A cultura e o espaço público na voz da plateia

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Público do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

Tradicionalmente, o formato do Rio de Encontros prioriza a fala dos convidados e também da plateia. Mais que perguntas e respostas, o que seguiu foi uma troca de ideias e experiências entre quem vive na cidade, pensa sobre o espaço e trabalha para que o território seja democrático e humano. Cotidianamente.

Rita Fernandes (Bloco Sebastiana e Coluna Pelas Ruas) – Escrevo “Pelas Ruas”, uma coluna publicada pelo jornal O Dia, porque eu me dei conta de que a cultura vai muito além do que a gente pensa e do que a mídia mostra. O nosso leitor quer o coletivo de Realengo, quer saber quem está fazendo cultura fora desse eixo da Zona Sul, porque falar dos teatros e artistas que a gente conhece é muito fácil, o difícil é abrir nossos horizontes para falar daquilo que está sendo feito além das fronteiras. Eu preciso pertencer a alguma coisa que vá além da minha fronteira, senão fico muito aprisionado por aquilo que me cerceia. Não há lugar melhor para a cultura de rua que o Rio de Janeiro, o Rio é rua.

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Pedro e Beatriz, qual é a responsabilidade da arquitetura para o modelo de sociedade que a gente tem hoje? Em Honório Gurgel, a gente utiliza botequim para fazer sarau e uma série de coisas. Essa cultura local também precisa ser reconhecida.

Pedro Rivera – Eu acredito que as cidades são a maior invenção do homem. São, inclusive, a nossa maior invenção cultural, porque dentro da cidade está tudo. Todas as nossas expressões cabem e são suportadas pela cidade e houve um momento em que a arquitetura soube, de certa forma, se dedicar de uma maneira muito potente a imaginar o homem e seu espaço. Mas ela caiu na armadilha de achar que poderia produzir um novo homem. Essa foi a grande crise da arquitetura da qual não saiu até hoje, não conseguiu se colocar direito em nenhum campo. É uma loucura achar que a arquitetura tem a capacidade de repensar de uma maneira tão profunda as instituições culturais, as tradições etc. Por outro lado, ela é inerte e completamente incapaz de se impor dentro de um cenário político. Um exemplo: nas políticas do Ministério da Cultura não existe uma linha dedicada à arquitetura, a não ser que seja patrimônio histórico, porque aí não se pensa nela como arquitetura e sim como patrimônio. A gente não considera a importância da dimensão cultural que a arquitetura pode produzir enquanto urbanismo, em espaço mais generoso e mais aberto. Isso é completamente condicionado pelas determinantes do mercado.

Teresa Guilhon – Estamos falando muito sobre a cidade moderna, o Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira é um notável equipamento modernista. É um espaço imenso, imponente e faz parte desse paradigma.

Pedro Rivera – É engraçado, mas existe uma distância muito grande entre o que se produziu na arquitetura e no urbanismo moderno. A intenção dos conceituadores da arquitetura do mundo moderno era a intenção do homem generoso, em Brasília as quadras eram para todas as classes sociais viverem juntas, mas esse modelo era tão fora da realidade que não se conseguiu implantar.

Edmar Junior de Oliveira (Hotel Spa da Loucura) – Acho que os lugares têm que ser apropriados, não dá mais para ter essa padronização estética que gera preconceito, indiferença e discriminação. A cultura tem que ser um espaço de direito que gera autonomia, um espaço que gera entendimento do outro. Temos que assumir nosso lugar de direito, não só no Hotel da Loucura, mas em todos os lugares.

Beatriz Jaguaribe – A gente demoniza muito Brasília, a cidade que não tem esquina e possui toda aquela monumentalidade, mas, ao mesmo tempo, aquela foi uma grande utopia. A ideia do superbloco era exatamente uma ideia de igualitarismo. A ironia é que esse superbloco veio a se repetir em todas as cidades brasileiras, mas não de uma forma aberta, comunitária e igualitária. Ele veio a se repetir como condomínio fechado. A Barra da Tijuca é um lote de superbloco de condomínio fechado, uma arquitetura de medo. Então, não é o desenho que vai trazer o uso social adequado. Perdemos a capacidade projetiva de imaginar a cidade com um certo sentido, porque não temos mais uma boa capacidade de leitura.

Marcão Baixada (Rapper) – Hoje em dia acontece uma coisa interessante, que é o Estado se apropriar das iniciativas da rua. Existe um cineclube em Nova Iguaçu, o Buraco do Getúlio, que sempre buscou apoio da Secretaria de Cultura, mas encontrava barreiras. Agora a Casa de Cultura de Nova Iguaçu criou um espaço onde o Cineclube Buraco do Getúlio era realizado nas gestões de cultura anteriores à atual.

Beatriz Jaguaribe – A cultura está sendo inventada de uma forma vital em muitos lugares e claro que existe a força de apropriação do Estado. Eu gosto muito do livro Guia Afetivo da Periferia, do Marcus Vinicius Faustini, porque ele tem uma ideia de invenção cultural própria ao mesmo tempo em que vai caminhar pela cidade e vai se apropriar do que dá vontade. O teu lugar de pertencimento tem que ser sua força e sua base, mas você tem que falar de tudo, tem que ter direito à cidade e caminhar por tudo.

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