Rio de erros e melancolia

Luiz Eduardo Soares e a plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Luiz Eduardo Soares e a plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Desde que foram instaladas as UPPs, em 2008, o Rio vive seu momento mais delicado. Olhando mais para trás, o grande dilema, sustenta Luiz Eduardo Soares, é o fato de que o  estado rodopia em torno do seu próprio eixo ao lidar com dificuldades como desigualdades, racismo, violência, brutalidade nas ações policiais, obstáculos à participação.

“Continuamos a viver os problemas que são os nossos há tantos e tantos anos. Há uma espécie de inércia nesses desafios mais fundos, e temos dificuldade de vencer essa inércia”, afirmou ele.

Ainda que resignificados por contextos diversos, a persistência desses dilemas impõe-se como desafio e aponta para limitações dissimuladas. “A persistência continuada significa que a sociedade fluminense não foi capaz de lidar adequadamente com eles. Não estamos nas mesmas posições, não estamos estáticos, é claro, mas, fundamentalmente, as questões se recolocam e nos interpelam.”

Trocando em miúdos, o Rio de Janeiro faz mais do mesmo, quando o mesmo prova ser insuficiente. “Já que estamos condenados aos erros, que pelo menos erremos erros novos. Errar erros novos é uma contribuição extraordinária para a experimentação coletiva. Errar os erros conhecidos é melancólico”, diz ele, inspirado em John Stuart Mill.

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O escritor e antropólogo Luiz Eeduardo Soares e a mediadora do evento, jornalista Anabela Paiva / Foto Paula Giolito

O escritor e antropólogo Luiz Eeduardo Soares e a mediadora do evento, jornalista Anabela Paiva / Foto Paula Giolito

Estado bruto

A experiência democrática provocou avanços nas políticas públicas, garantiu o diálogo. Ainda assim, segundo Luiz Eduardo, atolamos no pântano.

“Esse auditório seria impensável há algumas décadas. O Brasil mudou profundamente nos últimos 20 anos. Há revoluções nas políticas afirmativas que são comoventes e extraordinariamente gratificantes. As paisagens cultural e social se renovaram, as políticas culturais dos últimos anos foram muito importantes para o Brasil inteiro. Falamos muito dos governos do Fernando Henrique com a estabilização da moeda, do Lula com a redução das desigualdades, mas, muitas vezes, negligenciamos a contribuição na área da cultura.”

As mudanças não foram suficientes, no entanto, para mitigar o que Luiz Eduardo  Soares destaca como intolerável moral, politica, ética e humanamente inaceitável:

“Nós lutamos contra a ditadura, resistimos durante tantos anos à brutalidade do estado justamente para construir uma cidade democrática e alterar a forma como as coisas funcionam. E o estado, no Rio de Janeiro, continua matando, patrocinando verdadeiros genocídios. Uso essa expressão há muitos e muitos anos, talvez impropriamente, mas para qualificar a brutalidade previsível e padronizada da violência do estado. ”

A brutalidade previsível e padronizada tem alvo certo. As vítimas são negros e pobres, moradores de favelas e de periferias. “Nós não podemos conviver com isso. Durante a ditadura, nós, da minha geração cultural e social, compartilhávamos a repugnância, a angústia e a necessidade de promover mudanças. E, durante a democracia, esse processo de brutalidade perpetrado pelo estado se naturalizou.”

Não foi por falta de eloquência e quantificação. As ações policiais provocaram 9.646 mortes no Estado do Rio de Janeiro entre 2003 a 2012.

“Ao longo de todos esses anos, eu repetia os números, ano a ano, fazia a divulgação dos números daqueles que são mortos pela atividade policial nas favelas. E dizia ‘nós precisamos bater as panelas, buzinar, despertar a cidade, contribuir para que a insônia contagie toda a comunidade’, porque é impossível continuar convivendo com esses números, com esses processos que se padronizam e se reproduzem”, sentenciou.

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