O mundo é um palco

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Plateia do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Vitor, como atores sociais o que a gente pode fazer para a população entrar nos nossos lugares de ação?

Vitor Pordeus – Quem responder a essa pergunta ganha 20 milhões de dólares (risos). Como fazer a pessoa ter orgulho do seu território e utilizá-lo? Eu acho dificílimo trabalhar dentro de um hospital psiquiátrico onde o estigma da loucura é uma barreira. Mas nesse caso, o fenômeno que temos que debater é o da alienação cultural. Por exemplo, no hospício nós fazemos cortejo, outro dia uma enfermeira passou por nós e reclamou, então baixamos o som e tentamos incomodar o mínimo possível. Então pensei: se fosse uma celebridade, será que ela também ficaria com raiva? Não. O nosso povo não tem espelho, não tem uma imagem de si próprio, 90% do cinema brasileiro é americanizado e nós queremos mostrar que temos identidade, temos um passado, temos ancestralidade. A doença mental está ligada à falta de raízes, de memória de si próprio. Conseguir reverter esse processo é dificílimo, mas nossa produção no Hotel da Loucura tem conseguido ser bem sucedida no teatro e no cinema, fazemos tudo na colaboração e o resultado são trabalhos memoráveis. Shakespeare fala que o mundo é um palco, todo ser humano é ator e nós somos feitos da matéria que os sonhos são feitos. Eu procuro fazer com que a gente se aproprie disso. Temos muitas famílias com histórico de doenças psiquiátricas, mas o pior disso é que os membros dessas famílias não dialogam, vão acumulando ódio e raiva e de repente alguém surta. Dialogar significa ativar neurônios que ajudam a se reconhecer no outro e entrar em contato com as suas verdades. Cada coletividade precisa fazer isso e o teatro e o cinema ajudam bastante. Acho que qualquer estratégia que queira ser bem sucedida no campo do empreendimento cultural comunitário tem que incluir teatro e cinema. Tudo é Dionísio, o deus da loucura do teatro e do vinho. Vamos dançar e cantar, a gente é bom nisso.

Ana Claudia Souza – A primeira vez que visitei o Hotel da Loucura, eu achei uma loucura porque eu não sabia quem era louco e quem não era. Isso me fez imaginar o que eles também estavam pensando de mim. Na segunda vez, fui lá para assistir a um filme e foi muito bacana, porque todo mundo estava lá: internos, equipe médica e demais. E a terceira vez foi ainda mais interessante, porque fui apresentar um filme que fiz em Honório Gurgel, lugar que eu também morei e que tem uma invenção utópica de um espaço público coletivo bem interessante criado a partir de um muro que separou a rua da linha férrea e se tornou um espaço de criação. Outro dia, um amigo me levou para ver o teto verde que fez em sua casa no Arará e eu pude notar que o verde sumiu da favela, foi substituído pelo azul da caixa d’água e pelo cinza das antenas. Mas em Honório Gurgel, os moradores fizeram um mutirão para cuidar do lugar, que hoje tem uma área arborizada num espaço verde enorme, o que é o resultado de uma utopia. Quando ando por ali acho linda a forma que as pessoas cuidam das suas calçadas e acho que essa é uma dimensão da cidade do Rio de Janeiro. Cuidar da cidade implica em cuidar da calçada que a gente pisa (emociona-se).

Pedro Rivera – O exemplo da Ana Claudia sobre Honório Gurgel prova de que maneira a gente entende que a cidade é uma extensão do nosso corpo. Cada sociedade entende isso de uma maneira diferente e a nossa maneira é muito precária. Nós, brasileiros, somos extremamente egoístas. Não entendemos o que é preciso compartilhar. A gente precisa reformar a legislação urbana, essa é a questão crucial. A nossa legislação é caquética, elaborada no período da modernidade, com uma série de arremedos depois disso. O que está se fazendo na expansão da cidade para as Vargens é absolutamente criminoso, são apenas fragmentos, não se constrói mais o todo e são as próximas gerações que vão lidar com essa bomba, porque não existe prosperidade econômica que seja capaz de sustentar uma cidade produzida dessa maneira. Não dá para instalar serviço de transporte, não dá para elevar energia elétrica e água, não dá para levar escola e cultura numa cidade que é totalmente espalhada pelo território.

Vitor Pordeus – Como ator, eu penso em como agradar o público o tempo inteiro. O que faço todo dia é treinar o ator, porque a capacidade de se comunicar está ligada a capacidade de organizar o nosso discurso. Ele tem que ser edificante, contundente e precisa se espalhar como um discurso viral e infeccioso. Podemos refletir a questão do ritual nesse sentido. Quais são os rituais públicos e que ritual estamos fazendo? Uma coisa pouquíssimo estudada é a democracia enquanto ritual, o que já se fazia na Grécia Antiga. Imagino que uma maneira de alcançar as pessoas é a gente se dedicar a esses rituais, a gente tem evidências de que o ser humano canta e dança muito antes da linguagem, a poesia antecede a linguagem escrita a brincadeira está tanto em homens, quanto em animais. Precisamos nos debruçar nesses rituais, cantar nossa história, cantar nosso mundo e pesquisar rituais que nos aproximam da nossa ancestralidade e nos comunicam com os mortos. Acho que cada comunidade devia ter as suas manifestações culturais, um teatro, um espaço de cultura. A nossa Universidade Popular de Arte e Ciência iniciada em 2010, que culminou no Hotel da Loucura é democracia direta. Lá não votamos nada. A gente senta, discute, briga, surta e contém, debatendo assuntos coletivos até chegar ao consenso. Isso é um ritual.

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