma posição que te coloca como sujeito que compartilha determinados princípios. Essa é uma discussão importante que a gente faz quando se organiza coletivamente. E quando a gente porta um instrumento, que por mais que seja um celular, tem um poder de fogo. Nós somos sujeitos éticos. E ética significa comprometimento com a situação, com o resultado, ter clareza de que as imagens ganham vida quando são produzidas e traçam uma biografia. No nascimento da imagem, tem a condição do sujeito que opera a câmera e que produz imagem. Essa condição exige comportamento ético – e essa é uma coisa que a gente não pode esquecer”.

AUTONOMIA E CONTROLE

A segunda questão identificada por Ana está relacionada com o futuro da fotografia e do profissional da fotografia. “Existem alguns trabalhos sendo produzidos sobre essa questão da pluralização do equipamento e a ampliação do que é o sujeito fotógrafo”, disse, ampliando a reflexão sobre a dimensão do controle da própria imagem. “Ou melhor, da posse que você tem da sua autorepresentação – controle é uma palavra muito contaminada –, e de como você quer ver essa representação se tornar pública. Existe o uso privado da imagem. Mas hoje, cada vez mais, a gente tem que discutir o sentido público da imagem, o espaço público virtual que foge do controle”, disse, lembrando o caso da estudante do Colégio Pedro II, de 12 anos, vítima de abuso sexual, que teve um vídeo vazado na internet – o que levou à expulsão de três alunos. “O que significa isso? Justamente o descontrole dessa autoridade, dessa autonomia. O profissional tem uma autoridade, uma competência adquirida, uma atribuição que garante para ele mesmo como profissional. Existe um espaço de reconhecimento dessa profissionalização e vocês mesmos estão apontando que está mudando, mas não deixa de existir”. Para Ana, a pluralização de equipamentos não vai fazer com que esse reconhecimento profissional se perca. “Se a gente fica demonizando a multiplicação de equipamentos e a capacidade de você valorizar a diversidade, você acaba cerceando. O que volto a defender, que acho fundamental, é autonomia e responsabilidade”.

Por fim, a terceira questão identificada por Ana Mauad tem a ver com os conhecimentos que a fotografia produz. “A fotografia coloca um desafio epistemológico importantíssimo, que é a relativização do valor de verdade e a possibilidade de conhecimento não seja absoluto. A fotografia é sempre relativa. Isso é bom e ruim. Mas isso é um fato. Por isso que quem trabalha com fotografia do ponto de vista histórico, sociológico, antropológico, não pode perder a dimensão do circuito social, as formas de apropriação e aquilo que venho discutindo que é a forma como a imagem traça uma biografia, uma trajetória”.

TEMPOS COLETIVOS

Coube a Ana Mauad fazer as considerações finais da tarde. “A gente vive um momento importantíssimo de transição entre um determinado registro, inclusive histórico, de memória, onde a relação com o passado se faz de uma determinada forma, para um outro regime de história, que, acredito, se configura em função do valor do coletivo. Acho que cada vez mais as respostas deixam de estar no indivíduo e passam a estar num sentido de comunidade, quer seja ela um coletivo, uma favela, um espaço de sociabilidade… A forma que a gente tem para enfrentar o confronto é justamente recuperar e valorizar a emergência dessa noção de coletivo e de comunidade que é a base de qualquer principio de valorização daquilo que ainda vale a pena defender, que é a democracia”.

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Para saber mais sobre a fotógrafa Genevieve Naylor, leia o artigo “Fotografia e a cultura política nos tempos da política da Boa Vizinhança”, de Ana Maria Mauad, publicado nos Anais do Museu Paulista e disponível neste link.

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