A história viva nos museus de favela

MARIO CHAGAS fala da experiência forte e inovadora em curso no Rio de Janeiro.

“As favelas fazem parte das memórias urbanas que se quis apagar”. A sentença é de Mario Chagas, museólogo, cientista político e poeta, um dos três provocadores convidados para conversar sobre o tema “A favela no imaginário carioca”, no 5º Rio de Encontros. Mario fez a apresentação “Memórias e museus: poéticas, políticas e práticas contemporâneas”, em que apontou as condições que permitiram a criação dos museus de favelas, definidos por ele como “inovadores”. “São museus que não têm medo de afetar e ser afetados. Essa é uma experiência forte e a cidade do Rio de Janeiro tem muito a dizer sobre isso”.

Para começar, Mario Chagas lembrou o lugar inexistente das favelas nos museus tradicionais. “Quem visitou museus nos anos 60, 70, não encontrava referência a elas. É como se nós vivêssemos num mundo onde as favelas não existiam. Não cuidaram de registrar absolutamente nada a esse respeito. Os museus de grandes narrativas cuidaram de não tratar das favelas”, lembrou Mario, no rápido panorama que fez sobre a mudança na concepção dos museus, que passaram a ser vistos como lugares “bons para pensar, intuir, sensibilizar, agir e fazer política”.

A partir da descrição de Mario Chagas entende-se a criação dos museus de favela como resultado de uma confluência de pensamentos e práticas de uma nova museologia, “comprometida politicamente com a redução das desigualdades sociais”, que colocaram em questão o papel dessa instituição. “Os museus passaram a ser pensados como território do ‘e’ e não do ‘é’: museu é isso, e aquilo, e mais outra coisa que não sabemos sequer o que é”, conta. “Compreendeu-se que os museus não cabiam nas gavetas classificatórias e que era preciso superar o aprisionamento deles na ordem do racional. Era preciso um conhecimento mais inteiro”, contou o museólogo, lançando um pensamento provocador: “nós não somos animais racionais. Somos muito mais complexos do que isso. E as favelas ensinam tudo isso”.

ESPAÇOS DE RELAÇÃO

A nova museologia, a discussão da Política Nacional de Museus, o interesse de museólogos pelas favelas convergiram. “Os museus passaram a ser compreendidos como espaços de relação, e não de acumulação. Essas ideias foram mudando e era preciso praticar uma nova organização museal, transver o mundo, os museus”, disse, parafraseando a poesia de Manoel de Barros, registrada num muro grafitado no Méier, fotografado por Mário: “o olho vê, a memória revê, a imaginação transvê”. “Estava aberto o caminho para os museus de favela”, referindo-se ao início do século 21, que permitiu a criação de cinco museus de favela no Rio de Janeiro, entre 2006 e 2013.

Pensados como “conectores espaço-temporais de pessoas e grupos sociais”, os museus de favela são, como diz Mario Chagas, “projetos políticos e poéticos”. “Há nas favelas, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil, uma extraordinária história de resistência; elas têm resiliência; têm uma capacidade de reinvenção, de imaginação, de produção de novos repertórios, produzem linhas de fuga, de agenciamento. E no final do século 20, início do 21, à luta das favelas por saneamento, água, luz, foi acrescida também a luta pelo direito à memória e ao patrimônio”.

RESISTÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA

Os museus de favela têm características muito diferentes entre si – alguns são “museus de território”, outros, “de percurso” – e também tiveram sua história iniciada de formas variadas. No Santa Marta, o EcoMuseu Nega Vilma foi batizado em homenagem a uma moradora líder da comunidade.“Alguns professores quando viram o lugar sem teto acharam que não era museu. Por que não?”. O EcoMuseu Amigos do Rio Joana começou com um mutirão de limpeza do rio. O MuF – Museu da Favela tem 25 casas-tela, e o visitante percorre as favelas Cantagalo e Pavão-Pavãozinho para fazer o circuito, que conta a história da ocupação daquele morro.

Apesar de sua importância para a história da cidade, a criação deles não é um processo simples, menos ainda a manutenção. “Esses museus estão à margem de tudo, inclusive da atenção do poder público”, disse, citando como exemplo o Museu do Horto – “que sofre uma campanha violenta, com moradores que estão lá há 80 anos sendo chamados de invasores pelos jornais” – e o Museu da Maré, que corre o risco de ser despejado do galpão que ocupa há 10 anos.

“O Museu da Maré está passando por uma situação dramática e trágica. Ele ocupa um galpão e o prazo de cessão venceu. Uma reunião recente estabeleceu que o Museu pode ficar até março do ano que vem e o governo do Estado e a Prefeitura têm que encontrar um terreno para os donos do galpão, que querem construir uma escola. Nada mais perverso também: colocar uma escola contra o museu é uma covardia grande. As pessoas, claro, vão preferir ter escola, quando o museu tem programa educacional importantíssimo. Não existiria projeto de memória da Maré se não existisse o Museu da Maré”, disse Mario, também chamando atenção para a disputa entre instituições culturais que atuam na comunidade. ”Nas favelas também existem facções culturais, e uma quer destruir a outra. O que é uma perversidade, um absurdo.”

POESIA NA ORIGEM

Suburbano de Cavalcante – “um bairro que ninguém passa: você vai até lá; e onde que tem a escola de samba Em Cima da Hora, da qual meu pai foi um dos fundadores” –, Mario Chagas também retomou sua trajetória de vida para chegar ao momento em que descobriu que seu caminho seria a museologia e não a arqueologia. “Comecei a me conectar com as ideias de Erich Fromm, tinha lido “O coração do homem”, que ele trabalhava com as síndromes da necrofilia e da biofilia. Essas duas síndromes me fizeram pensar nos museus biófilos e museus necrófilos. E isso abriu minha cabeça”, resumiu. “Desde a graduação segui na pegada dos museus conectados à vida”, diz Mario, também cientista social.

Poeta desde sempre – “como poeta, não peço permissão a ninguém. Eu sou poeta e ponto” -, além dos bairros em que morou, Mario Chagas percorreu a Zona Norte com o grupo de poesia militante Panela de Pressão. Da época, mantém o hábito da poesia e foi com uma de sua autoria, “Declaração de amor para Rose Méier”, que ele encerrou o Rio de Encontros. Aos versos:

Seu olhar, quase Ipanema

Baixou como Copabacana

Amadureirando o fruto

Amolecendo a casca dura

Me deixando encantado

Não tendo dó nem piedade de mim

Vem cá, Maria da Graça, da Glória, da Vila de Isabel

Vem cá, minha Santa Teresa

Depois que te der um beijo,

Minha flor de laranjeiras

Minha flor da mangueira

Eu decreto a abolição de todo e todo e qualquer del Castilho,

De todo e qualquer engenho

Real, novo, de dentro ou da rainha

Sem Fátima e sem saúde, a vida não é gamboa

Sem Fátima e sem saúde, eu não tenho bom sucesso, minha maré fica vazia

Sem Fátima e sem saúde, eu não tenho nenhuma harmonia

Sem Fátima e sem saúde, a vida não dá recreio

Sem Fátima e sem saúde, a vida é barra, barra, barra…

 

Aplausos gerais da plateia.

PARA CONHECER OS MUSEUS DE FAVELA:

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