Cerceamento versus ritual

paulagiolito-47

Julia Michaels. Foto Paula Giolito

A discussão tomou o enfoque das construções impensadas, que desconsideram o convívio social e a diversidade cultural. Adquiriu tons reflexivos sobre a violência urbana e suas causas ligadas ao flagelo da população nos transportes públicos

Julia Michaels (Rio Real Blog) – Eu ainda estou sob o impacto de ter visitado o lançamento do empreendimento imobiliário Ilha Pura, na Barra. Numa certa hora perguntei para as pessoas que estavam lá – que eram milhares de corretores e de jovens famílias procurando pela segurança, pelo verde, sustentabilidade e tudo mais –, e a diversidade cultural? O cara não entendeu a pergunta. Ele falou de shopping, falou de cinema, falou da universidade das artes e da grande variedade de ações culturais que têm ali. O choque que eu tive foi de perceber que quem mora numa bolha sou eu, porque eu não penso nas pessoas que gostam daquilo e essas são justamente as pessoas que estão vendo TV e assistem a todos os filmes americanos no cinema. Como podemos atingi-las, incluí-las, desestabilizá-las?

Pedro Rivera – O Residencial Ilha Pura é o exemplo de um espaço de cerceamento aonde eu não vou encontrar o outro, é uma ideia de construção de cidade onde eu não preciso negociar. O parque público que está nesse projeto é balela, porque existem barreiras simbólicas que te fazem sentir que você está invadindo outro espaço. Ele será criado por uma exigência da legislação, mas será codificado de maneira que não possa ser entendido como local público. O Ilha Pura é o primeiro empreendimento a receber o selo de construção sustentável. Isso é uma construção simbólica e uma mentira sendo vendida. Como se pode dizer que aquela é uma construção sustentável? Os critérios são apenas um verniz. Os selos de certificação sustentável no fundo são balelas e não produzem cidades.

Beatriz Jaguaribe – Esses locais são anti-cidades, construções feitas para não ter diversidade urbana e têm uma imaginação muito pobre embutida. Mas essa imaginação não está limitada a um condomínio fechado, acho, e ela se propaga no geral. Lembro do levantamento de urbanização de uma favela em São Paulo em que as pessoas queriam grades e portas fechadas, porque era bonito e dava uma sensação de status. E quem somos nós para ditar como as pessoas devem querer suas casas? Aí entra a questão da explosão de imaginários e algumas alternativas para que as pessoas tenham outra perspectiva.

Leila Abraão (Cia de Dança Livre Acesso) – Desenvolvo um trabalho de processo coreográfico com pessoas cegas e a gente está querendo sair dessa caixinha do teatro para ruas e praças, mas existem as barreiras arquitetônicas para pessoas com deficiências. Como isso poderia ser resolvido? Outra barreira é a do Poder Público. A Guarda Municipal tem feito algumas intervenções em pessoas que vão para praças e ruas colocar seu produto artístico, é o choque de ordem.

Marcia (antropóloga) – Eu trabalho com religiões na cidade, e o Pedro Rivera levantou uma questão muito interessante que é a relação do centro com a periferia. Os religiosos têm uma relação muito diferente com o centro da cidade, muitos vão até lá pela primeira vez quando tem um evento religioso e nesse momento eles estão preocupados não em encontrar locais de cultura, mas com a questão do olhar, do sentimento quando veem a praia pela primeira vez, entre outras coisas. Quero colocar aqui a questão da autenticidade, mais do que a do olhar: no carnaval de rua a gente reinventa o que foi inventado.

Numa Ciro ­– Nós temos tantas ideias, principalmente sobre delicadeza, e por que não fazemos uma campanha, uma associação, uma coisa cívica para pensarmos a cidade? Há um sofrimento do corpo. Pedro falou de uma cidade em que pudéssemos andar a pé e sentir beleza como na literatura e na poesia. Essa violência que acaba numa arma começa com os cigarros jogados no chão, com o descaso. Pela sujeira das ruas é que vejo que ninguém pensa em ninguém. Façamos uma campanha em torno da delicadeza de se tratar a cidade, de se plantar. Ninguém devia morar em barracos. Nossa faxineira disse que ontem foi para casa num pé só, viajar todos os dias num pé só é muito grave, isso sai na arma, fomenta um ódio surdo e mudo que vai aparecer nos demônios em algum lugar. Acho que a saída é ocupar a cidade e se manifestar de alguma forma sobre isso. Hoje em dia as casas estão uma em cima da outra, vi uma casa na favela que não tinha janela, as pessoas andam dependuradas em ônibus expondo seus corpos a esse sofrimento diário, não sei como elas aguentam. Vamos pensar nessas delicadezas.

paulagiolito-52

Numa Ciro. Foto Paula Giolito

Marcão Baixada (Rapper) – Você sai de casa e já se prepara para a porrada. No trem da Supervia tem um aviso que diz: se o trem parar no meio do nada, espere o técnico que ele vai te dizer o que fazer. Você já sai de casa derrotado.

Anabela Paiva ­– Acho que o importante nessa discussão é pensar sobre o que faz o espaço público ser convidativo e atrair as pessoas. Uma grande violência que acontece na favela é a ocupação irregular dele, as pessoas ocupam a calçada e a transformam em espaço de loja.

Patricia (Advogada IEPS) – O abandono do espaço público também se deve a existência de espaços privados semicoletivos como shopping centers, condomínios etc. Eu queria escutar a opinião de vocês sobre as poucas iniciativas de ocupar esses espaços semicoletivos, por exemplo, os rolezinhos.

Pedro Rivera – O rolezinho é o enfrentamento de um capital simbólico. Ele basicamente vai ao espaço com regras e normas e diz “eu quero conquistar esse espaço, quero que ele passe a ser meu e passe a ser vivido dentro das minhas regras também”.

Teresa Guilhon – Eu estava pensando na questão do dualismo assistir versus participar, no quanto as cidades se afastaram do ritual e no quanto esse ritual precisa de participação. A renovação do carnaval de rua é um exemplo: se todos quisessem só assistir, não teria carnaval de rua. O quanto que essa concepção das cidades nos afastou da participação no ritual?

Pedro Rivera – As questões da participação, da interação, do ritual, estão ligadas ao espaço e de que maneira ele cerceia ou incentiva essas coisas.

Egeu Laus – A boa notícia que ofereço a vocês é que há um espaço para exercitar tudo isso: a Região Portuária. São cinco milhões de metros quadrados, três bairros, morros da Conceição, Providência, Livramento e Pinto. Muita ancestralidade. É um espaço para ocupar. A gente tem um projeto chamado Viajantes do Território, e o nosso método são os percursos que se criam para qualquer coisa que se queira fazer ali no intercurso. Todos estão convidados, juntem-se a nós nessa causa.

Vitor Pordeus – Sou da COHAB de Realengo e tudo o que foi conversado aqui eu sinto no meu corpo. A nossa luta é pela memória, é por reconhecer e disseminar o pertencimento. Eu saí do gueto e consegui me comunicar com todos. Sair do gueto é tirá-lo de dentro de você, é romper com ele e entrar na ideia de democracia, de coisa pública. O gueto é o armário e quando você faz cultura no gueto ela sai com a cara de gueto, a música sai com cara de gueto, tudo fica compartimentalizado e interessa ao sistema opressivo. Romper com esse gueto implica em fazer realmente uma cultura pública, em restaurar a memória coletiva por meio dos rituais e sair da mediocridade consentida do dia-a-dia. Somos uma multidão, somos a humanidade inteira e somos 95% bactéria cientificamente comprovado. Nós nunca fomos indivíduos, nós carregamos um ao outro.

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Pedro, a favela é a cidade do futuro?

Pedro Rivera – Numericamente é, e isso é um fato. As cidades que mais crescem são as do hemisfério sul e dentro dele são as favelas. A grande maioria do mundo vai cada vez mais viver em favela. O relatório da ONU traz esses números. Precisamos entender essas dimensões. A possibilidade da casa da favela expandir é a do filho ter um lugar onde morar, é a possibilidade de ser vendido ou de ter um espaço de convivência, dada a carência de espaço público na favela. Esse é um entendimento básico. Também não se entende a dimensão econômica da casa da favela, que muitas vezes abriga um pequeno espaço de trabalho, uma birosca, uma venda. Nessas eleições não existiu uma pauta urbana. Se falou um pouquinho de educação, de saúde, falou muito de corrupção, de habitação, mas são se falou de cidade, porque o Minha Casa Minha Vida não é produção de cidade, é produção de teto. Nele não há uma visão de constituição de espaço, de uma raiz pública, de infraestrutura, de espaço de encontro das pessoas, de estrutura de acesso a serviços públicos. O BNH, pelo menos, era melhor construído. Quando há um pauta urbana, não se tem a mais vaga noção do que é cidade, o pensamento é ultrapassado, retrógrado e sem visão para avançar. A arquitetura sempre trabalha com o poder, esteja ele nas mãos do faraó ou nas mãos do povo, construir uma cidade demanda uma energia hercúlea que só os poderosos podem determinar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s