Alvíssaras

A plateia e o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares  / Foto Paula Giolito

A plateia e o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares / Foto Paula Giolito

Marisa Vassimon, do Canal Futura – Se as manchetes dos jornais dissessem que o exército vai ocupar a Lagoa, o Jardim Botânico, o que aconteceria? Quem precisa entrar na conversa para efetivar de fato a pacificação? A Maré, por exemplo, tem incontáveis atores que buscam o processo de pacificação, mas não são ouvidos. Quem tem de entrar junto com a polícia e o exército?

Desde “Tropa de elite” o grande debate passou a ser polícia. A agenda incorporou esse elemento. Agora (2010, invasão do Complexo do Alemão), volta a ser polícia contra bandido. Esse é o recurso mais simples da política: quando a situação é delicada e você precisa de coesão,  você inventa uma guerra, inventa o inimigo. A dimensão política é prioritária, quem conhece os personagens sabe disso. Não pensem que qualquer outra consideração se impôs à política. Não há outra hipótese. De novo, vamos tentar o feito espetacular do Alemão  (com a ocupação do Complexo da Maré). A mídia a postos. Para quem está melancolicamente em ruínas do ponto de vista político, essa é a boia de salvação. Essa é a primeira questão. É pra pensar um pouco mais. Depois vamos pensar a problemática das favelas. Sobre a Maré, sabemos que nenhuma comunidade esteve tão preparada para dialogar com as instituições policiais e com o governo como a Maré. E tudo isso deu em quê? Ao invés de o governo entender isso como um qualificador, temos uma comunidade organizada, não, tá muito complicado, e o governo diz vamos fazer como nós sabemos fazer. De que manneira se pode fazer isso? Trazendo um novo ator.

Vanessa, jornalista da Rede Globo –  Por que tem ganhado tanto espaço a figura do justiceiro? Por que o pensamento reacionário, o clamor público por repressão e justiça com as próprias mãos?

Proponho uma relação, que é uma hipótese interpretativa: acho que os linchamentos que emergiram por aí são respostas globais da sociedade brasileira conservadora aos rolezinhos. O que caracterizou o processo brasileiro nos últimos anos? Os pobres avançando, chegando aos aeroportos, os negros à universidades, ao consumo, ao shopping. Cada um está em seu lugar em nossa sociedade e o racismo assim se reproduz. O nosso racismo é distinto do racismo dos EUA, mas é brutal. Os rolezinhos são diversos, são múltiplos, são provocadores, basicamente representam, no imaginario coletivo, a migração sociológica, uma desestabilização, um desarranjo que provoca medo no velho racismo brasileiro. Paulo, era esse o nome do rapaz que foi acorrentado, foi amarrado pelo pescoço ao poste. O corpo exposto como posta de carne e desprovido de vestes, ele está entregue à sua corporeidade, desnudo. Uma performance brutal com uma instalação com o ser humano. Estamos num momento de grandes tensões, que não estão elaboradas.

André, estudante da ESPM – Existe uma ditadura disfarçada no Rio, é isso?

Nós que vivemos a ditadura sabemos que não. Ditadura não é um adjeivo. Tem um significado muito preciso, não é compatível com o estado democrático de direito. Identificamos no Brasil democrático práticas brutais que continuam a ser tão bárbaras quanto aquelas praticadas pelo estado na ditadura.

Mayra Jucá, jornalista – De onde você tira elementos para uma visão otimista desse diálogo no plano institucional?

Precisamos de instituições intermediárias, instituições políticas, além de renovação do associativismo. Essa criação fecunda e inspiradora de coletivos, em certo sentido, se dá no vácuo do  PT, que perdeu as ruas e se divorciou dos movimentos sociais, do colapso dos partidos tradicionais, e do descrédito do associativismo. Temos como alternativa a emergência de novos exercícios de sociabilidade e de organização coletiva. Nós precisamos de mediações políticas, também. É como se a democracia representativa estivesse trocando a pele. Precisamos de imaginação institucional para renovar. Esse diálogo vai requerer, para além da utopia coletiva, um redesenho das instituições. E eu vejo essa renovação em curso com otimismo.

Manoel Ribeiro, urbanista – O tráfico tem superestrutura. Tem plano de cargos e salários, bolsa viúva, e tem dois departamentos: departamento comercial e o departamento de segurança. Agora, entre a UPP e o tráfico, a população não sabe a quem recorrer. Fica a desordem, a sociedade, com medo, reage com linchamento. O que fazer com os desempregados do tráfico?

Eu dizia lá atrás, quando a primeira UPP foi criada no Dona Marta, que o tráfico já era. Como assim? Eu falava sociologicamente: A UPP vai ajudar o tráfico a se modernizar, vai impulsionar um processo imperativo da racionalização econômica. Esse modelo do dominio territorial é ultrapassado, regressivo economicamente. Imagina o custo. Para vender droga, e ter lucro, você precisa dominar territórios, enfrentar o confronto com os grupos rivais, montar um pequeno exército, treinar para a luta, convencer seus membros de que vale a pena perder a vida aos 25 anos, investir em arma, manter a polícia no bolso. Não existe tráfico sem associação com a polícia. Economicamente, esse modelo não faz sentido. É desnecessário e irracional. Você pode fazer como qualquer cidade desenvolvida no mundo, ter um modelo varejista nômade, não o territorializado. Agora, esses atores não estão preparados para isso. Exige mais qualificação tecnológica, precisa de inteligência, não da força. Se você tivesse uma abordagem holística, não haveria invasão miltar, mas segurança como elemento.

Claudius Ceccon, arquiteto – Falta utopia, sonho coletivo. Como vamos construir uma utopia pela mudança?

Eu fico dividido e me pergunto se nós não estaríamos sendo nostálgicos de um mundo que não pode voltar a existir. Utopia exige um desenho de mundo ideal. Eu não sei se vamos ter de adotar ou inventar, para podermos, ao invés de um kit ideal, uma mochila que nos acompanhe num horizonte de tempo tangível. utopias coletivas também são um problema, há preços a pagar. Não sou cético pelo fato de não termos utopias coletivas, desde que tenhamos referências, valores de fundo, justiça, igualdade de liberdade.

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