Violência, exclusão, jeitinho e poesia

Letícia Freitas, do Observatório de / Foto: Marco Sobral

Letícia Freitas, do Observatório de / Foto: Marco Sobral

A formação da polícia, a violência nas favelas, a discriminação contra os negros e pobres continuaram em pauta, o preparo policial no momento da apuração dos autos de resistência, como são tratadas as mortes provocadas por policiais. Entre relatos e perguntas da plateia, o Rio de Encontros seguiu com a intensidade que o tema provoca.

A professora Paula Poncioni, da UERJ, chamou a atenção para a participação da sociedade civil no processo de formação do profissional e da própria polícia. “É uma questão que não entra na agenda pública. A sociedade civil, quando participa, é com pouca possibilidade de mudança. A polícia é impermeável mas também a sociedade é impermeável a essa discussão. Vocês não são cruzadores morais. Quando os 50 mil mortos passarem a ser um problema aí conseguiremos discutir. Segurança pública não é polícia. É a gente, também”, ressaltou.

Thainã de Medeiros, da Agência de Redes para a Juventude, quis saber se a violência não seria inerente a quem expressa o desejo de entrar para iuma corporação. E contou o que ele próprio já experimentou como morador de favela. “As pessoas que conheço, quando entraram, já gostavam de um outro tipo de música, faziam apologia à violência. Isso não estaria neles? Dia desses, passando pela Vila Cruzeiro, fui parado, nunca vi tanto fuzil na minha vida. Um jovem negro tem quatro vezes mais chance de morrer. Basta nascer e ser negro. No mesmo dia em que fui abordado por policiais eu voltava de um enterro de um irmão de um amigo. Ele entrou para o tráfico aos 16 anos e nunca foi preso. Ele não era negro”, pontuou ele, seguido de uma incisiva pergunta de Letícia Freitas, do Observatório de Favelas: “Por que matam-se mais negros que brancos? Isso não é um genocídio?”

Claudius Ceccon, do Criou o  Centro de Criação de Imagem Popular – CECIP / Foto: Marco Sobral

Claudius Ceccon, do Criou o Centro de Criação de Imagem Popular – CECIP / Foto: Marco Sobral

O arquiteto Claudius Ceccon, assumidamente impressionado com o que ouvira, retomou as perguntas iniciais sobre o direito à cidade e a extrema violência. “A cidade está sendo apropriada por forças debaixo dos nossos narizes sem que a gente consiga evitar os assaltos. O que estamos vendo faz parecer que somos completamente impotentes. Como ir mais fundo e mudar o sistema que consegue eleger os vereadores que são ligados a milícia? Como combater a corrupção das empreiteiras?”, questionou.

A engenharia da cidade e a forma que lhe é dada são um problema, retomou Ibis. “Tem se proliferado um certo tipo de arquitetura fascista que tem o propósito de afastar as populações de miseráveis de determinadas áreas. É uma engenharia que está ganhando a cidade e aponta para uma insensibilidade sobre as dores do outro, que talvez explique as invisibilidades de que Euclides da Cunha falava em Canudos. A gente precisa de uma educação sentimental. Isso é um trabalho para todos nós. A engenharia se multiplica diante dos nossos olhos e não nos incomoda, não nos estremece. Como a gente lida com tanta facilidade com isso é preocupante”, disse.

Ilana Srozenberg lembrou que, além da cultura do medo, há o Brasil também padece da cultura do “jeitinho”. “Como se dá essa coisa de forjar flagrante?. Isso não deve ser parte de uma formação, mas parece fazer parte de uma cultura. Nas favelas ou fora delas isso parece uma prática”, ressaltou.

Ibis Silva Pereira e Orlando Zaccone D’Elia Filho / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira e Orlando Zaccone D’Elia Filho / Foto: Marco Sobral

“Talvez isso tenha a ver com o jeitinho, que também tem a ver com o fazimento da nossa identidade. O Darcy (Ribeiro) já dizia sobre as ninguendades que resultaram em nós. Tem algo aí de ‘como eu me faço sozinho, como eu não tenho nada a ver com os outros’. Quando você parte desses atomismos, que tipo de cidade a gente engendra?”, Ibis devolveu uma questão como resposta.

E foi exatamente por esse ângulo, ou seja, na aposta em mais humanidade, que o comandante decidiu agir na academia. “O último poeta que levei foi o Ivan Junqueira. A beleza pode tocar recantos da alma que o discurso racional não é capaz de tocar. Tentei criar um ambiente em que a poesia pudesse atravessar a alma das pessoas.”

A antropóloga Sthefanie Savell pediu então que o comandante desse um exemplo emblemático do de como o medo influenciou o comportamento de uma pessoa. “Dei aula durante muitos anos em um pré-vestibular para negros e pobres. Tinha uma aluna que ia sempre com a mãe. Num dia, aniversário de Shakespeare, eu li uma passagem do Othelo, quando ele explica por que Desdêmona se apaixona por alguém tão fora dos padrões. Eu li isso para a turma e, essa senhora, que nunca tinha ouvido Shakespeare, chorou. Eu acredito na poesia. A gente precisa disso no país como um todo para dar conta desse nosso humanismo que talvez se precise reconstruir”, contou.

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