Perguntas e respostas, a plateia com a fala

Igor de Sousa Soares, da Agência de Redes para a Juventude / Foto: Marco Sobral

Igor de Sousa Soares, da Agência de Redes para a Juventude / Foto: Marco Sobral

Aberta a primeira rodada de perguntas da plateia, Igor de Sousa Soares, da Agência de Redes para a Juventude, mirou em muitas direções:

“A polícia sempre esteve sucateada, tanto psicológica como estruturalmente. A ação deles dentro da favela remete à formação que eles tiveram. Na favela, ou você mata ou você morre, o ideal é que você mate. Quem mora na favela sabe muito bem como funciona e como atua a polícia lá dentro. As ações são diferentes na favela e no asfalto, não vejo certas atitudes truculentas vindas de policiais em Ipanema. Que instituição de segurança é essa? A UPP é apenas mais uma estrutura dentro da favela que não viabiliza nada, não contribui para que as políticas públicas cheguem. O governo do estado comprou 750 fuzis para policiais. Para onde vão esses fuzis? Para as favelas. A UPP trouxe alguns avanços, mas muitos retrocessos. Os policiais do BOPE entram na favela, para atirar. Que formação e polícia é essa?”

Orlando Zaconne foi enfático ao responder. É preciso olhar criticamente para o link estabelecido entre vulnerabilidade e criminalidade, ou seja, para a ideia construída de que áreas pobres são propensas ao crime:

Orlando Zaccone D’Elia Filho é secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) / Foto: Marco Sobral

Orlando Zaccone D’Elia Filho é secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) / Foto: Marco Sobral

“Não posso concordar que a polícia vai ser canal de viabilizar política pública em lugar algum do mundo. Não podemos ter o fetiche de que a polícia vai ser porta de entrada para política pública na favela. É preciso um olhar menos segregador. A vulnerabilidade é padrão internacional, a militarização é transnacional. O exército brasileiro, em missão humanitária no Haiti, está, na verdade, treinando militares para atuar em regiões pobres. Não está no Haiti em missão voluntária. O (urbanista) Mike Davis observou que metade da população brasileira vive em guetos. A única forma de se fazer controle dessa população perigosa é através da ocupação militar. O avião que joga as bombas é o mesmo que leva os remédios. A UPP entra e a prefeitura vai depois? Já entrou lá no Borel? Não. O comandante militar passa a ser o prefeito do território”, disse o delegado.

A jornalista Cláudia Antunes retomou a relação entre a operação Paz Armada e o caso Amarildo, apontado por suposto envolvimento com o tráfico. “O que não justifica que ele fosse torturado e morto. Ou o cara é sempre o coitadinho, ou um bandidaço que merece morrer, faltam nuances. A pessoa deve ser simplesmente punida pelo eventual crime que ela cometeu”, ponderou.

A explicação para o caso Amarildo estava pronta. “Quanto mais se vinculasse o Amarildo ao tráfico, mais suspeita ficava a polícia. Mas, em algum momento, se ele fosse identificado como traficante, sua morte passaria a não ter importância. O traficante, no ambiente policial, é chamado ganso. O Amarildo é um marco da necessidade de desqualificação da vítima. Não ser cidadão legitima qualquer ação”, disse Zaccone. A operação Paz Armada, por sua vez, tinha de ser desvinculada do desaparecimento do ajudante de pedreiro. “A operação estava dentro da legalidade, mas não tinha mandado de busca e apreensão. A condução do Amarildo não tinha relação nenhuma com a operação, isso foi uma construção. Foi uma operação dentro do marco da legalidade, com 25 mandados de prisão, sem um tiro. No outro dia, a condução irregular do Amarildo ocorreu sem que houvesse nenhuma participação da polícia civil. A imprensa falou muito da vinculação com a Paz Armada, mas foi decisão exclusiva da UPP”, garantiu o delegado.

Zeca Borges: "Por que a polícia mata?" / Foto:  Marco Sobral

Zeca Borges, coordenador do Disque Denúncia: “Por que a polícia mata?” / Foto: Marco Sobral

Afinal, por que a polícia mata? “50 mil mortos são o que se conseguiu matar? Se mais pudéssemos, mais seriam mortos?” indagou Zeca Borges, coordenador do Disque Denúncia.

No ambiente social, a polícia tem autorização para matar, declarou Zaconne. “Nas favelas, o que as famílias fazem para provar que seus filhos foram executados? Elas têm de provar que eles não eram traficantes. O ambiente social constrói a figura do inimigo matável. Traficante tem direito e precisa ter defesa. Mas quem vai levantar para dizer isso? O papa Francisco diz que traficantes de drogas são mercadores da morte. Mas não diz isso do presidente da AMBEV”, provocou.

Zeca Borges, na direção do comandante Íbis, prolongou a dúvida: o cinismo policial que enfrentamos seria uma defesa? “No Chile, qualquer disque-denúncia funciona. A polícia civil tem 89% de prestígio lá. A desmilitarização é um problema. Mas é com esse sistema judiciário, com esses políticos e governantes e com essas polícias, é com isso aí que temos de dar um jeito de levar esse país”, adiantou.

Anabela Paiva: "A formação estimula a atitude violenta?" / Foto: Marco Sobral

Anabela Paiva: “A formação estimula a atitude violenta?” / Foto: Marco Sobral

A jornalista Anabela Paiva pediu a Ibis que discorresse sobre o medo e a preparação para a morte na formação do policial. “A formação estimula a atitude violenta? Não é condição necessária para que não se perca a cabeça e fique mais violento ainda? Como foi a experiência de dirigir a academia na prática? Como foi esse momento?”

A resposta vem da filosofia, já devidamente incorporada aos cursos de formação dos policiais militares. Platão problematiza os afetos na formação do guardião da cidade, anunciou o comandante, ao retomar a palavra.

“Segundo Platão, o encarregado pela nossa segurança deveria ter doçura e violência. É um cão. Nós usamos a música e a filosofia como elementos que deveriam ser incorporados a essa formação exatamente para que o policial dê conta dos afetos”, explicou.

A preocupação tem razão de ser. “A violência é altamente sedutora. Destruir exerce fascínio e propicia o gozo. Durante todo o século XIX convivemos com uma constituição liberal, mas que admitia a escravidão. Em nenhum lugar dela a palavra escravidão aparece. Sobre essa base nós construímos a nossa república. Eu me dei conta, quando assumi o comando da corporação, que não se pode formar o policial fazendo com que ele goste da força. Ele tem de usar a força sem se apaixonar por ela. Ele deve aprender a usar o fuzil, mas o seu olho não pode brilhar quando ele está com esse fuzil”, Ibis prosseguiu.

Ibis Silva Pereira atuou como subdiretor de ensino da PM e comandante da Academia de Polícia Militar D. João VI / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira atuou como subdiretor de ensino da PM e comandante da Academia de Polícia Militar D. João VI / Foto: Marco Sobral

Se a violência corrompe a alma de quem a usa, a escravatura tem sua participação  na formação da sociedade brasileira como é, hoje. “O que a escravidão fez com as nossas almas? Não tenho dúvidas de que ela nos corrompeu”, afirmou o coronel, relembrando um episódio emblemático: a tomada do Complexo do Alemão pela UPP.

“Os traficantes que fugiam também foram alvejados pelos helicópteros. Foi execução transmitida ao vivo e em cores para 200 milhões de pessoas. Nós assistimos a isso domingo, sentados nos sofás das nossas salas. Reconheço o embrutecimento na maneira como lidamos com o afeto triste. Spinoza diz que só o afeto alegre pode vencer o afeto triste. E é difícil trabalhar com afetos alegres num ambiente militar. Platão diz que temos de preparar o jovem para que ele não tenha medo de atuar quando sua vida estiver em perigo. É preciso trabalhar em nossas escolas de formação com os afetos alegres. Eu incorporei as famílias ao processo, para que a formação não despersonalizasse esses jovens. A formação não pode afastar os jovens das suas paixões alegres, dos seus amores. Eles não podem ser desconectados dos seus laços de afeto. Estabelecendo um ambiente mais humano, fraterno e amoroso, a gente pode impedir a brutalização que esse processo social permite. O medo engendra ódio”, afirmou.

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