Queremos o caminho do meio

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Plateia do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

O bate papo com a plateia começou com o comentário de Eliane Costa em resposta à pergunta de Teresa Guilhon sobre o que é preciso para a cena de baixo para cima se tornar mais permanente. Mas o que pontuou a conversa foi a vontade de encontrar um caminho que aglutine as duas formas de cena cultural.

Eliane Costa – As gerações também estão muito presentes nessa cena “de baixo para cima”. Hoje, fica claro que a roda está inventada, os jovens das regiões populares querem e têm condição de serem protagonistas, porque eles têm o saber e a noção de intervenção do seu próprio território. O que eles não têm, muitas vezes, são ferramentas para se inserirem num plano de financiamento à cultura, que já é perverso para todo mundo, mais ainda para a periferia. Eu considero importante a metodologia de inserção desses jovens em redes e repertórios, potencializar o que eles já sabem e suas relações com os territórios. Além dessas cenas que já existem, eu acho que o papel da política pública é fundamental, porque na hora em que o Ministério da Cultura dá a chancela para manifestações culturais nos territórios populares, essa chancela se torna mais importante que o dinheiro. E é ela que abre portas para o dinheiro e para a relação das pessoas com os poderes públicos locais e com a própria comunidade.

Diogo Rodrigues (de São Gonçalo) – Como é, para vocês do Dá Teu Papo, atrair o jovem para o projeto e depois vê-lo trilhar outro caminho que não é o do bem?

Anderson (Dá Teu Papo) – Conseguimos levar um jovem de uma facção a participar de uma feira literária num morro dominado por outra facção. Como? Fazendo esse jovem entender que ele não defendia a facção, e sim a comunidade. Sempre através da reflexão. Para evitar a evasão para o tráfico, trabalhamos muito com mobilização, e ela não acontece sem proximidade, que é o que faz o jovem falar conosco. Ao mesmo tempo, vamos precisar da parceria com as empresas, instituições e com outros coletivos para criar oportunidades.

Diogo Rodrigues (de São Gonçalo) – Quais são as dificuldades de atrair os jovens para os projetos de Honório Gurgel?

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Foi a pergunta que fiz para Vitor Pordeus e ele disse que a resposta valia 20 milhões de dólares (risos). É a coisa mais difícil do mundo, porque trabalhamos com jovens que estão em áreas marginalizadas e não gostam de estar nesse território. Então, a gente tenta agir de maneira sistêmica criando a ideia de pertencimento e fazendo esses eventos que aproximam pessoas.

Liliana Magalhães (Gestora Cultural) – Qual é o diálogo que vocês têm com as empresas, onde está esse elo perdido do diálogo com empresas que estão tentadas a voltar a trabalhar com uma atuação responsável de mercado?

Leona Forman (Brazil Foundation) – “De baixo para cima” e “de cima para baixo” são expressões que, de certa forma, cristalizam realidades existentes. Qual seria a possibilidade de encontrar um espaço do meio? Olhando a nossa realidade, como os ministérios, empresas e fundações encontram esse caminho do meio?

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Leona Forman. Foto Paula Giolito

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Acho que não existe essa relação com a iniciativa privada. O caminho que vejo é a união de todos. Em Honório Gurgel, poderíamos ter mais apoios, como os Cades em São Paulo, que são muito bacanas.

Karen Kristien (Manguinhos em Cena) – Eu acho que há um cinismo, porque o pouquinho que a gente consegue para cima tem um limite. A gente sobrevive de um premiozinho aqui e outro ali, mas ainda não tem a coisa de o poder público querer realmente que a favela se desenvolva. No dia que existir um meio e a gente tiver uma voz lá em cima para executar todas as coisas criativas que surgem no nosso meio, vai haver alguma mudança. Mas acredito que todos nós que trabalhamos com projetos temos um papel político e já estamos transformando dentro das nossas possibilidades, temos que trabalhar ativamente para que as políticas públicas sejam contaminadas pelo nosso fazer diário.

Ephim Shluger (IAB RJ) – O que a gente vê muito hoje em dia é que os projetos de favela satisfazem a certos grupos de interesse, não necessariamente aqueles que vivem em favela. Gostaria de saber dos jovens qual a visão deles do trabalho de organização de favelas? O que falta hoje em dia para transformar a favela parte do bairro e o bairro parte da favela?

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – No Rio de Encontros passado, com o arquiteto Pedro Rivera, levantamos essa questão. Numa Ciro chegou a comentar que os novos empreendimentos eram muito pequenos e que as casas da favela eram alocadas, sendo que a gente falou do sociólogo Jeff Anderson, que diz que o futuro do urbanismo é a favela, por ser o lugar que propicia encontros. Nela, a gente abre a porta e a janela e dá de cara com o vizinho, diferente da arquitetura moderna, que não propicia encontro, isola e não aproxima. Óbvio que a favela precisa de muita obra de infraestrutura, mas ela está pronta, e eu acho que é o futuro.

Claudius Ceccon (CECIP) – No CECIP, começamos de cima para baixo e aprendemos que tem que ser de baixo para cima. Esse aprendizado foi fundamental para tudo o que a gente faz até hoje, porque nos ensina a escutar o outro e entender que esses saberes têm que se encontrar. Isso está por traz da pergunta da Leona “onde está o meio dessa história”. Nós todos queremos um Brasil melhor, que funcione, que escute as pessoas e que seja justo para todo mundo. No Rio de Janeiro, a favela e o asfalto têm uma mediação, mas ainda há muita coisa por fazer e uma grande força está vinda do que chamamos de baixo para cima. A minha pergunta é: onde essa criatividade se encontra com a política que precisa mudar neste país e nesta cidade?

Silvia Ramos – Acho que tem uma novidade nesse cenário, na década atual, que é uma proliferação de formatos muito vigorosos. Esta é a década dos indivíduos governamentais, as INGs, indo além das ONGs. Quem mais dialoga hoje com o poder público é uma pessoa em nome de muitas e em alguns anos isso vai impactar o Rio de Janeiro.

Eliane Costa encerrou o debate comentando a pergunta de Leona Forman sobre a possibilidade de achar um ponto de encontro: “Acho que a perspectiva mais rápida é contaminar a política pública e a mídia, porque a gente não vê nenhum desses projetos na mídia. É uma cena invisível e a maneira de encontrar um meio de campo é dando visibilidade e nisso a mídia tem uma responsabilidade imensa”, finalizou Eliane.

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Teresa Guilhon, Rico Cavalcanti e Ilana Strozenberg. Foto Paula Giolito

Após o bate papo, o curta #Um dia de Alice foi exibido pela primeira vez ao público. Os envolvidos na realização do filme foram homenageados e calorosamente aplaudidos. E assim o Rio de Encontros finalizou mais um ano de trabalhos envolvendo debate e incitando reflexões acerca da cidade do Rio de Janeiro. Que venha 2015 com novos projetos.

E, em tempo, o livro motivador do tema do debate no Rio de Encontros, “De baixo para cima” (Editora Aeroplano), organizado por Eliane Costa, é uma coletânea com dez artigos sobre cultura, economia criativa, inovação, tecnologias, redes digitais e redes de afetos, que detalha a generosidade criativa de vários protagonistas inseridos em projetos periféricos. O lançamento aconteceu no dia 5 de dezembro, na Livraria Travessa de Ipanema. Para quem quiser, está nas livrarias.

Boas festas!

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