Pedro Rivera: redescobrir os rios, pensar a cidade

Rio_de_Encontros-9

Foto: Raul Smith

Se dependesse de Pedro Rivera, o rio Carioca, tão importante para a identidade da cidade e seu morador, estaria descoberto, correndo à vista de todos. “É questão de modelo de cidade. Em Seul, na Coreia do Sul, resolveram renaturalizar um rio (Cheonggyecheon), que cortava a cidade e era importante. Isso reconfigurou a lógica  daquele lugar e se tornou a frente da cidade. É o caso do Rio Carioca. É claro que não é fácil, mas é uma questão de visão, de como a gente quer olhar para o amanhã e caminhar na cidade”, compara o arquiteto, diretor do Studio-X, que sediou o Rio de Encontros de julho. Um dos provocadores do debate, Pedro Rivera fez uma apresentação que instigou a plateia a refletir sobre a natureza e a presença da água na cidade através dos tempos. “Sou generalista e vou dar pinceladas em tópicos que acho importantes”, explicou.

Logo de início, Pedro Rivera apontou para a natureza da cidade, considerada uma das mais bonitas do mundo. Mas, o que é natural neste cenário? “A paisagem do Rio é muito construída”, resumiu o arquiteto, apresentando um mapa dos aterros da cidade, ao longo da história, que no Centro levaram à demolição dos morros do Castelo, Santo Antônio, Senado e São Bento. “O Passeio Público, a Praça Paris, o Aterro do Flamengo são exemplos de construções sobre aterros, numa sucessão de embates com a natureza”, listou.

Saindo do Centro da Cidade e chegando à Zona Sul, a interferência humana sobre a natureza também é notável. “A orla do Rio foi produzida por esse processo de aterros. A linha costeira do Rio de Janeiro é artificial. Como o homem é parte da natureza, então a alteração que ele produz passa a fazer parte dela também. É fundamental que a gente se coloque dentro desse campo, que é a natureza”, destacou Pedro, ressaltando o papel de Burle Marx no desenho da orla carioca. “É o projeto de um homem que conseguiu ter uma excelência tão grande como a natureza”.

O caminho do mar

A valorização da orla e a influência dela no modo de vida da cidade também é resultado de uma relação construída – e relativamente recente. “Por volta de 1870, as linhas de bonde chegam a Copacabana. Esse momento é o apogeu de uma nova visão sobre a cidade, que leva em conta as águas como valor desejável de experiência do homem no espaço urbano. E aí começa a ideia de balneário. Antes, a água era para conexão e para despejar das nossas necessidades”, lembrou.

Antes distante, Copacabana imprimiu novos hábitos ao morador da cidade e novos usos do mar. “É um entendimento novo da cidade”, lembrou Pedro, mostrando imagens do início de Copacabana, coberta de areia, e das primeiras fotos do Copacabana Palace, naquele bairro ainda pouco habitado. O caminho pelo passado do Rio de Janeiro é fundamental para a construção do futuro da cidade. E Pedro Rivera tem visto isso na prática, com as obras que estão ocorrendo em frente ao Studio X. “A gente está aqui na Praça Tiradentes há quatro anos e nesse tempo surgiu na cidade a ideia de voltar o bonde ao Centro. As obras estão acontecendo e é emocionante ver os trilhos e dormentes de madeira do bonde antigo surgirem, à medida que as obras avançam. É emocionante ver a história da cidade enterrada reaparecer na perspectiva de recuperação desse meio de transporte, que é o bonde”.

Banho mais difícil

Apontando para as obras de engenharia que permitiram o abastecimento de água no Rio – o Aqueduto da Carioca, a Elevatória do Guandu – Pedro Rivera destacou a necessidade de cuidar do Rio Paraíba do Sul, o maior responsável pelo abastecimento de água do Rio. “A gente vive uma crise hídrica, que São Paulo está só um pouco mais à frente. Mas a gente vai ter problema para tomar banho também”, prevê.

Leia outras frases do debate

E, uma vez mais, fez uma viagem no tempo para comparar soluções adotadas no passado que poderiam ser adaptadas aos tempos atuais. “Desde 1842 o Rio sofria com a falta d’água por conta do desflorestamento para plantar café. E começou a faltar água na cidade. Por volta de 1860, começou o reflorestamento da Floresta, que durou 30 anos, feito pelo Major Archer e seis escravos, segundo os registros históricos. Se foi possível recuperar a floresta naquela época, protegendo as nascentes, se a gente conseguiu fazer isso na segunda metade do século 19, não tem argumento de que não se possa fazer isso hoje. As dificuldades são maiores, mas os recursos também para fazer isso hoje. Basta vontade política e gestão competente”, acredita.

Ver para cuidar

Além disso, Pedro Rivera também destacou a importância da participação do cidadão na vida – e na melhoria – da cidade. “A nossa opção é esconder, eliminar dos nossos olhos. A gente precisa descobrir todos os rios novamente. A gente precisa ver. O melhor fiscalizador é o cidadão”. Nessa perspectiva, uma boa forma de manter essa proximidade é a utilização de rios para o transporte da população. “O mau tratamento dos nossos corpos de água e o pouco uso da Baía de Guanabara estão ligados”, acredita.

Pedro Rivera ainda chamou atenção para o papel da arquitetura e da engenharia civil brasileiras, que já tiveram dias mais promissores. “Já fomos líderes no mundo em construção e projeto. Hoje em dia, ninguém faz mais nada direito. Do dono ao pedreiro, quem tem orgulho de fazer uma obra direito?”, disse, quase num apelo à revisão de “processos contaminados”. “Os presidentes de várias empreiteiras estão presos. Isso quer dizer alguma coisa… Se a gente não discute os procedimentos que as coisas acontecem, não vamos falar de universalização do acesso à água, por exemplo. É preciso rever os processos estão contaminados”. E, uma vez mais, o olho do cidadão e sua participação são fundamentais. “É muito fácil ficar remoendo as mazelas. Mas a gente tem que olhar pra frente e se engajar, produzindo novas visões, sem ter medo. Acho que falta coragem e engajamento nas coisas. Prefiro uma ambição que erra do que a covardia que não vai a lugar nenhum”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s