Pela liberação das drogas

 

A socióloga Julita Lemgruber (à direita): “Não vamos nos enganar. A questão não é o uso, mas o abuso de drogas” / Foto Paula Giolito

A socióloga Julita Lemgruber (à direita): “Não vamos nos enganar. A questão não é o uso, mas o abuso de drogas” / Foto Paula Giolito

A socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, é defensora voraz da legalização das drogas. Ex-diretora-geral do sistema penitenciário fluminense entre 1991 e 1994, e ex-ouvidora de polícia do Estado do Rio de Janeiro, ela tira os argumentos da experiência passada e da análise da realidade dramática atual: o Rio está pegando fogo. E a quem resiste a fazer a ligação entre os temas, ela responde com eloquência que não se engane, a política de guerra às drogas adotada no país e a violência caminham juntas.

Querem uma prova? Julita exibiu no telão  o cenário da morte do dançarino do programa de Regina Casé, o  DG, ocorrida em 22 de abril . Com a manchete do dia do jornal O Globo, a socióloga levantou a primeira questão: “O que leva o jornal a definir a população das favelas como vândalos? É ser no mínimo ingênuo achar que essas pessoas estão ali a mando do tráfico”, disparou. A explicação e as motivações são outras. “As UPPs, claramente, não tiveram o sucesso esperado e começam a fazer água por todos os lados. Além de não funcionar, há uma estratégia esquizofrênica por trás das ações policiais: a polícia é violenta, entra e sai, troca tiro e provoca morte de pessoas. O que está errado? Tem algo maior que a gente não percebe?”

Não vamos nos enganar, a quê está nos levando a guerra às drogas?

Com a imagem de um produtor de maconha em Denver, no Colorado, Julita discorreu sobre experiências que deram certo. “Denver legalizou a maconha recreacional. Dois estados americanos vão vender maconha para adultos em locais determinados e com orientação adequada. As taxas de criminalidade no Colorado caíram nos três primeiros meses de 2014 em relação a 2013.”

Portugal legalizou o consumo de todas as drogas há 12 anos. Na faixa de 15 a 24 anos, em vez de aumentar o consumo, houve redução ao longo desses anos. A Holanda, que tem política de tolerância ao uso da maconha, é o país que tem menos mortalidade por drogas pesadas e está desativando as unidades prisionais porque tem mais guardas que presos. Efetivamente, a criminalidade caiu, Julita lembra e compara com o Brasil, onde a população prisional por criminalidade triplicou. “O cara da ponta do varejo é o que vai preso porque não tem dinheiro para comprar polícia nem pagar advogado”, afirma.

Há certa – ou muita – hipocrisia no modo como a sociedade enfrenta a questão, segundo a socióloga. “O que tem no intervalo das novelas? Propaganda de cerveja. E o álcool é droga mais lesiva e que, disparado, causa mais danos ao indivíduo e seu entorno. Não vamos nos enganar. O problema não é o uso, mas o abuso das drogas, que sempre existiram e sempre vão existir. No caso da maconha, apenas 9% dos usuários se tornam dependentes”, ela sustenta os dados e levanta a questão:

“A que está nos levando a guerra às drogas? As pessoas se respeitam? Estamos preocupados com redução de danos? A população pobre não tem acesso a tratamento para dependência química. Como lidar com essa população usuária de crack que está nas ruas?”, ela deixa a pergunta.

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