Por uma cidade sem fronteiras

ANDRÉ BALOCCO fala sobre o papel da imprensa na construção do olhar sobre as favelas.

O destaque dado pelos jornais do Rio à morte de um menino de 11 anos no Caju, ocorrida na véspera, foi o ponto de partida do jornalista André Balocco, primeiro dos três provocadores a falar no 5º Rio de Encontros, dia 24 de setembro. “Quem leu as capas dos três jornais que sobraram no Rio de Janeiro já começa a ter ideia de como funciona o filtro desses jornais”, pontuou Balocco, referindo-se ao Globo, que não destacou o assunto, e ao Extra e O Dia, que deram manchete na primeira página.

Balocco centrou a fala na tensão que existe na narrativa dos jornais sobre a realidade das favelas. “Como a imprensa vê a favela? Nós estamos todos cegos, porque só olhamos para as consequências e não para as causas”, criticou. E citou alguns indicadores do Caju, onde o menino Herinaldo Vinicius foi morto – “assassinato é o que houve”, frisou Balocco. O bairro ocupa a 111ª posição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) entre os 160 do município do Rio de Janeiro. “Como pode um bairro do Rio, a poucos quilômetros da prefeitura, perto do aeroporto, perto do Centro, ser um lugar tão esquecido?”, questionou.

MUDAR O MUNDO

Jornalista de O Dia, Balocco é o criador da coluna Rio Sem Fronteiras, proposta ao jornal pouco tempo depois de ele voltar a morar no Rio, no final de 2012, após um período trabalhando em São Paulo. “O Rio estava vivendo um processo de tentar incluir na cidade formal suas favelas. Soube da FLUPP (Festa Literária Internacional das UPPs), no Morro dos Prazeres, e já achei legal poder entrar no morro sem pedir autorização. Fiz a matéria para o Dia, mas depois quis apurar mais. Comecei a investir nisso, que passou a se chamar Rio Cidade sem Fronteiras, uma tentativa de trazer para o leitor do asfalto o processo de 15 dias de imersão pelas comunidades”, contou.

No fim de cada período de imersão nas comunidades, era realizado um debate, reunindo o poder público, ONGs, lideranças locais e moradores. “Foram 12 encontros e pessoas quenunca tiveram oportunidade de ter a voz ouvida na grande imprensa podia falar”, lembrou Balocco, destacando este como um momento importante na própria carreira. “Quis ser jornalista para mudar o mundo. Hoje sei que dá para mudar o meu mundo. E caí onde eu queria chegar”.

PELA INCLUSÃO

O tema deu certo, mas Balocco não escondeu da plateia que, internamente, passou a enfrentar certa resistência entre colegas, que não enxergavam valor na iniciativa. “Tinha dificuldade de encaixar as matérias dentro das editorias”, contou. O material se transformou na coluna Rio Sem Fronteiras e depois no Guia das Comunidades, que teve 23 edições publicadas, até ser encerrado pelo jornal, por alegada falta de patrocínio. “A 24ª edição está pronta”, lamenta.

Além de uma cobertura mais abrangente pelos jornais, para Balocco é crucial resolver a questão das comunidades, transformando-as em bairros populares. “Só a inclusão salva”, acredita.

Links importantes:

Coluna Rio Sem Fronteiras, no jornal O Dia

Guia das Comunidades, do jornal O Dia

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