Cidade sangue quente, cidade maravilha mutante

As perguntas fluíram. Três horas são quase nada quando se discutem urgências acumuladas no tempo.

O Rio em discussão na plateia do Rio de Encontros / Foro: Marco Sobral

O Rio em discussão na plateia do Rio de Encontros / Foro: Marco Sobral

Shyrlei Rosendo, da Agência de Redes para a Juventude, moradora da Maré, puxou as diferenças entre o que se promete para as favelas e o que se faz na Zona Sul, por exemplo. “A Maré tem 16 escolas públicas e uma taxa de analfabetização absurda se comparada com a Gávea. A gente tem de começar a trabalhar com um estado presente de outra forma, menos omisso e menos precário”, disse ela. Para Igor de Souza Soares, militante do JOCUM no Borel, a questão não é outra: “A cidade tem escassez gigantesca na prestação de serviço público. Há menos vontade e mais necessidade. Não importa para ninguém ter a favela como símbolo de alguma coisa que dá certo. A Lei do Lixo, deveria vigorar dentro das comunidades, só assim eles (da prefeitura) tomariam consciência de que é preciso mais pontos de coleta.”

A população geral de todas as favelas do Rio é de 1,2 milhão de pessoas, Sérgio Magalhães interveio com uma distinção de conceito: nem toda região pobre é favela. No Complexo do Alemão, por exemplo, das 14 comunidades existentes, apenas três são favelas, os demais são conjuntos habitacionais construídos pelo governo.

Davi Marcos, do Observatório das Favelas, morador e conhecedor do território da Maré, quis saber de soluções. Tem jeito? “A maior parte dos espaços é de ocupações. As pessoas vão lá e constroem. Os equipamentos públicos, quando existem, são de baixa qualidade e não têm manutenção. Como a gente força as coisas acontecerem?”, questionou. Manaíra Carneiro, estudante de cinema na UFF, foi na mesma direção: “A gente precisa olhar por uma via diferente da falta. O que as favelas têm a oferecer, como ganhar com eles?”

Gabriela Faccioli, da Rede Norte Comum, lembrou que existe desigualdade também entre favelas. “Os serviços chegam, mas chegam a que favelas? Mais do que se é favela ou não, existe uma cidade que está sendo maquiada e outra que está sendo esquecida. Uns têm tudo e outros não têm o mínimo. Além da má infraestrutura de transporte, não existe absorção das pessoas pelas regiões onde elas moram. E, independentemente de ter transporte ruim, é longe”, disse.

Reunir informações sociais, econômicas e espaciais tanto para fazer diagóstico como para buscar soluções pode ser um caminho, Patrícia Maya, professora da FAU/UFRJ, apontou a direção. “Os ‘nem, nem, nem’ são 50 mil dos mais pobres e quase 10 mil dos mais ricos. É um universo de 60 mil pessoas à toa. Onde estão eles?”

Karen Kristien, de Manguinhos, arriscou uma resposta: “Os nem, nem, nem’ talvez sejam dançarinos, produtores culturais e estejam empreendendo outras áreas. O ‘nem, nem, nem,’ não é o que não faz porque ele pode estar fazendo outras coisas. A gente constrói, mesmo não estando incluído na política socialmente”, disse. Ana Lúcia Costa, da Rocinha foi adiante: “A Rocinha não é uma ilha, é uma comunidade dentro da cidade. Tem muito ‘nem, nem, nem’ por lá, o que engrossa a manutenção do tráfico. Mas o que é oferecido como alternativa?”

Silvana Bagno, gestora social da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, defendeu a pasta: “A gente tem tentado desconstruir a cultura de que para a favela, qualquer coisa que chegar serve”, enquanto Eduarda la Roque, presidente do IPP, bateu na tecla da restrição orçamentária. “Estamos fazendo levantamento de quais são as necessidades reais de serviço público e a cidade terá um diagnóstico social muito maior do que tem hoje. A solução para um mundo mais sustentável está nos jovens. O IPP busca interlocutores e fontes de informação”, ela fez o convite à plateia.

A arquiteta Solange Carvalho, também da FAU/UFRJ, questionou o que está além dos números. “A favela tem uma morfologia diferente e uma questão social muito forte. O grande problema que temos é social, não há integração entre os grupos da cidade. Por que discutir os problemas da favela unicamente entre favelas? Têm de ser discutidos com o seu entorno”, sugeriu.

Construir uma cidade mais compartilhada exigirá sacrifícios, Maína Celidônio ressaltou. “Nas decisões que se terá de tomar, nem todos vão ganhar. As pessoas vão ter de se sacrificar para ter mobilidade urbana”, disse ela, garantindo que os gestores estão tão perdidos em informações quanto o público leigo. “Tomar decisões de políticas públicas é complexo. É preciso simplificar a informação e qualificá-la em debates. Para fazer uma boa ação é preciso saber o que vai ser feito. É preciso entender o porquê de metade dos alunos do segundo ciclo do ensino fundamental estar atrasada mais de dois anos.”

Sérgio Magalhães ponderou que se a questão urbana é complicada, a educação tem o agravante de ser uma preocupação mais recente. Faz bem pouco tempo que o tema entrou nas pautas de discussões sobre a cidade.

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