Bate e volta

Na plateia, jovens atuantes em projetos nas periferias do Rio / Foto Paula Giolito

Na plateia, jovens atuantes em projetos nas periferias do Rio / Foto Paula Giolito

A legalização das drogas, bandeira respaldada em experiência e pesquisa de Julita Lemgruber, Christiane Sampaio e Alessandra Oberling, virou polêmica quando chegou à plateia. As perguntas e opiniões que seguiram demonstram que o consenso está longe de ser alcançado. Mas reforçam que o tema está interligado a muitos outros, da educação às manifestações indignadas e violentas nas ruas, da ausência do estado e dependência da igreja no cuidado com os dependentes ao combalido esquema da segurança pública no Rio.

Como seria o controle de outras drogas no Brasil? O Brasil está pronto para legalizar? “Esse país é uma esculhambação generalizada. É mais fácil comprar outras drogas que antibióticos. A possibilidade de regular mercado e fazer campanhas só pode ocorrer com a droga legalizada”, realçou Julita Lemgruber, que usa o exemplo do cigarro para falar da importância do que defende: “Em 15 anos, o Brasil reduziu em mais de 60% o número de fumantes. A gente proibiu? Não. Esse país é esculhambado no que quer ser. O Ministério da Saúde conseguiu implantar política pública decente contra o cigarro. O governo precisa querer, mas só vai querer se nós, sociedade, quisermos. Nós somos os primeiros a ter de exigir”, clamou ela.

Como seria feita a fiscalização do consumo pela população menor de idade? “Existe o mercado ilegal, mas que é regulamentado, só que não pelo governo. As regras existem e são violentas”, alertou Alessandra Oberling.

O que está aí não está funcionando, Julita Lemgruber emendou o coro. “A legislação atual dá brechas para que o juiz, por exemplo, use circunstâncias pessoais e sociais na hora de julgar entre usuário e traficante. O que está aí está dando resultados? O que está por trás da violência é a guerra às drogas.”

Na comparação com outros países, a socióloga lembrou que os EUA, por exemplo, tem apenas 400 mortes por ano provocadas pela polícia. “No Brasil, um quinto das pessoas que morrem em ações letais são mortas pela polícia. Cinco mil pessoas desaparecem por ano. está indo tudo bem? Tudo está esculhambado porque o Brasil tem uma violência letal inaceitável para uma sexta economia do mundo”, exclamou a socióloga.

Alunos da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, na plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Alunos da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, na plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Como a escola deve lidar com o aluno usuário de drogas? Essa guerra tem cunho social? O que classifica uma pessoa como viciada? A clientela do crack não estaria morrendo muito jovem?

“A escola tem de poder problematizar, discutir, educar para a autonomia em vez de educar para a obediência. E não somente em relação às drogas, mas para a vida”, Christiane Sampaio esclareceu que vício e a dependência são subjetivos. “O vício tem relação com o grau que o sujeito estabelece com a droga. toda relação de exclusividade é danosa. O vício ocorre quando o sujeito estabelece vínculo que não dá brechas para outras coisas na vida. É a compulsividade. A morte prematura pelo crack é fantasia. O que mata não é o crack, são as questões de saúde que se agravam pelo laço da exclusividade com a  droga. A violência também mata. Mas o crack, apesar de potente, não mata”, afirmou.

Maconha está sendo tratada como já foram tratados o cigarro e o álcool. Mas a maconha não é cool. Não é importante ter como pauta parar de consumir? O álcool leva a drogas mais pesadas? É possível pensar em descriminalização de todas as drogas? Se liberar, como a maconha vai circular na indústria? Novamente a plateia se manifestando. As muitas vozes da plateia se manifestaram. Houve defesa do papel das instituições religiosas no acolhimento aos usuários de drogas, queixas contra a falta de referência no atendimento proposto pelo estado.

“O atendimento em instituições como a Cristolândia existe, mas não é humano. Não posso ficar feliz porque a porta está aberta. A ação religiosa não pode substituir a ação do estado. Há uma estratégia política de esvaziamento. O estado não tem de se vincular a ações de higienização. A liberdade é terapêutica. A ausência dela é algo muito sério”, realçou Christiane Sampaio.

Por sua vez, Alessandra Oberling lembrou que há interesse político por trás das comunidades terapêuticas. “Algumas fazem trabalho sério, outras são puro interesse monetário. Há um projeto de lei no Congresso que propõe uma política nacional de intervenção maciça. Não é porque o estado não faz que vamos aceitar práticas indevidas”, completou. A legalização, segundo ela, vai abrir uma porta.”Não é uma panacéia. Vai permitir que não se veja o usuário como criminoso. Não é a polícia que vai cuidar, mas o agente de saúde.”

E o policiamento comunitário que não funciona? E as UPPs, que vieram importadas da Colômbia? As interrogações seguiram manhã adentro. Julita Lemgruber tratou de esmiuçar o que considera relevante para o debate sobre a necessária revisão da política de drogas no Brasil.

“O policiamento comunitário foi tentado desde o governo Brizola. Por várias razões, as tentativas não tiveram continuidade. A UPP não foi importada, mas dá segmento a outras políticas que não foram continuadas. Demos com os burros n’água por razões que talvez também levem as UPPs a dar com os burros n’água. Foi anunciada a ouvidoria das UPPs no dia em que o DG foi morto. Somente agora? Fui ouvidora da polícia e sei a importância que isso tem. Entrou a polícia, mas não entraram outros serviços, os policiais não são capacitados. Essas UPPs não funcionam porque não são levadas a sério. Não basta encher a favela de polícia. Policiamento comunitário tem de ter cuidado que não é só invadir territórios. Se desde 2008 tivessem sido criadas ouvidorias, haveria interlocução com a comunidade”, avaliou.

O que pode ser pensado junto a uma política inovadora para preparar a sociedade e as famílias? Perguntou Ilana Strozenberg, diante do visível susto e da resistência dos jovens.

“O problema é a existência de uma rede de baixa cobertura para cuidado em álcool e droga. Tem a ver com desinvestimento. As unidades de saúde são colchas de retalhos com pouco poder de barganha. Tem de se investir em moradia, em lazer, em espaço de tratamento e dispositivos de cuidado. Há regiões com verdadeiros vazios de inserção. São Paulo tem uma experiência que tenta algo novo, o programa Braços Abertos, que oferta oportunidade de ocupação e emprego. Tem gente para quem se você dá o espaço, a droga esvazia, perde sentido”, avaliou ela, lembrando também que atenção básica tem sido o grande foco das ações de saúde. “Há uma aposta na ação próxima do território do sujeito. Não sei se essa atenção básica dá conta, mas esse é o foco”, disse.

Julita Lemgruber foi taxativa: “Todos vocês estão resistentes a discutir. Lamento profundamente que não queiram discutir. Estão repetindo mantras que a mídia alardeia todo dia. O nível de desinformação é grande, assim como a recusa em aceitar os resultados palpáveis que alguns países estão alcançando. O Brasil é um país de mentirinha. Há uma meia dúzia de pessoas que estão lucrando com a droga que não é legalizada. Mas não é essa minoria que vai para a cadeia. Vou dedicar os últimos anos da minha vida profissional a tentar estimular o debate na minha cidade, no meu país. Gostaria que vocês saíssem daqui dispostos a pesquisar mais. Tentem abrir suas mentes e seus corações e tentem ver um pouco mais do que estão vendo hoje. Nós estamos vivendo numa sociedade minimamente segura e respeitosa dos direitos das pessoas?”, encerrou.

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Uma resposta em “Bate e volta

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