Subúrbios cariocas, ontem e hoje

Se o subúrbio carioca não existe mais na definição oficial para a administração municipal, uma vez que a cidade está dividida em Áreas de Planejamento (APs), essa região do Rio de Janeiro, que não se sabe muito bem onde começa ou termina, e comporta um grande número de bairros pouco conhecidos no restante da cidade, é capaz de mobilizar um debate acalorado, repleto de dados, números, paixões, testemunhos e descobertas, como se pôde perceber no segundo Rio de Encontros deste ano, realizado na quinta-feira, 25 de junho, no auditório da ESPM.

Convidados para debater o tema “Subúrbios Cariocas Ontem e Hoje”, o professor Antonio Edmilson, o jornalista Vagner Fernandes e o escritor Binho Cultura mantiveram uma conversa de quase três horas com a plateia, formada pela turma Rio de Encontros 2015, alunos da ESPM, da Universidade das Quebradas, convidados e interessados em geral. Mais vivo do que nunca, o subúrbio deu muito o que falar.

Novas perguntas sobre a cidade

Mais do que debatedores, os convidados do Rio de Encontros são provocadores de novos pensamentos e perguntas sobre a cidade, mantendo a perspectiva histórica e misturando a conversa com exemplos de atuações que chamam atenção na cidade – por sua natureza, formato ou ambos. Dessa forma, ao conhecimento do historiador Antonio Edmilson, professor de História da PUC-RJ e da UERJ, somou-se a vivência e o ativismo de Binho Cultura, escritor e criador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste, e a experiência de gestão do jornalista Vagner Fernandes, responsável pela Arena Carioca Fernando Torres, em Madureira. A mistura dos convidados – cada um vindo de uma região diferente da cidade – instigou a plateia a ser ainda mais participativa do que de costume – quem já foi sabe que a audiência do Rio de Encontros é super ativa nos debates que se seguem às apresentações iniciais.

Abrindo a conversa, mediada por Teresa Guilhon (Silvia Ramos comandou os debates), Antonio Edmilson contextualizou a história do Rio de Janeiro e seus subúrbios, refletindo sobre a variação do conceito de subúrbio ao longo da história, e lembrando que o Rio é uma cidade “heterogênea e diversificada”.

Leia mais sobre a participação de Antonio Edmilson

Binho Cultura trouxe várias reflexões a partir de sua experiência como morador da Vila Aliança, em Bangu, zona oeste do Rio, criador do Centro Cultural A História Que eu Conto, produtor cultural, além de ativo participante de várias rodas da cidade.

Leia mais sobre a participação de Binho Cultura

Vagner Fernandes, que escreveu a biografia de Clara Nunes, criou o bloco Timoneiros da Viola e é curador de espetáculos musicais, compartilhou as questões que enfrenta para manter uma programação ao mesmo tempo inovadora e tradicional na Arena do Parque Madureira.

Leia mais sobre a participação de Vagner Fernandes

A conversa foi tão sincera e aberta que, entre os provocadores, teve espaço até para a reclamação de Antonio Edmilson, aficionado pelos bares e a cultura de rua do Rio: para ele, o Timoneiros da Viola no carnaval deste ano perdeu com a decisão de não se apresentar na rua, mas dentro do Parque Madureira. “Virou show”. Vagner Fernandes, diretor do bloco, não retrucou.

Confira frases marcantes do debate

Diante de uma plateia acostumada a circular pelo Rio de Janeiro e se articular para colocar ideias de pé, os convidados incentivaram, cada um a seu modo, as iniciativas individuais e coletivas, responsáveis por manter de pé a efervescência cultural da cidade.

Tudo o que produzimos nas periferias nos mantêm vivos”, afirmou Binho Cultura, categórico. “A gente tem que inventar modos de sustentabilidade para garantir a sobrevivência dos projetos. Descubram!”, instigou Antonio Edmilson. “Precisamos deixar de olhar para nossos umbigos e começar a perceber a cidade de forma muito mais generosa”, disse Vagner Fernandes.

A Cultura no centro

Colocada no papel central para o desenvolvimento da cidade, a cultura que se inventa e produz no Rio de Janeiro – especialmente nos subúrbios – foi tema recorrente ao longo de toda a conversa. Por essa razão, foram várias as referências ao Prêmio Ações Locais, recém concedido pela Secretaria Municipal de Cultura a 85 iniciativas culturais da cidade, sendo 65 delas localizadas nas tais Áreas de Planejamento 3, 4 e 5, as Zonas Norte e Oeste, ou os populares subúrbios.

Esse edital é uma conquista nossa. A cultura está sempre num plano politico complicado, e quando muda o secretário, muda tudo. O maior avanço que tivemos na área da cultura foi na gestão do Gilberto Gil, como ministro, que institui os Pontos de Cultura. Depois, parou todo. O Ações Locais é uma conquista a partir das Conferências Municipais de Cultura. A gente convergiu movimentos da cidade toda nesse processo”, pontuou Binho Cultura, lembrando que numa das conversas com o prefeito levantou um número chocante: “tem mais teatros no Shopping da Gávea do que em toda a Zona Oeste”.

Um dos avaliadores do Prêmio, Antonio Edmilson ressaltou que edital deu visibilidade a muitas iniciativas interessantes. “Passei a conhecer muito mais coisas que antes”, disse. Para Vagner Fernandes, a ação é uma demonstração dos esforços de diálogos que estão acontecendo na cidade, com a adminstração municipal. “No processo do Prêmio, foram mapeadas 800 iniciativas e contempladas 85, sendo 65 nas áreas periférias da cidade. Há que se reconhecer que há um avanço grande da prefeitura no diálogo com os eixos periféricos da cidade”.

Veja fotos do Rio de Encontros

Com o tema Rio, lagoas e o mar: presença da água na vida da cidade, o próximo Rio de Encontros está marcado para o dia 16 de julhos e, excepcionalmente, o debate será no Studio-X, que fica na Praça Tiradentes, 48 – Centro. Anote na agenda.

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