De onde viemos e para onde vamos

A história da cidade e suas perspectivas como região metropolitana foram tema da abertura do Rio de Encontros 2015. Mais sete encontros acontecem este ano, no auditório da ESPM, no Centro

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro, Brasil.

Henrique Silveira e Marieta Moraes são os convidados do mês de maio. Foto: Monara Barreto

Uma retrospectiva da história da cidade e do estado, associada a um mergulho nos dados atuais sobre o Rio de Janeiro, sem deixar de lado as perspectivas para o futuro da região metropolitana. Esse foi o percurso feito na abertura da temporada 2015 do Rio de Encontros, que encheu o auditório da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing –, na quinta-feira, 28 de maio, com alunos da Turma Rio de Encontros 2015, da Universidade das Quebradas – projeto de extensão da UFRJ -, da ESPM e diversos interessados na proposta de pensar a cidade, construindo novas perguntas e percepções sobre o Rio de Janeiro, a partir do encontro de múltiplas visões. Debatedores convidados, Marieta de Moraes Ferreira, professora do Instituto de História da UFRJ, e Henrique Silveira, coordenador executivo da Associação Casa Fluminense, traçaram um panorama que se tornou complementar na discussão proposta como tema deste primeiro encontro: “Rio de Janeiro: de capital da República a cidade metropolitana”. Silvia Ramos, conselheira d’O Instituto e curadora de conteúdo do Rio de Encontros, mediou a conversa.

Falando sobre as “singularidades da cidade do Rio de Janeiro”, Marieta fez um passeio pela história da cidade, que já foi capital do Brasil Colonial, sede da Corte, do Império, Capital Federal de 1889 a 1960, cidade-estado, com a criação do Estado da Guanabara, até se tornar município capital do Estado do Rio, após a fusão, em 1975. “Estamos vivendo esse ano a comemoração dos 450 anos de fundação da cidade e os 40 anos da fusão. Essas datas são oportunidades para refletir sobre o passado, fazendo relação com o presente e as perspectivas futuras. O que é ser carioca? O que é ser fluminense? Afinal, quem somos nós?”, disse Marieta, jogando luz sobre o que chama de “mitos políticos”, que precisam ser revisitados e, talvez, desfeitos.

Rever mitos: uma necessidade

“Há certo saudosismo que diz como era bom o tempo do Rio capital da República, que seria uma idade do ouro, ao mesmo tempo em que há também um certo bode expiatório de todos os males, que seria a fusão com o Estado da Guanabara, em 1975, quando o Rio teria se juntado a um estado pobre, provinciano, atrasado. De tempos em tempos, voltam ideias que defendem até a ‘desfusão’ com essa parte que atrapalha a grandeza e o cosmopolitismo da cidade do Rio. São mitos políticos, que têm que ser relativizados e olhados de forma crítica. Na época do Rio capital, a cidade enfrentou muitas dificuldades e buscava conquistar sua autonomia política. No final dos anos 50, o Rio enfrentou problemas econômicos e urbanos, cantados até em marchinhas que satirizavam: ‘de dia falta água, de noite falta luz’”, pontuou Marieta – que é contra a ideia da ‘desfusão’, diga-se – lembrando ainda que a fusão foi um ato arbitrário, autoritário, realizado em plena ditadura militar.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro. Foto: Monara Barreto

Rever os mitos significa também pensar sobre a identidade do carioca – ou fluminense. “São elementos do passado importantes, que podem fazer repensar a identidade do Rio. Há indicativos importantes de que uma nova identidade está se constituindo. Buscar a identidade é importante para criar laços de solidariedade”, disse Marieta, apontando a pluralidade da plateia e a própria natureza das discussões propostas pelo Rio de Encontros como evidências dessas redefinições em curso, de uma compreensão muito mais abrangente sobre o Rio de Janeiro e seu morador.

Novos olhares sobre os marcos da cidade

A perspectiva histórica feita por Marieta situou a plateia para a abordagem contemporânea das questões metropolitanas trazidas por Henrique Silveira, coordenador executivo da Associação Casa Fluminense, dedicada a produzir conhecimento sobre e propor ações para a região metropolitana do Rio de Janeiro, ampliando o mapa centralizado na capital. Para demonstrar esse esforço de alargar os horizontes sobre o Rio de Janeiro, Henrique iniciou a fala projetando imagens que se tornaram símbolo do Rio, como a vista da Baía de Guanabara, a partir do Cristo Redentor, contrapondo com outros marcos importantes, que também poderiam ser transformados em referências icônicas, pela importância histórica que têm. Um deles seria Guia de Pacobaíba, em Magé, lugar da primeira estação ferroviária do Brasil, onde o píer avança para a Baía de Guanabara e que, no entanto, encontra-se bastante deteriorado, além de ser desconhecido pela maior parte da população. “É um espaço simbólico porque junta a Baía e a rede ferroviária, importante para o desenvolvimento do Rio”, afirmou.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro, Brasil.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro.  Foto: Monara Barreto

A partir das referências simbólicas, Henrique apresentou dados sobre a Região Metropolitana, demonstrando as discrepâncias existentes na aplicação de recursos e formulação de políticas para os lugares onde vivem 75% da população do Estado do Rio de Janeiro. “Com qual lente vamos olhar para a região? A Casa Fluminense tem olhado o mapa da desigualdade”, explicou Henrique, ao apresentar números sobre a renda média per capita por município – Niterói lidera o ranking, seguido pelo Rio de Janeiro, enquanto Japeri ocupa a última posição, de acordo com os dados do Censo 2010 –, dados sobre escolaridade da população, perfil de homicídios ocorridos em todo o estado do Rio de Janeiro, além do mapa de instalação das UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora. A estes gráficos, somou-se ainda o mapa da mobilidade, também produzido por um dos pesquisadores da Casa Fluminense, que relaciona o tempo de deslocamento gasto por trabalhadores entre suas casas e o Centro do Rio.

Mobilidade e circulação: os gargalos da metrópole

“Dois milhões de pessoas entram todo dia no Rio para trabalhar”, disse Henrique. O mapa da mobilidade agitou a plateia, também formada por várias pessoas que, como sempre acontece, enfrentaram algumas horas do dia para se deslocar até o Centro do Rio, onde o Rio de Encontros passa a ser realizado – as cinco edições anteriores, até 2014, foram feitas na Casa do Saber, na Lagoa. “Saí de casa meio dia e olha a hora que cheguei aqui”, disse alguém, que mora em Belford Roxo, e se atrasou para o início do Rio de Encontros, marcado para as 14h. Além do mapa da SuperVia, com toda a malha ferroviária do Rio, Henrique também apresentou o mapa das soluções que estão sendo criadas em relação à mobilidade urbana, como o BRT, claramente insuficiente para atender a demanda da população. “É difícil acreditar que essa vá ser a solução”, pontuou, apontando também para o mapa dos investimentos em transporte e para as soluções que chamou de “puxadinho do BRT”, como a TransBaixada.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro, Brasil.

Igor Soares. Foto: Monara Barreto

“É possível e necessário pensar o Rio de Janeiro como uma cidade metropolitana mais integrada e igualitária”, disse Henrique, definindo a Casa Fluminense como um espaço de construção de políticas públicas na Região Metropolitana, que cria um espaço comum e de diálogo, para discutir e propor agenda de futuro. Neste sentido, a Casa realiza o Fórum Rio, que a cada edição é feito num lugar diferente da Região Metropolitana – já foi feito na Zona Oeste, Centro, Baixada e o próximo será no Leste Fluminense, dia 08 de junho, às 15h, na UFF – e a Agenda Rio, com propostas concretas, discutidas ao longo dos encontros no Fórum Rio, debates em que o poder público é sempre convidado a participar.

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