As favelas no imaginário carioca

Um jornalista, um museólogo e um cineasta debatem o tema no Rio de Encontros.

Terminou em poesia o 5º Rio de Encontros, em que um jornalista, um cineasta e um museólogo foram os provocadores convidados para falar sobre o tema“A Favela no Imaginário Carioca”. No fim do debate, mediado pela antropóloga Mariana Cavalcanti,professora do Instituto de Estudos de Sociedade e Política da UERJ, Mario Chagas recitou “Declaração de Amor para Rose Méier”, poema dele que lembra vários bairros do Rio, numa ode à cidade. Inesperado, não poderia ter sido melhor o fechamento de uma tarde de conversas densas, com diversos olhares sobre uma questão que mobiliza o Rio de Janeiro: a relação entre cidade e favela, do ponto de vista de seus moradores.

Confira os destaques da participação de Mario Chagas

“Imaginário é um tema bastante amplo, sobre como a gente pensa, quais são nossas imagens a respeito do mundo e da vida, qual é nossa percepção a respeito de uma determinada realidade. Como sempre, a gente procura perspectivas que sejam bastante diferenciadas para participar do debate”, disse Ilana Strozenberg, d’O Instituto, que promove o Rio de Encontros, com patrocínio da ESPM, e em parceria como CESeC, a Casa Fluminense, a Universidade das Quebradas, o Rio Real Blog e o Vozerio.

Discussão quente, que tem dominado a pauta dos jornais, das ruas e das redes sociais, a tensão nas praias não ficou de fora da conversa, assim como a morte de mais uma criança numa comunidade do Rio de Janeiro. “Morte, não. Assassinato”, reforçou o jornalista André Balocco, que abriu as apresentações do painel,citando vários números sobre o Caju, onde morava Herinaldo Vinicius, de 11 anos, atingido com um tiro na comunidade Parque Alegria, na véspera, a quarta-feira, 23.

Responsável pela coluna “Rio sem Fronteiras” e pelo “Guia das Comunidades”, que teve 23 edições publicadas pelo jornal O Dia até ser cancelado, Balocco chamou a atenção da plateia para a responsabilidade de cada um na construção da cidade plural – e mais igual.

Confira os principais trechos da participação de André Balocco

Mariana Cavalcanti pediu que a cada convidado que falasse de sua relação com as favelas, “pra gente trazer o debate para a esfera dos afetos, das nossas próprias trajetórias, outra característica que singulariza as conversas do Rio de Encontros”, disse.

Diretor de histórias ambientadas em bairros populares do Rio, o cineasta Gustavo Melo fez sua apresentação baseada em sua história de vida. “O suburbano se juntou aos favelados e fomos fazer cinema”, resumiu ele, referindo-se à sua entrada no Nós do Morro, onde construiu sua carreira no cinema.

Confira os principais trechos da participação de Gustavo Melo

Ao final das apresentações, a plateia debateu o tema por quase duas horas de intensa troca de experiência e ideias, em que participaram os integrantes da Turma Rio de Encontros, alunos da ESPM, da Universidade das Quebradas, e da Faculdade de Comunicação da UERJ, além de convidados.

Confira as principais frases do debate

O próximo Rio de Encontros – o penúltimo do ano – será no dia 29 de outubro, no auditório da ESPM, com o tema “Um Rio de Imagens: a fotografia e a construção da memória da cidade”. Acompanhe o Rio de Encontros também pelo Facebook.

Por uma cidade sem fronteiras

ANDRÉ BALOCCO fala sobre o papel da imprensa na construção do olhar sobre as favelas.

O destaque dado pelos jornais do Rio à morte de um menino de 11 anos no Caju, ocorrida na véspera, foi o ponto de partida do jornalista André Balocco, primeiro dos três provocadores a falar no 5º Rio de Encontros, dia 24 de setembro. “Quem leu as capas dos três jornais que sobraram no Rio de Janeiro já começa a ter ideia de como funciona o filtro desses jornais”, pontuou Balocco, referindo-se ao Globo, que não destacou o assunto, e ao Extra e O Dia, que deram manchete na primeira página.

Balocco centrou a fala na tensão que existe na narrativa dos jornais sobre a realidade das favelas. “Como a imprensa vê a favela? Nós estamos todos cegos, porque só olhamos para as consequências e não para as causas”, criticou. E citou alguns indicadores do Caju, onde o menino Herinaldo Vinicius foi morto – “assassinato é o que houve”, frisou Balocco. O bairro ocupa a 111ª posição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) entre os 160 do município do Rio de Janeiro. “Como pode um bairro do Rio, a poucos quilômetros da prefeitura, perto do aeroporto, perto do Centro, ser um lugar tão esquecido?”, questionou.

Balocco propôs ao Dia a criação da coluna Rio Sem Fronteiras pouco tempo depois de ele voltar a morar no Rio, no final de 2012, após um período trabalhando em São Paulo. “O Rio estava vivendo um processo de tentar incluir na cidade formal suas favelas. Soube da FLUPP (Festa Literária Internacional das UPPs), no Morro dos Prazeres, e já achei legal poder entrar no morro sem pedir autorização. Fiz a matéria para o Dia, mas depois quis apurar mais. Comecei a investir nisso, que passou a se chamar Rio Cidade sem Fronteiras, uma tentativa de trazer para o leitor do asfalto o processo de 15 dias de imersão pelas comunidades”, contou.

No fim de cada período de imersão nas comunidades, era realizado um debate, reunindo o poder público, ONGs, lideranças locais e moradores. “Foram 12 encontros e pessoas que nunca tiveram oportunidade de ter a voz ouvida na grande imprensa podia falar”, lembrou Balocco, destacando este como um momento importante na própria carreira. “Quis ser jornalista para mudar o mundo. Hoje sei que dá para mudar o meu mundo. E caí onde eu queria chegar”.

O tema deu certo, mas Balocco não escondeu da plateia que, internamente, passou a enfrentar certa resistência entre colegas, que não enxergavam valor na iniciativa. “Tinha dificuldade de encaixar as matérias dentro das editorias”, contou. O material se transformou na coluna Rio Sem Fronteiras e depois no Guia das Comunidades, que teve 23 edições publicadas, até ser encerrado pelo jornal, por alegada falta de patrocínio. “A 24ª edição está pronta”, lamenta.

Um momento importante que mostrou a relevância da abordagem pelo jornal e a inserção dele na comunidade foi lembrado por Silvia Ramos, que destacou a realização do Fórum Alemão: saídas para a crise , promovido pelo jornal O Dia, o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Cândido Mendes (CESeC), e Instituto de Estudo de Religiões (ISER), reunindo moradores, lideranças da comunidade, ativistas de toda a cidade, autoridades da Prefeitura, Polícia Militar e Governo do Estado, na sede do Viva Rio para um encontro em abril deste ano, logo após o menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos.

“No dia do Fórum Alemão, você, Balocco, fez com que um jornal, O Dia, fosse um parceiro no debate da cidade. Foi muito importante”, elogiou Silvia Ramos.“O Fórum Alemão foi uma coisa espiritual que aconteceu: criou-se um canal de diálogo. O que todo mundo quer é melhoria”, resumiu Balocco.

Além de uma cobertura mais abrangente pelos jornais, para Balocco é crucial resolver a questão das comunidades, transformando-as em bairros populares. “Só a inclusão salva”, acredita.

Links importantes:

Coluna Rio Sem Fronteiras, no jornal O Dia

Guia das Comunidades, do jornal O Dia

 

Conexão favela-subúrbio: uma alternativa possível

O cineasta GUSTAVO MELO fala sobre o valor de filmar o universo familiar

“O suburbano se uniu aos favelados e a gente conseguiu fazer cinema”. Foi assim que Gustavo Melo resumiu sua trajetória de menino de Brás de Pina, zona norte do Rio, a cineasta com filmes exibidos em festivais importantes do mundo, como Cannes. Um dos provocadores do 5º Rio de Encontros, Gustavo tratou o assunto proposto – “A favela no imaginário carioca” – a partir da sua história de vida. “Tem uma frase do Chico Sciense que diz: ‘a tecnologia do povo é a vontade’. Isso me leva pra frente até hoje”.

Formado pelo Nós do Morro, onde começou a dar aula logo depois de ingressar no grupo, sendo o primeiro morador de fora da favela do Vidigal aceito por lá, Gustavo falou da importância de se contar histórias do universo próximo. “Não se diz que se você quer ser universal, fale do seu quintal? Falei noutro dia pro pessoal de um cineclube da Baixada: vocês têm a responsabilidade de mostrar a Baixada porque ninguém vai dizer isso por vocês”, afirmou.

São exemplos do quintal que Gustavo Melo vem mostrando ao longo da carreira os filmes “A distração de Ivan” – selecionado para a Semana de Crítica do Festival de Cannes, em 2010 –, “O jeito brasileiro de ser português”, e “Picolé, pintinho e pipa”. Os dois primeiros foram filmados em Brás de Pina. O último, no Vidigal, no intervalo de uma das guerras de facções daquela favela com a vizinha Rocinha. “Entre 2004 e 2006, a gente queria fazer o filme e não conseguia porque a guerra entre as favelas era mais forte. Mas um dos milagres que aconteceu na época foi esse: o boca a boca com os pedidos a todos os setores – tráfico, batalhão – foi tão grande que a guerra parou durante seis dias pra gente filmar. A guerra não tem hora para acontecer. E durante aqueles seis dias os moradores puderam resgatar o cotidiano. As pessoas batiam palma pra gente. E os bandidos mandavam perguntar quando ia terminar de filmar, porque eles queriam voltar a dar tiro”, contou.

A vontade de fazer cinema fez Gustavo Melo tentar o vestibular para a UFF e não desistir mesmo sem conseguir passar. “Na época, pré-retomada do cinema nacional, o mercado estava parado mas, mesmo assim, eram 15 candidatos por vaga. Fazer cinema sempre esteve no imaginário da galera”, conta ele, que credita o mau desempenho ao ensino técnico do segundo grau, numa escola pública em Vigário Geral, que não incluía disciplinas como física, química e matemática, exigidas no vestibular. Da época da escola, aliás, ele guarda a memória de uma história triste, violenta e emblemática da cidade. “Estava no ônibus 906 indo para a escola e vi os corpos da chacina de Vigário Geral”.

Depois de assistir a uma entrevista de Cacá Diegues na TV, resolveu procurá-lo, mandando um fax para o cineasta, e dizendo que queria fazer cinema. “Fui até o Centro passar o fax. Quando cheguei em casa de volta, meu irmão disse que o Cacá tinha ligado. Fui ao escritório dele e ainda vi o Caetano Veloso, com quem ele dividia o escritório na época”, lembra. Na época, Cacá estava captando recursos para fazer “Orfeu”. Gustavo teria uma chance, mas acabou não acontecendo. Foi então fazer curso com Tizuka Yamazaki, na Vídeo Fundição, da Fundição Progresso, e os dois amigos mais próximos que fez acabaram saindo do país.

“Depois é que fui entendendo o que houve com minha geração. A década de 90 já representava essa falência do estado, principalmente na área cultural. Meu bairro não tinha cultura, nem na Zona Norte. Fui ficando meio desesperado, ficava muito isolado, meus amigos já no crime, nas drogas…” Fora da Faculdade, sem trabalho e sem amigos, voltou a Cacá, enviando nova correspondência. Foi aí que o cineasta sugeriu que ele procurasse o Nós do Morro, onde Rosane Svartman e Vinicius Reis já tinham começado a dar aulas de cinema. “Cheguei lá e o mundo parou: eles estavam ensaiando “Abalou, um musical funk”, e iam fazer um ‘passadão’, palavra que nunca tinha ouvido falar e soube naquele momento que era um ensaio direto, sem interrupção. O Guti me deu a maior atenção. O musical era uma explosão. Comecei a fazer a conexão Brás de Pina-Vidigal”.

Depois de pouco tempo no Nós do Morro, Gustavo Melo foi chamado por Guti Fraga, criador do projeto, para dar aulas. “A melhor coisa que aconteceu foi dar aula porque os alunos eram muito exigentes. Eu comecei a estudar também”, conta ele, autodidata. Ao lembrar sua história, Gustavo se refere a uma época em que subir o Vidigal era assustador. “Quem leu Abusado, sabe que tinha lá um cara, Patrick, que era super violento. Eu tinha muito medo. Na época, você não subia um morro da Zona Sul sem ninguém. Mas fui subindo, vendo muita gente na rua, criança brincando. Me adaptei muito rápido ao Vidigal”.  A distância Zona Norte-Zona Sul, vencida durante as madrugadas, incluía uma rotina de assaltos e sobressaltos. “Um assalto no ônibus é um pesadelo”, sabe. Muitas das histórias vividas por Gustavo acabaram se tornando roteiro de filmes, ambientados em lugares da cidade que ele conhece bem: o subúrbio e a favela, onde residem tipos que fazem parte do imaginário carioca

A conversa com Gustavo Melo incluiu várias referências a seus filmes, listados abaixo.

Picolé, pintinho e pipa

A distração de Ivan

O jeito brasileiros de ser português

Filmes do Nós do Morro

Filmes importantes sobre Rio de Janeiro:

Rio 40 graus

Rio Zona Norte

Meninas

A história viva nos museus de favela

MARIO CHAGAS fala da experiência forte e inovadora em curso no Rio de Janeiro.

“As favelas fazem parte das memórias urbanas que se quis apagar”. A sentença é de Mario Chagas, museólogo, cientista político e poeta, um dos três provocadores convidados para conversar sobre o tema “A favela no imaginário carioca”, no 5º Rio de Encontros. Mario fez a apresentação “Memórias e museus: poéticas, políticas e práticas contemporâneas”, em que apontou as condições que permitiram a criação dos museus de favelas, definidos por ele como “inovadores”. “São museus que não têm medo de afetar e ser afetados. Essa é uma experiência forte e a cidade do Rio de Janeiro tem muito a dizer sobre isso”.

Para começar, Mario Chagas lembrou o lugar inexistente das favelas nos museus tradicionais. “Quem visitou museus nos anos 60, 70, não encontrava referência a elas. É como se nós vivêssemos num mundo onde as favelas não existiam. Não cuidaram de registrar absolutamente nada a esse respeito. Os museus de grandes narrativas cuidaram de não tratar das favelas”, lembrou Mario, no rápido panorama que fez sobre a mudança na concepção dos museus, que passaram a ser vistos como lugares “bons para pensar, intuir, sensibilizar, agir e fazer política”.

Para ele a criação dos museus de favela como resultado de uma confluência de pensamentos e práticas de uma nova museologia, “comprometida politicamente com a redução das desigualdades sociais”, que colocaram em questão o papel dessa instituição. “Os museus passaram a ser pensados como território do ‘e’ e não do ‘é’: museu é isso, e aquilo, e mais outra coisa que não sabemos sequer o que é”, conta. “Compreendeu-se que os museus não cabiam nas gavetas classificatórias e que era preciso superar o aprisionamento deles na ordem do racional. Era preciso um conhecimento mais inteiro”, contou o museólogo, lançando um pensamento provocador: “nós não somos animais racionais. Somos muito mais complexos do que isso. E as favelas ensinam tudo isso”.

A nova museologia, a discussão da Política Nacional de Museus, o interesse de museólogos pelas favelas convergiram. “Os museus passaram a ser compreendidos como espaços de relação, e não de acumulação. Essas ideias foram mudando e era preciso praticar uma nova organização museal, transver o mundo, os museus”, disse, parafraseando a poesia de Manoel de Barros, registrada num muro grafitado no Méier, fotografado por Mário: “o olho vê, a memória revê, a imaginação transvê”. “Estava aberto o caminho para os museus de favela”, referindo-se ao início do século 21, que permitiu a criação de cinco museus de favela no Rio de Janeiro, entre 2006 e 2013.

Pensados como “conectores espaço-temporais de pessoas e grupos sociais”, os museus de favela são, como diz Mario Chagas, “projetos políticos e poéticos”. “Há nas favelas, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil, uma extraordinária história de resistência; elas têm resiliência; têm uma capacidade de reinvenção, de imaginação, de produção de novos repertórios, produzem linhas de fuga, de agenciamento. E no final do século 20, início do 21, à luta das favelas por saneamento, água, luz, foi acrescida também a luta pelo direito à memória e ao patrimônio”.

Os museus de favela têm características muito diferentes entre si – alguns são “museus de território”, outros, “de percurso” – e também tiveram sua história iniciada de formas variadas. No Santa Marta, o EcoMuseu Nega Vilma foi batizado em homenagem a uma moradora líder da comunidade. “Alguns professores quando viram o lugar sem teto acharam que não era museu. Por que não?”. O EcoMuseu Amigos do Rio Joana começou com um mutirão de limpeza do rio. O MuF – Museu da Favela tem 25 casas-tela, e o visitante percorre as favelas Cantagalo e Pavão-Pavãozinho para fazer o circuito, que conta a história da ocupação daquele morro.

Apesar de sua importância para a história da cidade, a criação deles não é um processo simples, menos ainda a manutenção. “Esses museus estão à margem de tudo, inclusive da atenção do poder público”, disse, citando como exemplo o Museu do Horto – “que sofre uma campanha violenta, com moradores que estão lá há 80 anos sendo chamados de invasores pelos jornais” – e o Museu da Maré, que corre o risco de ser despejado do galpão que ocupa há 10 anos.

“O Museu da Maré está passando por uma situação dramática e trágica. Ele ocupa um galpão e o prazo de cessão venceu. Uma reunião recente estabeleceu que o Museu pode ficar até março do ano que vem e o governo do Estado e a Prefeitura têm que encontrar um terreno para os donos do galpão, que querem construir uma escola. Nada mais perverso também: colocar uma escola contra o museu é uma covardia grande. As pessoas, claro, vão preferir ter escola, quando o museu tem programa educacional importantíssimo. Não existiria projeto de memória da Maré se não existisse o Museu da Maré”, disse Mario, também chamando atenção para a disputa entre instituições culturais que atuam na comunidade. ”Nas favelas também existem facções culturais, e uma quer destruir a outra. O que é uma perversidade, um absurdo.”

Suburbano de Cavalcante – “um bairro que ninguém passa: você vai até lá; e onde que tem a escola de samba chamada Em Cima da Hora, da qual meu pai foi um dos fundadores” –, Mario Chagas também retomou sua trajetória de vida para chegar ao momento em que descobriu que seu caminho seria a museologia e não a arqueologia. “Comecei a me conectar com as ideias de Erich Fromm, tinha lido “O coração do homem”, que ele trabalhava com as síndromes da necrofilia e da biofilia. Essas duas síndromes me fizeram pensar nos museus biófilos e museus necrófilos. E isso abriu minha cabeça”, resumiu. “Desde a graduação segui na pegada dos museus conectados à vida”, diz Mario, também cientista social.

Poeta desde sempre – “como poeta, não peço permissão a ninguém. Eu sou poeta e ponto” -, além dos bairros em que morou, Mario Chagas percorreu a Zona Norte com o grupo de poesia militante Panela de Pressão. Da época, mantém o hábito da poesia e foi com uma de sua autoria, “Declaração de amor para Rose Méier”, que ele encerrou o Rio de Encontros. Aos versos:

Seu olhar, quase Ipanema

Baixou como Copabacana

Amadureirando o fruto

Amolecendo a casca dura

Me deixando encantado

Não tendo dó nem piedade de mim

Vem cá, Maria da Graça, da Glória, da Vila de Isabel

Vem cá, minha Santa Teresa

Depois que te der um beijo,

Minha flor de laranjeiras

Minha flor da mangueira

Eu decreto a abolição de todo e todo e qualquer Del Castilho,

De todo e qualquer engenho

Real, novo, de dentro ou da rainha

Sem Fátima e sem saúde, a vida não é gamboa

Sem Fátima e sem saúde, eu não tenho bom sucesso, minha maré fica vazia

Sem Fátima e sem saúde, eu não tenho nenhuma harmonia

Sem Fátima e sem saúde, a vida não dá recreio

Sem Fátima e sem saúde, a vida é barra, barra, barra…

Aplausos gerais da plateia.

PARA CONHECER OS MUSEUS DE FAVELA:

 

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