Juventude em encruzilhada

José Eisenberg: "O Rio odeia partidos" / Foto: Paula Giolito

José Eisenberg: “O Rio odeia partidos” / Foto: Paula Giolito

Crise de mobilidade social, explosão demográfica da juventude e uma cidade que se vê como expressão e representação do país. O cientista social José Eisenberg partiu dessas três premissas para engrenar uma explicação e arriscar respostas para cada uma das perguntas sugeridas pelo Rio de Encontros.

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As manifestações de junho de 2013, cuja demografia era marcadamente jovem e universitária, foram o estopim que garantiria o merecido protagonismo dessa faixa etária também na pesquisa sociológica no Brasil. “Nós começamos a pensar: será que tínhamos ali um indicador de alguma coisa que estava apontando para um certo tipo de interesse que as juventudes presentes nas redes sociais brasileiras já manifestavam por um tema que era divergente, no sentido de distante, não próximo, mas cuja semântica aludia a afetos, símbolos, desejos e anseios, que eram convergentes?”, Eisenberg dividiu o questionamento com a plateia.

A observação apontou para a encruzilhada em que se encontram esses jovens. “Por sugestão e financiamento dos pais e do Estado, eles adiaram o ingresso no mercado de trabalho para estudar mais. Hoje, entretanto, esse diploma não parece capaz de assegurar salário digno. O prêmio salarial vem caindo com o aumento da escolaridade. Particularmente com diploma de ensino superior, que cada vez mais é uma estratégia de ganhos decrescentes para o diálogo entre a geração que estuda e aquela que financia os estudos. De um lado, uma expectativa frustrada de oferecer aos filhos vida melhor do que a própria e, de outro, uma expectativa crescente de que quatro anos fora do mercado de trabalho pudessem se traduzir em maior empregabilidade.”

As promessas foram muitas e os investimentos, altos. “Construiu-se uma nova base demográfica do que é o jovem universitário hoje no Brasil. Em que classe colocamos essas pessoas que estão vivendo essa mobilidade, essa crise de mobilidade o tempo inteiro?”, prosseguiu.

Somado a esses dois pontos está um Rio que transborda recalque. “O Rio é uma cidade recalcada. E isso ocorre porque, como cidade, ela vive a síndrome da capital abandonada, não se compreende como região. O Rio de Janeiro não se compreende como endógeno de um lugar com tradições regionais, fragmentadas, parte da nação. O Rio de Janeiro se entende como expressão da nação. O político carioca, quando fala da política do Rio, não fala como se falasse da política de sua cidade. Ele fala como se falasse de algo que, na pior das hipóteses, é uma representação suficiente da nação”, disse ele, sem meias palavras.

Para fechar a primeira fala, José Eisenberg reservou respostas diretas sobre os temas que pontuaram o Rio de Encontros:

Como a mobilização da juventude vai impactar nas urnas?

A resposta, óbvio, eu não sei. Agora, nós não estamos aqui pra brincar de não sei, estamos aqui pra jogar pôquer. Nem que seja pra perder. Eu acho que não vai ter impacto nenhum. Vai ter vinte mil militares na rua, em junho, no Rio de Janeiro. As greves, os movimentos sociais aos quais nós estamos assistindo agora são todos clássicos sindicais, associados a pleitos, reivindicações que estão ligadas a movimentos de conflitos entre duas centrais sindicais e aos movimentos específicos de pleitos daqueles setores estratégicos capazes de chantagear o governo num momento como esse. Aquelas características etnograficamente visíveis das manifestações ano passado, a diluição de pauta, coisas que as pessoas tratavam como negativas, mas que eram suas próprias virtudes dentro da medida, estão ausentes hoje daquilo que nós encontramos como mobilização de rua. Quem está lá são os rodoviários, os professores, são os servidores da cultura. É gente com pauta sindical.

Mobilização ou mobilidade?

Há uma relação curiosa entre a ideia de mobilização e mobilidade. E quando eu falo de crise de mobilidade social, é quase inconcebível pensar que a ideia de mobilidade, da possibilidade de se mexer ao longo da escala da riqueza, não tem algum vínculo à ideia daquilo que nós chamamos de mobilização. É engraçado. Mobilização é quando as pessoas param em algum lugar – elas se tornam imóveis. É imobilização, né? Mas não, nós chamamos de mobilização porque as pessoas se dispõem a sair de um lugar para ir a outro. Elas se mobilizam, elas se movem para aquele lugar. Na medida em que haja, e sejamos obrigados a reter, pelo menos no plano simbólico, essa relação semântica entre a ideia de mobilização e mobilidade, nós estamos jogando pôquer com essa brincadeira. Porque a qualquer momento sai uma faísca, matam alguém no Pavão Pavãozinho que é de um programa televisivo da Regina Casé e tudo muda. É um mundo que vive um pouco essa expectativa do imprevisto, do imprevisível. Mas sobre isso não se fala, apenas se teme, sobre isso apenas se especula.

Quanto vale o voto?

Nós não podemos esquecer que o voto é barato. A gente tende a achar que todo mundo coloca um enorme investimento na decisão do voto – o voto racional, o voto afetivo, o voto carismático – mas é sempre a ideia do voto investido, de intenção, de adesão. Hoje, na sociedade capitalista contemporânea, aqui e alhures, o voto é uma coisa que, independentemente da sua geração, gera pouca adesão. Eu acho que essa nova geração, inclusive, que vive essa crise de mobilidade, tem para si o voto mais barato ainda e, portanto, vai decidir em quem vai votar duas horas antes de chegar à urna. E tanto faz, tanto fez. Que diferença vai fazer?

As nossas eleições só têm altos índices porque o voto é obrigatório. Agora, achar que o voto é esse momento de investimento quase que religioso com uma convicção é perder a dimensão rebaixada que esse ato tem no contexto da sociedade de massa.

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