O Rio pós-Copa e pré-Olimpíadas

Flávio Canto e Isabel Salgado, na rodada de perguntas da plateia / Foto Paula Giolito

Flávio Canto e Isabel Salgado, na rodada de perguntas da plateia / Foto Paula Giolito

Pedro Strozenberg resumiu os muitos questionamentos que circularam pela plateia: de um lado, a questão dos atletas, e os investimentos necessários no esporte; do outro, a organização os jogos, quem faz, os riscos de as obras não serem concluídas, que tipo de cidade está sendo construída. O Rio acolhe ou segrega seus habitantes?

Augusto Ivan – Não há indícios de que as obras ficarão inconclusas. Deodoro está atrasado, mas estávamos contando com esse atraso. Todas as obras estão licitadas, em muitas delas as construções já estão surgindo. Os projetos estão aprovados, então, não vejo esse como um problema real. A não ser que haja um cataclismo.

Isabel – A relação de um atleta com os Jogos, quando é brasileiro, é diferente de todos os outros países. Para o atleta, jogar uma olimpíada no Brasil vai ser sensacional, mas é preciso ter frieza para não confundir a emoção, e fazer aquilo jogar a favor, não contra. Para o esporte, a Olimpíada é legal, mas não é tão fundamental. Eu torço pelo maior número de medalhas, mas também pra que a gente tenha uma outra visão do esporte, que ajude a construir uma sociedade mais justa.

Flávio Canto – A demagogia do sistema que envolve o esporte é um grande problema.  A Alemanha, por exemplo, fez um planejamento muito coerente e criou uma metodologia do futebol. Isso faz diferença. O planejamento foi tão ferrenho, que até o marketing é forte. É genuíno, mas é planejado. Foi a vitória da civilização sobre o improviso e o imediatismo. Lá, os dirigentes não se perpetuam  nos cargos das federações de esporte.

Marcão Baixada, rapper – Contestando o clima de paz da Copa, vale lembrar que houve inúmeras operações policiais pela cidade. Que impacto as Olimpíadas vão ter na Baixada Fluminense? As obras estão paradas, as vilas olímpicas sucateadas, vai ficar do jeito que está? Qual o interesse do estado em investir no esporte nesses lugares, de investir na base, em categorias infantil e juvenil?

Augusto Ivan – Esse assunto (Jogos Olímpicos) não pode dar conta dos problemas todos da região metropolitana. No plano de candidatura do Rio, não havia nenhuma proposta para aquela região. É outra administração, são outras cidades, outro nível de governo.

Mario Andrada – A Baixada ficará mais acessível. O impacto de médio prazo é o crescimento do emprego e da capacitação (para os voluntários). Não é impacto direto. O projeto de educação é ensinar valores olímpicos de excelência e jogo limpo, que fazem falta na educação de vários adultos.

Depois da Copa e antes das Olimpíadas, o debate no Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Depois da Copa e antes das Olimpíadas, o debate no Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Ana Carolina, aluna da ESPM – As obras nunca vão estar prontas, e sempre tem uma reforma de valor exorbitante.

Augusto Ivan – Sobre corrupção, é preciso especificar quais são os fatos. Quem está corrompendo quem, em que obra, de onde saiu a informação? Para responder tem de haver precisão. Corrupção é um discurso brasileiro, mas é preciso que as coisas sejam nomeadas, não tenho conhecimento de corrupção nas obras olímpicas. É preciso ser honesto nas acusações, também, ou as cosias ficam vagando no ar e a gente fica repetindo clichês.

Graciela Hopstein, Instituto Rio – Não é uma pergunta, mas uma provocação. Ouvi de vocês coisas difusas sobre legados. Sinto falta de uma política mais sistêmica, que coloque o legado no âmbito dos direitos, no acesso à democratização da cidade. Para pensar nesse legado, tem de se pensar numa política mais orgânica, uma política de esporte, assim como há uma política de cultura.

Mario Andrada – O que o poder público tem de fazer é gerenciar e aplicar a lei para questões clássicas de corrupção. Quanto mais o governo dialogar, melhor. O esporte é direito privado pela Constituição. A sociedade que cobre dos governos e dos clubes a aplicação da lei.  O legado é uma obrigação e está sendo feito, falta comunicar que esse legado existe. É preciso que seja claro para todos onde estão e quais são.

Isabel – Esses grandes eventos têm desdobramentos em todos os setores da sociedade.  Na Olimpíada de Moscou, eu entendi que eles esvaziaram a cidade, a população local não estava toda lá. Quando começava a juntar um grupinho, vinha um policial e dispersava. Acredito que isso aconteceu aqui. Até onde a gente vai para ter uma Olimpíada, uma Copa, até onde a gente pode ceder? A gente não tem resposta que satisfaça. Acho que os diálogos deveriam acontecer mais. Seria bacana se a gente falasse e pudesse dialogar com o Comitê Olímpico, com a  prefeitura.

Flávio Canto  – A gente incorpora clichês, como o de que o atleta brasileiro é um herói. O Reação Olímpica tem 200 atletas. Hoje, a confederação de judô é muito rica, tem financiado viagens para todos os atletas, desde a base, e vem crescendo a cada olimpíada, a cada mundial. E o objetivo é aumentar o número de medalhas, foram quatro nas últimas olimpíadas. Hoje, um atleta da seleção tem os patrocínios privados e tem o salário. Dependendo da colocação dele, essa remuneração pode chegar a R$ 15 mil. O atleta de ponta tem acompanhamento muito especial. O COB faz mapeamento de todos os atletas com potencial de medalha e faz o acompanhamento desse atleta, inclusive em ajuda de custo.

João Vitor, ESPM – Até quando os morros vão ficar pacificados? Acabou a Copa e, na Tijuca, só se ouve ‘pega ladrão, pega ladrão’. O que aconteceu foi um show. A cidade foi pacificada e depois voltou ao que era antes.

Flávio Canto – A indignação faz parte, mas acredito na força que a gente tem, e subestima, que é juntar um grupo de amigos e fazer as cosias que têm de ser feitas. E não somente esperar. A gente precisa formar campeões porque precisa de exemplos para os mais novos. Hoje, o discurso é muito mais alcançável. Via Reação, temos 50 atletas que recebem bolsa, 40 funcionários, polos espalhados. A maior parte dos projetos é de temporada, mas o surgimento de atletas oriundos de projetos sociais é um movimento visível.

Ana Carolina, aluna da ESPM – E o voluntariado? Funcionou em Londres, mas comparamos com Primeiro Mundo. Por que não formamos os voluntários?

Mario Andrada – Os voluntários têm de ser de primeiro mundo em qualquer lugar. A gente precisa tanto de médicos quanto de almoxarifes. Fazer parte dos jogos e daquele momento da cidade é um projeto para todos.  Os organizadores têm de dar condições para que todos possam ser voluntários. O pré-requisito é se inscrever.

Isabel – O esporte tem um vôlei hoje muito forte, mas têm modalidades que ainda não têm eco na imprensa. A gente mudou, e isso se traduz quando você diz em casa que quer ser atleta e vê a reação da família. A gente hoje tem uma cara que antes não tinha, se orgulha. Todos sabem que aquilo tem possibilidade de subsistência, tem dignidade.

Uma pergunta puxa outra, mas era preciso encerrar o evento. Nas palavras do mediador, Pedro Strozenberg, a preocupação é menos o durante o evento. “O desafio é o pré, e o desejo é o pós. A gente tem dois anos para dar a virada. O sentimento majoritário é de que Olimpíada vai acontecer em nossa cidade e a gente é convidado para ela. Mas ela precisa ganhar uma identidade que seja carioca. Que pareça Londres, por seus bons resultados, mas que tenha alma e a marca do Rio de Janeiro”, disse ele, deixando o convite aberto para uma nova rodada.

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