A construção do mito

O Pesquisador, fotógrafo e professor PEDRO VAZQUEZ  fala sobre a contribuição da fotografia na formação da Cidade Maravilhosa. O olhar estrangeiro sobre o Brasil foi o ponto de partida da apresentação de Pedro Vazquez, “Rio de imagens: marcos fotográficos inaugurais para a construção do mito da cidade maravilhosa”. Lembrando que por aqui – assim como na Índia e na China – a fotografia era feita por pessoas vindas em geral do Hemisfério Norte –, Pedro, pesquisador da fotografia, ressaltou os preconceitos embutidos que as imagens carregavam nessa época. “Hoje, é um ponto de vista totalmente diferente”, compara, referindo-se ao cenário atual, em que há muitos casos em que as realidades brasileiras são fotografadas por quem as vive e conhece por dentro.

Traçando um paralelo com o tempo das grandes reportagens, feitas em países distantes sempre por fotógrafos estrangeiros saídos do Hemisfério Norte, Pedro Vazquez lembrou que o olhar de fora, muitas vezes, carrega um tipo de visão parcial da realidade. “Mesmo a política da boa vizinhança, que mascarava um projeto de domínio do mundo todo de um modo geral, traz embutida um preconceito, porque é uma certa bondade de quem vê, estendendo a mão para aquele que é menos preparado”, citou. E comparou com a possibilidade atual, de um “ponto de vista totalmente diferente”, apesar de persistir, especialmente em relação às áreas populares, a reprodução de uma visão ainda bastante negativa daquele universo.

O INÍCIO DA FOTOGRAFIA NO BRASIL

Pedro lembrou a dificuldade de circulação pela cidade como um dos motivos para a entrada de fotógrafos em determinadas áreas da cidade. Daí a importância da visão de quem é de dentro das comunidades dominar a fotografia. Respondendo às questões do debate, Pedro Vazquez lembrou que o papel da fotografia é importante na construção da imagem de qualquer cidade, mas no Brasil há um detalhe importante a destacar, que muda a relação com a fotografia em relação a Europa, por exemplo. “Aqui, havia proibição nos tempos coloniais de retratar o Brasil, seja por texto ou imagens. Tirando o Brasil Holandês, que artistas residentes retratam algumas cidades, só os artistas viajantes que passavam por aqui escapavam dessa proibição. Isso durou até 1808, quando a Família Real Portuguesa veio para o Brasil. Só na criação da Escola Imperial de Belas Artes, a chamada Missão Artística Francesa, em 1816, que passa a ter incentivo de produção de imagens”, pontuou. O resultado disso é que, quando surge a fotografia, cidades como Paris, Roma e Londres, já eram retratadas há centenas de anos, através das pinturas. “Para essas cidades, a fotografia é apenas mais um registro. No Brasil, quase sempre a fotografia é o registro inaugural”, disse Pedro, lembrando que os pintores só foram para as ruas com seus cavaletes retratar o Rio de Janeiro em 1870. “Nessa época, a fotografia já está registrando o Rio desde 1840”, lembrou, citando Hercule Florence, francês radicado na Vila de São Carlos, atual Campinas, pioneiro da fotografia. “Há um registro que ele fez um fotografia da Cadeia Velha, a primeira fotografia captada com lente, na década de 1830. Essa imagem a gente sabe que existiu, mas ela não sobreviveu”.

FOTOGRAFIA SEM FILTROS

Dando um salto no tempo, Pedro Vazquez destacou aspectos importantes do momento atual, em que o cidadão passa a ser produtor da imagem, podendo compartilhá-la nos seus círculos na internet. “Com as redes sociais, você pode escapar da censura, do filtro oficial, do filtro do bom gosto ou da adequação. É uma mudança muito grande. É a primeira que se tem na história essa forma de expor, sem precisar de uma estrutura como o museu ou a imprensa. Sempre que tem um curador ou editor, ele exerce algum tipo de controle em nome da instituição que ele representa”. Pedro lembrou o processo de idealização que sempre há em relação à fotografia – para o bem ou para o mal. “A fotografia não tem nada de objetivo. Ela é feita por um ser humano. A parte objetiva da fotografia é a mecânica, que é a máquina sem sentimentos.

Mas o operador tem sentimento até demais. Você fotografa para condenar ou louvar – não tem meio termo. Não existe objetividade jornalística, nunca existiu”, afirma categórico. “O ser humano não é objetivo. É passional. Isenção da imprensa é um mito, não um fato”.

CLÁSSICO E CONTEMPORÂNEO

Comparando as diversas possibilidades de visão sobre a cidade, Pedro Vazquez citou como exemplo duas exposições de 2015, sobre o Rio de Janeiro, em que fez curadoria. Uma delas, no Centro Cultural dos Correios, expunha as imagens reunidas há 50 anos por Gilberto Ferrez num livro para colecionadores feito por Raymundo Ottoni de Castro Maya, para comemorar os 400 anos do Rio. “Era um livro caríssimo, e fizemos uma versão mais popular, com a exposição. É a visão clássica”. A outra exposição, Ser Carioca, realizada dentro do Foto Rio, idealizada por Milton Guran e Julieta Roitman. “Aí é um outro lado. Tinha aquela, da visão clássica, oficial, e esta, da qual qualquer pessoa podia participar da convocatória, atendido por fotógrafos consagrados que também se submeteram a esse processo”, lembrou Pedro Vazquez. A mobilização foi grande e a exposição, dividida por temas, ocupou vários espaços culturais da cidade.

Pedro Vazquez mostrou as técnicas de captação e difusão da imagem – daguerreótipo, estereoscopia, litografia – e as primeiras experiências de registro de imagens da cidade, como o Passeio Público, a Santa Casa de Misericórdia, a Praça 15, Rua do Ouvidor, Morro do Castelo. Muitas das imagens receberam algum tipo de interferência depois de captadas, porque as máquinas não eram capazes de registrar tudo o que o olho via. “Não era falsificação. Era uma imagem idealizada”, disse, fazendo a historiografia da fotografia, e lembrando fotógrafos importantes para a difusão da imagem da cidade. “Antes, a referência máxima do Rio era o Pão de Açúcar porque todo mundo entrava na cidade por ali, de navio. Depois, com a instalação do Cristo, passou a ser o Corcovado. Com o tempo, vão mudando os eixos dos interesses fotográficos da cidade”, disse Pedro, mostrando imagens históricas da Central do Brasil, do Canal do Mangue, do Chapéu de Sol – todas disponíveis no banco de dados Brasiliana Fotográfica, desenvolvido pelo Instituto Moreira Salles, com o acervo da Biblioteca Nacional. “O que quis mostrar nessa seleção é que, na cidade, você conquista ou privilegia coisas que antes ou depois são desprezadas, e sempre a fotografia está mediando isso”, concluiu.

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