Debate AS FAVELAS NO IMAGINÁRIO CARIOCA em frases

Além da possibilidade de ouvir diferentes especialistas sobre assuntos centrais para a vida na cidade, a participação ativa da plateia é uma das características mais marcantes do Rio de Encontros. No 5º debate do ano, com o tema “A favela no imaginário carioca”, não foi diferente: sinceras, desconcertantes, contundentes, corajosas, as considerações da plateia – formada pela Turma Rio de Encontros, composta por jovens ativistas da metrópole, alunos da ESPM, da Universidade das Quebradas, além de convidados – revelam contradições, dilemas, soluções, (im)possibilidades da cidade, e marcam um momento importante do Rio de Encontros, o da conversa. Confira abaixo algumas das considerações feitas durante o debate mediado por Mariana Cavalcanti, com os provocadores André Balocco, jornalista, Gustavo Melo, cineasta, e Mario Chagas, museólogo e poeta.

CIDADE PARTIDA

“A partir do momento que se olha a favela com o olhar do inimigo, a questão do imaginário não é menor. É fundamental. O que se fala sobre a favela, o tipo de narrativa causal que se faz sobre essa parte da cidade, é fundamental para as políticas que vão se construir para este lugar” – Mariana Cavalcanti

“Li uma vez uma frase de alguém que dizia que o Rio é uma ilha cercada de favelas por todos os lados. Isso é super preconceituoso. Parece que as favelas não são o Rio de Janeiro” – Denise Kosta

“A gente não sai desse ciclo. Até quando a gente vai ficar tratando de assuntos da favela? Vamos falar de uma cidade única! A gente está discutindo a mesma cidade” – Renata Codagan

“Uma coisa é o nosso desejo, de que a cidade não fosse partida. Mas ela está segmentada. A Maré está segmentada. Outra coisa é onde colocamos nossa energia: se na construção ou na derrubada de muros” – Mario Chagas

“Reconhecer essa diferença é o que pode me permitir enxergá-la e fazer com que ela diminua” – André Balocco

“Por um lado, se disse aqui que a favela e a cidade são uma coisa só. Por outro, que a na favela a lei é outra. A gente tem que cerzir esse negócio. E nós somos seres dessa costura” – Mario Chagas

“A gente vive numa cidade que o problema social só existe quando chega na Zona Sul” – Diogo Rodrigues

“Por causa do clima provocado pelo arrastão na praia, o Joaquim Ferreira dos Santos compartilhou uma reportagem que fez em 1984, Nuvens suburbanas sobre Ipanema, no Jornal do Brasil, quando foram inauguradas as linhas de ônibus entre Zona Norte e Zona Sul. Lendo hoje, parece que a percepção do morador da Zona Norte sobre si mudou, mas o olhar de quem o vê, não”. – Ana Claudia Souza

“Como a gente faz para quebrar esse muro da cidade partida? Se sentindo parte dela” – Bruna Rios

“O ideal seria que a cidade fosse única. Mas a Zona Sul é pensada de um jeito, a Zona Norte de outro, o morro de outro, o asfalto de outro. É hora de escancarar essas contradições e o apartheid, e não de colocar nuvens sobre isso, tentando encobrir essa questão” – Ludmila Costa

REALIDADES DA FAVELA

“Todo mundo imagina que no Alemão está tudo lindo, mas a gente criou a hashtag #tátudoerrado. No Alemão, tem 12 escolas, mas se perguntar para 10 jovens de cada uma, eles vão dizer que falta professor de matemática, português, que são dispensados porque não tem professor” – Helcimar Lopes

“Entre 2004 e 2006, a gente queria fazer o filme e não conseguia porque a guerra entre as favelas da Rocinha e do Vidigal era mais forte. Mas um dos milagres que aconteceu na época foi esse: o boca a boca com os pedidos a todos os setores – tráfico, batalhão – foi tão grande que a guerra parou durante seis dias pra gente filmar. A guerra não tem hora para acontecer. E durante aqueles seis dias os moradores puderam resgatar o cotidiano. As pessoas batiam palma pra gente. E os bandidos mandavam perguntar quando ia terminar de filmar, porque eles queriam voltar a dar tiro” – Gustavo Melo

“A favela, além de resistir, se vira. Foi na favela que começou o mototáxi e as kombis como transporte alternativo, para suprir uma carência que havia. E a favela se vira também com a imprensa, que só entra lá atrás do camburão ou do carro da Defesa Civil” – Rosilene Millioti

“Não estou defendo os bandidos, mas se fosse nos anos 90, antes da pacificação, o cara que fez arrastão na praia, quando voltasse pra favela, tomava um couro do dono do morro. Hoje a favela não tem mais um dono, uma liderança. Na favela, a gente sabe, a lei é outra”. – Helcimar Lopes

“As favelas são lugares de resiliência, de resistência, de criatividade, de inovação. Isso faz com que a gente tenha imensa dificuldade de dizer o que a favela é”. – Mario Chagas

“É muito complicado viver em favela. Não dá pra falar que os bandidos não mandam, porque mandam”. – Igor Soares

“Como fazer isso vivendo numa favela que não tem vista, UPP, mas tem presença do tráfico, falta de professores?”  – Marcão Baixada

“Não sei sobre esse status das meninas que engravidam. No caso delas, status é namorar com bandido. Gravidez é consequência. Para os meninos, status é ser preso e voltar como herói” – Rosilene Millioti

“Hoje eu deixo de pegar ônibus, o 474, pela cultura que foi criada, onde as normas de convívio social foram esquecidas. Me sinto oprimido pelo que eu vejo no ônibus, dos garotos que saem para roubar e voltam. Mas ao mesmo tempo, vejo que eles também fazem parte de mim: eu também sou preto, também sou pobre” – Luis Gustavo

REPRESENTAÇÃO NA MÍDIA

“Quando comecei a ver jornal, TV, nunca me senti representado naquele espaço. O que impede disso acontecer: por que a gente não fala o que tem que ser falado?” – Diogo Rodrigues

“A resposta é dura. É normal você não se sentir representado: o jornal não foi feito pra favela. Agora que ele está olhando mais para esse lugar”. – André Balocco

“Eu, como morador de favela, não me sinto representado pelas favelas da novela. Como retratar a favela ideal?” – Leonardo Oliveira

“Falei noutro dia pro pessoal de um cineclube da Baixada: vocês têm a responsabilidade de mostrar a Baixada porque ninguém vai dizer isso por vocês” – Gustavo Melo

“As favelas, à revelia de tudo, dominam o imaginário e atravessam tudo, embora as pessoas tenham medo, pânico, desespero com isso”. – Mario Chagas

“Cineasta classe média faz filme sobre tudo o que quiser. O cineasta de favela só faz filme sobre seu lugar, ou pode fazer sobre o que quiser também?” – Ilana Strozenberg

“Se você fala do seu quintal, se torna universal” – Gustavo Melo

“Tem um sensacionalismo dos grandes jornais, que mostram a foto do menino morto no Caju fazendo um gesto que seria de uma facção criminosa. A pessoa está preocupada com a morte do garoto ou o gesto da mão dele?” – Michel Silva

“Evoluiu muito a cobertura e a visão hoje é para segurança pública, não mais só polícia. São verdade todas as distorções da imprensa faladas aqui, mas a imprensa tem papel fundamental na discussão de direitos humanos” – Anabela Paiva

“Estudo numa faculdade que não tem noção do que é favela e jornalismo comunitário. Será que não era melhor fazer intercâmbio dos alunos no jornalismo comunitário, antes deles entrarem nos grandes jornais? Será que não chegou a hora de criar editoria de jornalismo comunitário nos grandes jornais?” – Michel Silva

“Porque o jornal não é protagonista da mudança? Por que não interessa aos donos da imprensa que ela seja” – André Balocco

“O que acontece dentro de um jornal, que não me representa? Acho que a primeira ação é a formação dos jornalistas” – Igor Soares

“Queria entender como acontece a relação da imprensa com iniciativas de comunicação local, se elas conseguem influir na cobertura dos grandes jornais” – Anabela Paiva

FORMAÇÃO E INSPIRAÇÃO

“A gente precisa criar o arrastão cultural. Não é possível que não se tenha uma reação como essa” – Mario Chagas

“Desde o Tropicalismo, não havia um movimento cultural forte, como foi o Mangue Beat, que surgiu em Recife. E o Chico Science dizia que a tecnologia do povo é a vontade. Essa frase é tudo pra mim. Sem ela, não teria chegado em Cannes. Ela me mantém até hoje”. – Gustavo Melo

“Além da formação, educação, preparação, o nosso desafio é educar as elites. Para isso, tem que passar pelas universidades, onde há uma mentalidade conservadora. É uma tarefa dificílima. Quero saber como vai alterar o ensino básico das elites”. – Mario Chagas

“Da minha família, sou o único que chegou a ser universitário. Por que não oferecer educação que permita a pessoa sonhar um pouco mais alto?” – Leonardo Oliveira

“A favela como espetáculo: em que medida os museus de favela podem ser também utilizados nesse sentido?” – Ilana Strozenberg

“O perigo do espetáculo está presente nos museus de favela. O que pode dobrar esse perigo é buscar outros agenciamentos, é a consciência e o trabalho dos operadores do museu. Outra saída é a conversa que os museus têm para dentro, para as próprias comunidades”. – Mario Chagas

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