Do racismo velado ao hip-hop como a maior das expressões

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Dudu do Morro Agudo. Foto Paula Giolito

Com a palavra, Dudu do Morro Agudo, que optou por contar sua experiência pessoal na luta pela consciência negra por meio do movimento hip-hop. De uma família que jamais discutia a questão racial em casa, o rapper conta que foi criado aceitando o mundo como ele é. Um moleque negro alienado, como ele diz, sem conhecimento das próprias origens. “Ao descobrir o Rap, Racionais, MCs, ficou mais fácil. E assim eu comecei a entender e procurar saber mais sobre minha origem”.

Sim, o hip-hop mudou tudo, ele garante. “Minha filha nasceu no berço do hip-hop, a mãe dela faz parte do movimento negro, e tudo é discutido em casa. As bonequinhas dela eram pretas, os desenhos animados tinham personagens pretos, e ela sempre assistiu bastante à televisão”. Mesmo assim, o resultado foi um pouco diferente do que ele esperava: “Um dia ela pediu uma Barbie e eu disse tá bom, eu vou te dar uma Barbie preta e ela falou preta eu não quero, porque preto é feio. Deu uma coisa ruim no peito e me senti impotente, perguntei: sua mãe é feia? Papai é feio? Sua avó é feia? Por que preto é feio? E ela respondeu: porque preto é feio! E eu descobri que a minha mãe não fracassou na minha criação. Na verdade, a sociedade te empurra o tempo inteiro para o abismo dizendo que ser negro é ruim”, afirmou ele.

Dudu considera penoso ter que desconstruir o que a televisão constrói em relação ao negro todas as vezes que sua filha a desliga. Citando a história de um amigo que certa vez contestou a fala de uma palestrante de que todos são iguais e não se deve falar em diferença, concluiu: “diga isso para as crianças da escola da minha filha que a chamam de cabelo de Assolan, para o policial que passa por todo mundo no ônibus e me dá dura porque eu sou suspeito, para o guardinha do banco que trava a porta quando eu passo”, disse ele, em tom de desabafo.

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“Perguntam se eu já sofri preconceito e eu respondo que graças ao hip-hop, sim. Porque se eu não tivesse essa consciência, passaria batido” Foto Paula Giolito

Carioca tem cor, Dudu? “Para mim, existem duas respostas. Uma é a ideal, que são todas as cores e todo mundo se respeita; e a outra é a do mundo real, onde as pessoas te julgam pela sua aparência”, realçou o rapper. Ainda assim, houve avanços na conscientização negra, ele reconhece: “Um exemplo disso é ver jovens usando cabelos black power e trança nagô. Quando eu era moleque, homem era careca, mas com o nagô e o black na moda demos um avanço.”

Aos 35 anos, Dudu começa a ver a discussão racial ultrapassando as fronteiras do hip-hop, que considera a maior das expressões e atribui a ele seu engajamento. “Idealizei e coordeno uma escola de hip-hop. No entanto, a nossa escola não é para ensinar aos meninos a prática do hip-hop, mas sim os valores dele. A gente ensina valores, passa filmes, lê livros sobre a história de lideranças negras e tenta mostrar como foi a travessia do negro para o Brasil e sua trajetória aqui. Essa molecada branca, tanto da classe média quanto da molecada da comunidade, começa a ter um conhecimento que não tem na escola, e começa a olhar o diferente com mais respeito”, avaliou. O racismo já foi mais velado, segundo ele. A intolerância, por sua vez, já foi menos explícita.

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