Paulo Canedo: saneamento, uma questão básica

Foto: Raul Smith

Foto: Raul Smith

Uma aula sobre abastecimento de água, construção de hidrelétrica, preservação de rios, saneamento básico, além de um passeio sobre a história do Rio de Janeiro. Este é um resumo possível da participação de Paulo Canedo, engenheiro civil e especialista em hidrologia, no Rio de Encontros de julho, que teve como tema “Rio de Janeiro: a cidade e suas águas”. Autor de vários livros, sendo o mais recente “O Rio que é Azul”, escrito com Regina Mamede e editado pela Bang Filmes, o professor da Coppe/UFRJ retrocedeu aos primeiros tempos da cidade para apontar as questões do presente e os desafios para o futuro. E insistiu bastante no tópico saneamento. “Faço uma convocação para que fiquemos indignados, para que a gente reclame e não aceite esse índice de saneamento que temos”, disse, referindo-se aos números que apresentou sobre o percentual de casas brasileiras que possuem tratamento de esgoto: 48,9%. “Nenhum país minimamente decente tem esse número menor que 95%”.

Para começar a falar da presença da água, Paulo Canedo fez um histórico sobre a ocupação do Rio de Janeiro, onde a população se estabeleceu no sopé dos morros, próxima das fontes de água. A expansão da cidade e o aumento do número de habitantes foram tornando maiores os desafios de se obter água para todos, uma vez que as fontes não cresciam na mesma proporção. “Eram vários filetes de água pequenos, com grande variedade sazonal”, explicou Paulo, ressaltando as temporadas de chuvas, responsáveis pela maior ou menor quantidade de água disponível nos rios.

Água e luz: problemas crônicos

Das primeiras soluções de abastecimento de água – a maior foi a do Aqueduto da Carioca, no século 18, que trazia água do Rio Carioca para o Largo da Carioca –passando pela distribuição de água através das bicas espalhadas por vários lugares, a cidade sempre enfrentou o problema crônico da falta de água e de luz. “Os mais velhos lembram as marchinhas que diziam que no Rio de Janeiro, ‘de dia falta água e de noite falta luz’. E faltava água porque não havia água, e não porque o prefeito era péssimo e o governador não prestava”, lembrou. O cenário mudou, lembrou Paulo, com as obras de desvio do rio Paraíba do Sul, da construção da hidrelétrica do Paraibuna, da criação da CEDAG, da utilização do rio Guandu para abastecer a cidade. “O governador Carlos Lacerda criou a CEDAG – Companhia de Águas da Guanabara e a elevatória do Guandu, que tinha tanta água que o slogan era ‘Água até o ano 2000’, que era o ano inatingível. O slogan significava que haveria água para sempre”.

 Dando um salto no tempo, chegamos à época da crise hídrica e da constatação de que ‘água para sempre’ é uma utopia. A então maior estação de tratamento de água do mundo – o Guandu – já não dá conta do fornecimento de água para todo o estado do Rio e o que se tem no Rio de Janeiro é uma grande dependência do rio Paraíba do Sul. “Nós bebemos água de uma torneira só e nossa estabilidade hídrica depende do rio Guandu”, resume Paulo Canedo, apontando para o mapa. “O Paraíba do Sul é o único rio de grande porte da redondeza. Mais da metade do Estado do Rio de Janeiro está dentro da bacia do Paraíba do Sul. A capital não água. E o Paraíba do Sul não é capaz de atender todos os demandantes”.

O nível dos reservatórios

Hoje, a quantidade de água disponível para a região é medida através da soma do volume de água existente em cada um dos quatro reservatórios – Funil (o único no Rio de Janeiro), Paraibuna, Jaguari e Santa Branca (localizados em São Paulo). “Vale a pena visitar. São obras belíssimas”, elogia Paulo. “O reservatório serve para guardar água da chuva e compensar a variação de água que existe. A mesma coisa que faz a caixa d’água na nossa casa. Ele é feito para sanfonar: não pode transbordar, porque inunda as cidades, e não pode chegar abaixo porque significa seca. Protocolo internacional diz que o reservatório não pode baixar a 10% do volume”, explicou.

O alarme, que já tinha ameaçado tocar em 2003, voltou a soar em 2013. Paulo Canedo explicou: “O Rio Paraíba do Sul ia morrer no dia dos mortos em 2003. São Pedro, sabendo disso, fez uma salvação e mandou chuva forte lá pelo dia 20 de outubro. O rio não baixou. Até que em 2013 começou o segundo problema da história: no rio Paraíba do Sul tinha pouca água e a meteorologia tinha previsão de que o ano seguinte seria pouco chuvoso. Quem tem o mínimo de prudência deveria avisar todo mundo e começar um racionamento. São Paulo não procedeu assim. Pelo contrário. Negou. E não deu certo. O Rio fez seu dever de casa. E não teve corte”, comparou.

A crise em São Paulo e no Rio

Como a previsão da meteorologia era de 2015 seria ainda mais seco, a situação de abastecimento ainda é complicada. “São Paulo se afundou na crise. O Rio, que estava precavido, esteve quase por sofrer. A não ser que haja algo catastrófico, não devemos sofrer corte de água”, acredita Paulo, apontando para o nível do reservatório de água em julho, em torno de 14%.

A crise de abastecimento fez vir à tona a utilização de água do Paraíba do Sul para abastecer o estado de São Paulo – uma polêmica, lembrada por um dos participantes da plateia do Rio de Encontros. “A água do Paraíba do Sul é do brasileiro. Deus fez o rio para o mundo. Todo brasileiro tem direito”, ponderou Paulo, levantando outras questões relativas ao abastecimento de água e luz, cujos sistemas têm diferenças enormes e fundamentais. “Aquela obra da hidrelétrica dos anos 1940 que gerou a CEDAG (depois transformada em CEDAE), era importante para aquela época. Não tem importância nenhuma em 2015. Hoje, essa lâmpada aqui pode estar sendo acesa com luz produzida no Sul ou na Amazônia. A energia brasileira é nacional, e não mais local. O bacana do sistema interligado é isso. O Brasil é um sistema interligado que é um dos nossos orgulhos.”

O homem e a natureza

Paulo Canedo também tratou das questões ambientais, levantadas pela plateia. “Hoje é moda ser contra as barragens. Se a gente fosse contra a mudança de natureza, o Rio de Janeiro não existiria”, pontuou, lembrando as profundas alterações na paisagem da cidade, incluindo lugares que hoje são cartões postais valorizados, como o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. “Quem morava na Gávea, descia com lencinho no nariz por causa do fedor da Lagoa. Lá, só existia a hípica e terrenos vazios”, lembrou. “Nós temos que aceitar algum impacto que nos permita viver em harmonia com a natureza”.

Leia outras frases do debate

Os problemas de saneamento no Rio de Janeiro também são enorme desafio – e não ficaram de fora das perguntas feitas pela plateia. Paulo Canedo lembrou que o índice de casas com tratamento de esgoto no Rio segue a média nacional: 60% das casas têm coleta de esgoto e destes só 30% é tratado. “Qualquer coisa é considerada como tratamento, até benzedura”, ironizou o engenheiro, citando as diferenças entre os sistemas de tratamento mais utilizados e, principalmente, a diferença em relação às políticas de universalização do acesso à luz elétrica e ao saneamento. “Quando se olha para o sistema de eletricidade, no site da Eletrobrás, o principal programa-se chama-se Luz para Todos e o índice de atendimento da população é de 98,7%. E continuam a investir. O povo da eletricidade e o do saneamento é o mesmo. Por que um sistema ainda precisa ser melhorado (o da luz) e o outro (o do saneamento) fica como está?”, comparou.

O papel da população

Apesar da crítica às políticas de governo, Paulo Canedo também chamou atenção para a responsabilidade da população em relação à discrepância dos níveis de investimento. “É falta de vergonha dos governantes e nossa, porque não cobramos. E não há dúvida nenhuma que isso não está na cabeça do brasileiro, que não quer pagar para tratar o esgoto”, sentenciou. Paulo apresentou outros dados preocupantes sobre o tratamento de esgoto na cidade. “A maior estação de tratamento do Rio é a do Fundão, que coleta o esgoto do Centro. Mas os canos não chegam até lá. Vai despejando pelo meio do caminho. Por isso, a Baía de Guanabara é o que é e nossos corpos hídricos são o que são”. Indo fundo no tema do saneamento, Paulo Canedo explicou o sistema que leva (ou deveria levar) o esgoto caseiro até o as estações de tratamento coletivas, sem se incomodar com a reação habitual: é comum que se torça o nariz sempre que um assunto do gênero é tratado em público. “Devemos tratar o esgoto humano que vai para o emissário? Meu voto é não. É um luxo que não está na nossa conta. O nosso cocô ir até lá não faz mal a ninguém, porque os peixes se alimentam disso. O peixe gosta, e é feito para isso”.

A seguir, confira outros trechos importantes da participação de Paulo Canedo: 

“A eficiência no abastecimento de água também é uma questão importante. “Um exemplo numérico: oficialmente, a CEDAE perde 32% da água que produz. Imagina alguma empresa privada fazendo isso!”.

“Para recuperar a Bacia do Paraíba do Sul, que está degradada, são necessárias algumas medidas. Reflorestar é uma delas. Mas este não é remédio para todas as doenças. É uma das coisas a fazer. Ainda assim, não estaremos livres das intempéries. O reflorestamento do Paraíba do Sul é uma das medidas. É preciso também fazer o aumento das quatro barragens que existem, diminuir a produção de esgoto em toda a região. Há um rol de coisas a ser feitas”.

“É claro que a Baía de Guanabara deve ser utilizada para transporte. Em São Gonçalo, por exemplo, o rio Alcântara é mal para a região, porque alaga tudo quando enche. A gente sabe que o metrô ali não vai acontecer e o BRT não é capaz de atender a população. Os barcos são capazes e atenderia a população do Jardim Catarina, o maior bairro da América Latina. Mas ainda não conseguimos sensibilizar governos e empreendedores que queiram fazer comércio nessa lógica”.

“Cabe ao poder público entregar espaços urbanizados com infraestrutura já feita. Uma região tem que ser dada à população com infraestrutura pronta. Depois que o governo faz isso é que os empreiteiros constroem, as pessoas compram e se mudam. Aqui estamos acostumados ao contrário. Ter água e esgoto é uma obrigação do governo, infraestrutura construída com dinheiro de impostos de todos os habitantes. Temos que ter processo mais inteligente de cobrar que isso ocorra”.

“A causa mortis maior no Brasil é diarreia, consequência de várias doenças, quase sempre originadas por falta de saneamento. Houve um momento em que 58 das doenças brasileiras eram devidas à veiculação hídrica. Construir mais hospital não é ruim. Mas se tivéssemos mais saneamento, já estaríamos dobrando a capacidade de atendimento nos hospitais que existem. Saneamento não é só questão de decência. É de saúde pública. E é questão econômica também”.

“Em 1990, a Baixada Fluminense teve inundação e cinco mil mortes por enchente. Por um motivo ou por outro, a vida me colocou em Belford Roxo e mudei minha vida profissional. Notei que em toda aquela região a problemática era a mesma: a população vivia um problema de empobrecimento crônico. A família conseguia fazer um mínimo de poupança anual, mas perdia tudo nas enchentes e usava toda a reserva que tinha economizado. Não existe nada mais degradante do que a falta de perspectiva. Quando um povo percebe que ano que vem irremediavelmente será pior isso é um inferno. Aos poucos, com as obras dos rios da Baixada, as coisas foram mudando e chamei o IPEA para criar um indicador de prosperidade, medido por tijolinhos vermelhos, que iam aparecendo, indicando que as pessoas estavam conseguindo melhorar as casas. O tijolinho vermelho virou um bom indicador de prosperidade”.

“100% dos projetos dos rios Botas, Sarapuí, Pavuna, São João de Meriti são meus.Projeto Iguaçu, do INEA, é meu, com muito orgulho. Desde os anos 80 faço isso. A Baixada dos anos 80 é infinitamente pior que a de 2015. Ainda não está bem. Mas é muitíssimo melhor. O controle de cheias da Baixada Fluminense é infinitamente melhor. Hoje, há enchentes localizadas, algumas ruas que enchem, e não mais aquelas macro enchentes, que arrasavam bairros. Foram investidos R$ 700 milhões nos últimos nove anos na Baixada Fluminense”.

 “O reuso de água é um troço inteligente. Mas há um excesso dos ambientalistas que, querendo fazer bem, fazem mal. Protegem de tal forma, que não dá para fazer nada. Reuso é bom para lavar banheiro, carro, plantas. Poderia ser para vaso sanitário, mas oConama obriga que se clore a água antes de jogar no vaso sanitário. Com isso, acaba que um dos grandes inimigos do reuso é o governo com o Conama”.

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