Uma discussão sobre legados

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, Mário Andrada, Flávio Canto e Isabel Salgado / Foto Paula Giolito

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, Mário Andrada, Flávio Canto e Isabel Salgado / Foto Paula Giolito

Devidamente apresentados os debatedores do dia, ao debate. O moderador, Pedro Strozenberg, direcionou a Flavio Canto e Isabel Salgado a primeira delas: Quais lembranças, dos Jogos Panamericanos de 2007 e da Copa do Mundo, merecem ser guardadas? O que pode ser repetido e o que precisa ser mudado? Trocando em miúdos, ele pediu que os atletas contassem o que consideram positivo e negativo nos legados mais recentes.

Flávio Canto tomou a palavra, com uma análise, como ele disse, subjetiva: “Os Jogos de 2007 foram um pouco como foi  a Copa. A gente viveu um período de como poderíamos ser. Não sei o que acontece, se há algum  relação com comandos, que ajuste é feito, se é que existe, mas a gente passa um período de paz, que parece improvável. E assim que acabou o evento, já houve a morte da Tintim (sócia do restaurante Guimas, na Gávea), e a gente pensou ‘caramba, acabou a Copa do Mundo’. Já era outra realidade. Grandes eventos mostram a força que a gente tem e o que poderíamos ser.”

O Brasil deu provas vivas, segundo Flávio, de que é capaz de realizar. De preocupante, há as obras superfaturadas e não aproveitadas após os jogos. Mas, arena adentro, o cenário é promissor: “O Brasil vem crescendo como potência olímpica. A expectativa é que fiquemos pelo menos entre os dez em quadro de medalhas, em 2016. É uma evolução significativa, pautada em resultados de mundiais recentes. Esse é um prognóstico vivo”, afirmou. Entre a expectativa e a esperança, Canto usa Londres como bom exemplo. “Quem viveu as Olimpíadas de Londres viu que eles usaram o evento para mudar a cidade. E acho que é isso que está acontecendo no Rio. As obras caóticas fazem parte desse trabalho de construir um legado para a cidade.”

Isabel Salgado corrobora a lista de vitórias demarcadas pelo Pan e a Copa. “Para o atleta, é incrível participar de um panamericano, das olimpíadas, e isso tem desdobramento na vida esportiva da comunidade. E ficou da Copa que a gente pode ter a cara bacana, limpiinha, legal. Que a gente pode viver dentro do Brasil uma coisa que não achei que era possível. A imagem do Brasil foi muito positiva, como recebemos bem, até os argentinos não tiveram do que reclamar, acamparam em nossa praias, deixaram os carros aí”, ela apontou, com bom humor.

Mas a atual treinadora não ameniza na fala o que considera problema. “Eu torci muito para o Rio sediar os Jogos, mas acho que a gente carece de tirar mais proveito desses grandes eventos. A gente tem o hábito de não ter a dimensão do que a gente pode ser. Uma coisa que me marcou muito, na Copa,  foi o número de mortes de operários nas obras. E em alguns lugares, ninguém morreu, em Londres, não morreu ninguém. Tudo isso serve de experiência. Quando você tem uma sociedade que participa mais do andamento, ela só contribui. Tem o legado bacana e o legado que eu quero entender um pouco mais, como no que deu o Mané Garrincha,  Amazônia, falta saber essas coisas”, ponderou.

O Rio, a Copa e as Olimpíadas: rodada de perguntas aberta para a plateia / Foto Paula Giolito

O Rio, a Copa e as Olimpíadas: rodada de perguntas aberta para a plateia / Foto Paula Giolito

Na sequência, Pedro Strozenberg passou a Mário Andrada e Augusto Ivan a tarefa de responder sobre o que é papel do poder público e e que lugar tem a iniciativa privada na organização das Olimpíadas do Rio, e como essas duas esferas se relacionam. Mais ainda, como estabelecer a transparência nas ações.

“A ligação público-privada está presente em vários momentos da construção dos equipamentos olímpicos. São pouco mais de 40 equipamentos de responsabilidade da prefeitura. Os governos estadual e federal repassaram para a prefeitura, com os seus devidos recursos, a responsabilidade por pouco mais de 40 equipamentos. A prefeitura tem sob sua tutela a mobilidade urbana, o vai-e-vem do trânsito, a ligação entre os parques da cidade, que são distantes um do outro. São projetos já previstos, mas que as Olimpíadas adiantaram. Essa experiência é boa para a cidade porque vai diminuir o tempo dos deslocamentos entre os lugares. Equipamentos e meios de acesso a esses equipamentos, esses são o grande legado”, realçou Augusto Ivan de Freitas Pinheiro.

No rol de equipamentos que terão aproveitamento pós-Oimpíadas, o urbanista citou o Centro Olímpico de Treinamento de Atletas de Alto Rendimento, que o governo federal deverá administrar; a construção de quatro escolas municipais no entorno do Parque Olímpico; o parque que resultará do Parque Olímpico; o campo de golfe, que faz parte da APA de Marapendi. “Há várias PPPs em andamento. O município, para atrair o setor privado, mexeu nos padrões urbanísticos da cidade. A iniciativa privada dá dinheiro, e ganha terra, ganha pavimento. Não é dinheiro público que está financiando as obras. O dinheiro está sendo fabricado com o que a própria cidade e suas legislações podem fornecer. Os famosos elefantes brancos  não vão existir. No Rio, ou se desmancha ou vai ser aproveitado”, garantiu.

O jornalista Mário Andrada foi taxativo sobre o legado e a distribuição e origem dos recursos que financiam as obras. “A iniciativa privada tem uma característica diferente, não faz nada de graça e essa regra é clara. Ela financia os Jogos com patrocínio, e se beneficia disso. Os jogos do Rio têm aspecto revolucionário na parte de construção e instalação. Praticamente 60% dos recursos são de origem privada, o que reduz o custo total dos jogos. O legado se dá de várias formas e nem todas são republicanas, nem sempre houve um diálogo prévio sobre o que seria construído, sobre determinado equipamento”, afirmou.

A mobilidade urbana, por sua vez, é um consenso, entra como ganho na contabilidade e na rotina dos moradores. “O Rio se transporta buscando a orla. Agora, haverá muitas conexões que vão integrar a cidade de forma diferente. O sonho do metrô na Barra caminha para acontecer. O que falta, do ponto de vista físico, é que esse legado se sustente. E precisa ter diálogo de aproveitamento. O Brasil precisa de atletas de alto rendimento, mas precisa deixar que várias pessoas tenham acesso ao esporte para depois definir quem tem alto rendimento. As cartas não estão totalmente marcadas e há espaço para diálogo.”

O que está em xeque, segundo Andrada, é afinar o legado, definir o que é necessário e quais oportunidades merecem atenção. Mais uma vez, Londres foi citada como referência em dever de casa bem feito. “O esporte é a esssência, é o que inspira. As pessoas se inspiram ao ver um esportista superar os seus limites. Foram os elementos humanos que resolveram os jogos de Londres. Os voluntários e os atletas fizeram a diferença. Londres não é uma cidade fácil de se viver, não é como era durante os jogos. Se os atletas não aparecem, a gente não inspira uma nova geração”, avaliou.

Isabel também acompanhou a façanha londrina. “A Inglaterra fez um projeto olímpico voltado para performance. Houve um planejamento de como fazer o esporte acontecer de forma efetiva. Eles queriam trazer o barato da vitória, da conquista para a população. Conseguiram”, afirmou ela.

Tratou-se de um contrato claro com a sociedade, completou Mário Andrada. “O contrato de Londres com a sociedade estava muito claro. Havia uma motivação de  inspirar uma geração e revitalizar uma parte de cidade. Eles revitalizaram a região do Parque Olímpico e eles inspiraram uma geração. Esse é o contrato que precisa ser feito no Brasil. O diálogo vem agora, para fazermos esse contrato.”

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