Conexão favela-subúrbio: uma alternativa possível

O cineasta GUSTAVO MELO fala sobre o valor de filmar o universo familiar

“O suburbano se uniu aos favelados e a gente conseguiu fazer cinema”. Foi assim que Gustavo Melo resumiu sua trajetória de menino de Brás de Pina, zona norte do Rio, a cineasta com filmes exibidos em festivais importantes do mundo, como Cannes. Um dos provocadores do 5º Rio de Encontros, Gustavo tratou o assunto proposto – “A favela no imaginário carioca” – a partir da sua história de vida. “Tem uma frase do Chico Sciense que diz: ‘a tecnologia do povo é a vontade’. Isso me leva pra frente até hoje”.

Formado pelo Nós do Morro, onde começou a dar aula logo depois de ingressar no grupo, sendo o primeiro morador de fora da favela do Vidigal aceito por lá, Gustavo falou da importância de se contar histórias do universo próximo. “Não se diz que se você quer ser universal, fale do seu quintal? Falei noutro dia pro pessoal de um cineclube da Baixada: vocês têm a responsabilidade de mostrar a Baixada porque ninguém vai dizer isso por vocês”, afirmou.

O CINEMA E A GUERRA

São exemplos do quintal que Gustavo Melo vem mostrando ao longo da carreira os filmes “A distração de Ivan” – selecionado para a Semana de Crítica do Festival de Cannes, em 2010 –, “O jeito brasileiro de ser português”, e “Picolé, pintinho e pipa”. Os dois primeiros foram filmados em Brás de Pina. O último, no Vidigal, no intervalo de uma das guerras de facções daquela favela com a vizinha Rocinha. “Entre 2004 e 2006, a gente queria fazer o filme e não conseguia porque a guerra entre as favelas era mais forte. Mas um dos milagres que aconteceu na época foi esse: o boca a boca com os pedidos a todos os setores – tráfico, batalhão – foi tão grande que a guerra parou durante seis dias pra gente filmar. A guerra não tem hora para acontecer. E durante aqueles seis dias os moradores puderam resgatar o cotidiano. As pessoas batiam palma pra gente. E os bandidos mandavam perguntar quando ia terminar de filmar, porque eles queriam voltar a dar tiro”, contou.

A vontade de fazer cinema fez Gustavo Melo tentar o vestibular para a UFF e não desistir mesmo sem conseguir passar. “Na época, pré-retomada, o mercado estava parado mas, mesmo assim, eram 15 candidatos por vaga. Fazer cinema sempre esteve no imaginário da galera”, conta ele, que credita o mau desempenho ao ensino técnico do segundo grau, numa escola pública em Vigário Geral, que não incluía disciplinas como física, química e matemática, exigidas no vestibular.Da época da escola, aliás, ele guarda a memória de uma história triste, violenta e emblemática da cidade. “Estava no ônibus 906 indo para a escola e vi os corpos da chacina de Vigário Geral”.

Depois de assistir a uma entrevista de Cacá Diegues na TV, resolveu procurá-lo, mandando um fax para o cineasta, e dizendo que queria fazer cinema. “Fui até o Centro passar o fax. Quando cheguei em casa de volta, meu irmão disse que o Cacá tinha ligado. Fui ao escritório dele e ainda vi o Caetano Veloso, com quem ele dividia o escritório na época”, lembra. Na época, Cacá estava captando recursos para fazer “Orfeu”. Gustavo teria uma chance, mas acabou não acontecendo. Foi então fazer curso com Tizuka Yamazaki, na Vídeo Fundição, da Fundição Progresso, e os dois amigos mais próximos que fez acabaram saindo do país.

VIDIGAL, A SAÍDA

“Depois é que fui entendendo o que houve com minha geração. A década de 90 já representava essa falência do estado, principalmente na área cultural. Meu bairro não tinha cultura, nem na Zona Norte. Fui ficando meio desesperado, ficava muito isolado, meus amigos já no crime, nas drogas…” Fora da Faculdade, sem trabalho e sem amigos, voltou a Cacá, enviando nova correspondência. Foi aí que o cineasta sugeriu que ele procurasse o Nós do Morro, onde Rosane Svartman e Vinicius Reis já tinham começado a dar aulas de cinema. “Cheguei lá e o mundo parou: eles estavam ensaiando “Abalou, um musical funk”, e iam fazer um ‘passadão’, que nunca tinha ouvido falar e soube naquele momento o que era, um ensaio direto, sem interrupção. O Guti me deu a maior atenção. O musical era uma explosão. Comecei a fazer a conexão Brás de Pina-Vidigal”.

Em pouco tempo no Nós do Morro, Gustavo Melo foi chamado por Guti Fraga, criador do projeto, para dar aulas. “A melhor coisa que aconteceu foi dar aula porque os alunos eram muito exigentes. Eu comecei a estudar também”, conta ele, autodidata. Ao lembrar sua história, Gustavo se refere a uma época em que subir o Vidigal era assustador. “Quem leu Abusado, sabe que tinha lá um cara, Patrick, que era super violento. Eu tinha muito medo. Na época, você não subia um morro da Zona Sul sem ninguém. Mas fui subindo, vendo muita gente na rua, criança brincando. Me adaptei muito rápido ao Vidigal”. A distância Zona Norte-Zona Sul, vencida durante as madrugadas, incluía uma rotina de assaltos e sobressaltos. “Um assalto no ônibus é um pesadelo”, sabe. Muitas das histórias vividas por Gustavo acabaram se tornando roteiro de filmes, ambientados em lugares da cidade que ele conhece bem: o subúrbio e a favela, onde residem tipos que fazem parte do imaginário carioca.

A conversa com Gustavo Melo incluiu várias referências a seus filmes, listados abaixo.

Picolé, pintinho e pipa

A distração de Ivan

O jeito brasileiros de ser português

Filmes do Nós do Morro

Filmes importantes sobre Rio de Janeiro:

Rio 40 graus

Rio Zona Norte

Meninas

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s