Pingue pongue

Luiz Eduardo Soares não deixou pergunta sem resposta. Uma a uma, o antropólogo fez questão de opinar sobre cada intervenção da plateia. A sequência foi disputada. Confira abaixo o resultado da conversa entre palestrante e plateia.

A jornalista Julia Michaels, autora do Rio Real Blog / Foto Paula Giolito

A jornalista Julia Michaels, autora do Rio Real Blog / Foto Paula Giolito

Julia Michaels, autora do Rio Real Blog – É intuitivo concluir que a violência nas ruas vem de atos praticados anteriormente. Como ter certeza de que não é uma resposta geral à violência praticada no Brasil, como sair da conclusão que muitos têm de que são violências pontuais? 

Sobre a atribuição da violência, não, não temos base. Há sempre uma multiplicidade de situações , circunstâncias e atores com motivações das mais diversas. Então, sendo mais cauteloso, me parece que, havendo bases para uma investigação empírica, aqueles que se comportam dessa forma foram vítimas. É uma hipótese que pode ser avaliada no conjunto. Nós não temos pesquisa suficiente. De toda maneira, quem já sofreu aversão pelo estado numa favela sabe quão traumático isso é. Nos EUA, se diz o suspeito até que haja definição da culpa. No Brasil, as descrições se precipitam na identificação. Não temos apenas o fato, mas a forma como é tratado o fato. Isso aprofunda esse abismo. Portanto, você tem razão, não é possível provar. Todas as situações têm de ser examinadas com cautela.

William Oliveira, da Rocinha  É fácil ocupar, mas quem fica continua armado. Tem 500 fuzis na Rocinha. O que fazer para dialogar com a cidade?

O controle de armas é uma questão chave que continua passando ao largo, entra ano, sai ano. Não pode circular arma ilegal. Quem leva para a favela a arma? É fácil controlar, se houver um míimo de rigor. Mas quantos policiais se dedicam às armas? Estamos num momento propício para que o diálogo verdadeiro aconteça.

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Karen Kristen, monitora do Rio de Encontros  Nomear o crime é importante. Mas e nomear a vítima? Cláudia Ferreira e Amarildo foram exceções. É sempre a favelada, o pedreiro, mas não se diz quem é. Dar nome à vítima e a quem cometeu o crime também é importante.

Quando a vítima tem nome, endereço, biografia, ela nos emociona, provoca empatia. Stálin disse que a morte de um milhão de pessoas é acidente demográfico. Alguém morrer com nome e rosto merece respeito. Por isso Amarildo e Cláudia foram tão importantes. É preciso dar-lhes vida, rosto, biografia. Números acrescentam conhecimento, mas não sensibilizam. Eu passei do relatório para a construção do personagem, uma comunicação mediada pela emoção. Os números são eloquentes mas são genéricos.

Nathália Rodrigues, aluna da ESPM, e integrante da turma 2014 do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Nathália Rodrigues, aluna da ESPM, e integrante da turma 2014 do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Nathália Rodrigues, aluna de jornalismo da ESPM  Não é uma pergunta, mas fiz um link com a questão das mutilações que fazemos conosco. Sou moradora de favela, sou preta, pobre, e ainda sou cega. Assumi que tenho um problema. Fica muito mais fácil enfrentar. Era isso.

Natália, muito importante escolher não ser vítima. Há momentos de escolha. Há muitos discursos que se adequam às nossas histórias. A vítima não tem força, não tem potencial criador. O Brasil se rebelou porque melhorou muito. Alguém que é indigente, miserável, e se vê como incapaz, não pode ter ação transformadora alguma. É esvaziado de potência humana. Por isso foi tao importante o processo de redução de desigualdade, a chegada à universidade. Falamos tanto de cidadania, desde 1988. Se dizem que somos cidadãos, então vamos lá, vou agir como cidadão.

Guilherme, produtor cutural na Maré – O que as manifestações de junho trouxeram de vitória concreta? Só os garis, no Carnaval. Até onde esse protagonismo é tão forte?

Essa é uma questão muito pertinente. Mas o que se extrai dali? Acho que é uma pergunta equivocada. A forma como nos perguntamos sobre os efeitos nos condena a não identificar erros facilmente identificáveis. Temos resultados extraordinários, novas possibilidades de estar juntos, a formação de coletivos, a criação de alternativas, a reflexão crítica. Ganhos para além de ganhos materiais. Não deveríamos simplesmente perguntar a um processo histórico, mas o que sabemos dele.

Luis Gustavo, Parceiros do RJ – A polícia que pacifica, mata. Como dialogar?

O vocabulário, a linguagem e as práticas vão se sobrepondo.  Paz e proximidade ou guerra e abalroamento? Não estão claras as palavras e os significados. Todas são justificáveis. Não há nenhuma clareza para identificarmos quais são as linhas do projeto. É complicado atribuir à policia outras qualidades sem que ela se transforme de fato.

 André Luiz Dametto – Como dialogar com o cínico?

Por definição, somos cínicos. Nós somos cínicos em algum momento. Mas as pessoas mudam.  Os cínicos não serão cínicos todo o tempo, não é possível. O  problema é o cínico fashion. Aí é terrível, porque você educa as pessoas para o cinismo. O eles casa com o cínico. Nenhum de nós é nem dialógico nem cínico todo tempo.

Anabela Paiva – Quem seriam eles no caso reverso, das forças de segurança? Quem é o eles para o policial?

Sem dúvida, é precisso pensar. O (site) “depois de junho” traz entrevistas na contramão da velocidade da internet. Permite que as ideiais fluam, é valorização da conversa. Numa entrevista, o coronel Ibis fala sobre isso, e pensamos num encontro de Black blocs e policiais, todos desarmados. Temos certeza de que eles descobririam que são irmãos. Black blocs e policiais são provenientes das mesmas áreas sociais, não faz sentido  o enfrentamento.

Igor Souza Soares, do JOCUM Brasil e integrante da turma Rio de Encontros desde 2013 / Foto Paula Giolito

Igor Souza Soares, do JOCUM Brasil e integrante da turma Rio de Encontros desde 2013 / Foto Paula Giolito

Igor de Souza Soares, do JOCUM Brasil  Foi preciso implantar a UPP para que a cidade continuasse a sua vida?

As decisões políticas têm esse tipo de motivação. Mas isso não esgota toda a realidade, porque é demanda das comunidades algum tipo de cuidado, ação, intervenção, para que esse abandono não se perpetue. O estado não reage apenas às pressões da classe média. O estado depende também do voto das periferias. Há uma politica complexa que não é só bandido e mocinho. O clientelismo envolve todos os lados. Mas aqueles que são mais pobres, quando lhes aparece uma oportunidade, é legítimo compreender que eles se apropriam dela. A bica d’água merece todo nosso respeito porque faz diferença para as condições de vida imediatas. Feitas as ressalvas, volto ao clientelismo, o fisiologismo e as cooptações. Todos somos cúmplices do processo que tem degradado a representação e bloqueado a participação.

Igor de Souza Soares, do JOCUM Brasil  E a PEC 51?

É uma proposta que define que não é possível promover nenhuma mudança sem alterar a constituição. As limitações são muito fortes. Entre as propostas está a desmilitarização da polícia. Independentemente de ideologias, há uma estrutura que atribui o papel de gestor local da segurança pública ao policial que está na ponta. O policial bem treinado promove, ao lado dos agentes, a intervenção preventiva. Essa pessoa tem de ser respeitada e exercer práticas que suscitem respeito. O orgulho que advém do respeito alheio dá amor próprio que você não troca. Essa pessoa precisa d eum celular mais do que de uma arma. e de conhecimento que não é militar nem de direito, mas de experiências. A estrutura militar não atribui autonomia , eles estão lá para cumprir ordens. A PM é estrutura que deve se organizar à semelhança do Exército. Faz sentido para o Exército, mas não para Polícia. Os confrontos são menos de 1% das atividades policiais no Brasil. Nós negligenciamos a questão policial como se ela estivesse resolvida ou fosse irrelevante.

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