Dos projetos pioneiros de cultura e seus desdobramentos

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Eliane Costa. Foto Paula Giolito

Eliane Costa iniciou sua carreira nas ciências exatas. Formada em física, foi servidora da Petrobras por 37 anos, dos quais 17 foram dedicados ao desenvolvimento de sistemas, até migrar para o campo da Comunicação e da Cultura. Sua experiência como Gerente de Patrocínios, de 2003 a 2012 pontuou a conversa com a plateia do Rio de Encontros sobre o tema “De baixo para cima, a nova cena cultural da cidade”.

Nos seus últimos dez anos de Petrobras, o que a ex-gerente mais viu na área de cultura foram projetos de política pública em que artistas ou produtores definiam atividades para territórios e comunidades feitos nos moldes de cima para baixo. “São dezenas de projetos por mês, e o que mais me chamou a atenção foi a potência dos que vinham com uma proposta inteiramente diferente, brotando dos próprios territórios populares”, contou ela, citando o slogan “Fazendo do Nosso Jeito”, da Central Única das Favelas (CUFA) para exemplificar as novas narrativas que afloravam, no início da década de 1990. Era o caso do Afroreggae, do Observatório das Favelas, da Redes da Maré, da própria CUFA, do Circo Crescer e Viver e do pioneiro Nós do Morro, fundado em 1986.

A cultura da periferia ganhava, enfim, lugar de destaque. E os projetos demonstravam, além de desejo de transformação social, originalidade:

“Eu via nesses projetos e nos grupos de cultura digital o que havia de diferente para criar um foco de atenção para o patrocínio da Empresa”, disse ela. E já não faltavam, àquela altura, referências para situar a favela no contexto de representação cultural. Exemplo disso é o livro A Invenção da Favela, de Lícia Valladares, que fala dos primórdios desses territórios, passando pela violência e criminalização até chegar ao reconhecimento das potencialidades culturais que passaram a motivar os fomentos. “Estamos falando de uma geração que trouxe consequências para cada um de nós, na qual o Rio de Janeiro foi o principal protagonista, uma caixa de ressonância para muitos projetos pelo Brasil”, explicou Eliane.

Nem tudo, claro, são flores. O Rio vivia um momento peculiar em sua história. A cidade foi, de certa forma, devastada pela onda de violência que se instaurou no início da década de 1990 – as chacinas da Candelária e Vigário Geral –, evidenciando o sítio do narcotráfico e da polícia corrupta. A desqualificação do jovem e da cultura da favela, por sua vez, motivou o surgimento de novas representações preocupadas com o direito dos moradores ao que lhes é básico, como a cidade, a cultura e a autoestima.

Para Eliane Costa, essas primeiras instituições tiveram um papel importante na mediação com a sociedade, com o propósito de mostrar que a favela não é um aglomerado subnormal, como é definida pelo IBGE, numa avaliação balizada pelo que ela não tem, mas um território repleto de potencialidades culturais preocupadas em dar sentido à vida humana. “Essa geração tem a característica de ver sujeitos que podem se inserir na sociedade, não apenas pessoas a serem atendidas por oficinas”, ponderou ela.

Estamos online

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Plateia do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

Conexão deixou de ser moda para se tornar essencial. E a internet, por sua vez, merece exaltação por possibilitar as redes e descentralizar a emissão das mensagens.

“A gente vinha do século XX, em que toda comunicação era ‘um fala para muitos que escutam’. Hoje, qualquer pessoa com acesso à rede pode gerar o seu ponto de vista sobre diversos assuntos, proporcionando diversidade cultural, linguística e ética. Isso cai como uma sopa no mel no movimento que está eclodindo nas periferias em busca de uma voz própria. A cultura da periferia se alimenta da cultura digital”, realçou Eliane.

Eliane destacou, nesse ponto, os criadores de tutoriais. Por meio de suas publicações é possível aprender qualquer coisa se alguém dispuser de um tempinho para ensinar. “É incrível a capacidade intelectual que permeia o meio digital e a quantidade de pessoas que realmente querem ajudar gratuitamente”, finalizou.

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