Diz aí qual é

Ana Enne: Não posso fingir que a pluralidade é a mais bonita que já vi na história  / Foto: Marcelo de Jesus

Ana Enne: Não posso fingir que a pluralidade é a mais bonita que já vi na história / Foto: Marcelo de Jesus

Ana Enne com a palavra. Entusiasta, sim, mas a situação atual aponta para caminhos esquisitos: “Eu tenho uma formação ambígua, que dá problema cognitivo (risos). Sou uma pessoa que trabalha com sociologia, mas não dá para pensar que o mundo está melhor em termos sociais e políticos. Onde meus alunos vão trabalhar? A crise não é conjuntural, é estrutural. A desigualdade está num nível inédito na história. Há muito emprego, mas para quem ganha até mil reais. A ansiedade é uma grande questão. No capitalismo, ela é capital e sintoma. Hoje, quem não serve, danou-se”, Ana Enne avançou.

A ansiedade é um sintoma que adoece, Ana enfatizou. “Harry Potter, Percy Jakson e Jogos Vorazes são todos sombrios. Eu tenho alunos que dizem que vão se suicidar. Não posso fingir que a pluralidade é a mais bonita que já vi na história. A política sempre foi cultural porque ela é produção de sentido. Sou entusiasta, mas a situação aponta para caminhos muito esquisitos. Há esvaziamento de uma forma de luta política. Se o eixo de classe nos atravessa, não vamos mais falar disso? Não vamos mais falar de ideologia, com a ideologia nos cortando o tempo todo? Vamos jogar fora todo dicionário Marxista fora?”, ela questionou.

Mas quando a instituição ‘fecha sentido’? “A instituição ‘fecha sentido’ no sentido de (Pierre) Bordieu, de criar uma lógica identitária que separe você do outro. Há um certo momento em que o mosaico se institucionaliza e passa a ser entendido como O Afroreggae, a Cufa, o Cineclube. Mesmo que não tenha sede ou CNPJ, há um rito de separação.”

“Gostei do lugar do cara que fecha sentidos. Eu ocupei esse lugar”, Júnior Perim retomou a fala e adiantou respostas:

“Existe criminalização sobretudo no campo das artes, que traz muita dificuldade para quem vem de classe popular. A cena artística e cultural sempre foi dominada pelas camadas médias. E essa é uma luta que a gente não realizou. A precariedade de até mil reais, no campo da cultura, é gigantesca até mesmo para gente que já dominava a cena. E sou brizolista roxo. Acho que Getúlio inventou a República, que CLT é uma conquista importantíssima. Mexer nela é como mexer no Código Florestal. Por isso fundei o Re-Cultura. Como a gente constrói uma alternativa de relação com o estado? O estado pode contratar empreiteira, mas está proibido de fazer relações com ONGs que operam no campo do esporte e da cultura. Quem mais do que a sociedade civil para saber o que é preciso? No final dos anos 1980, o projeto dos CIEPS foi criminalizado pelas elites e pelas camadas médias. Chico Alençar disse que CIEP era legal mas era muito caro. A história está lá atrás, também. Eu moro na aldeia e conheço os caboclos todos”, ele garantiu.

Experiências bem-sucedidas não faltam, segundo ele. Falta potencializar as ações. “A Agencia de Redes para a Juventude, por exemplo, é um dos projetos mais incríveis já inventados no Rio de Janeiro nos últimos tempos. Vocês têm de se preparar para potencializar essa experiência para o país inteiro. Que a máquina pública seja discutida, para que o Norte Comum seja patrocinado. Não há nenhum setor que evoluiu sem a mão do estado. Que modelo de desenvolvimento a gente vai perseguir? Celso furtado falava disso 35 anos atrás. O modismo da economia criativa parece, mas não é novidade. Essa é a disputa da molecada. Tem de mudar tudo. As pessoas dão porrada no (José) Júnior, do Afroreggae, e o que me preocupa não é quando a elite bate, mas é quando outros sujeitos estão, dez anos depois, construindo a mesma coisa que nós fizemos. Não dá para considerar que o Celso Athayde, que morou na rua, é um escroto. Não dá para dizer que o Jailson (de Souza e Silva) é mediador de interesses econômicos da favela. O país deve ao Jailson a produção de capital intelectual sobre favela. Nova galera, quer construir uma nova terra?”, diz aí qual é, ele provocou.

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