Zuenir: Como foi e o que pode ser, uma visão comparativa

Zuenir Ventura: "A História não se repete ou se repete como farsa. Mas, às vezes, ela imita" / Foto Marco Sobral

Zuenir Ventura: “A História não se repete ou se repete como farsa. Mas, às vezes, ela imita” / Foto Marco Sobral

A primeira pergunta da manhã foi para Zuenir Ventura. Quais os principais pontos em comum entre os movimentos de 1968 e as manifestações atuais? E quais as diferenças?

Às diferenças, primeiro. “O país é outro, a geração é outra, até o conceito de geração é outro. O mundo mudou. A passeata dos 100 mil foi contra a Ditadura. Os movimentos de hoje têm como ponto de partida uma cidadania mal resolvida”, acentuou o jornalista.

Mas há semelhanças devidamente demarcadas. “Quando estourou 1968, se dizia que nada acontecia no país. Que a juventude não fazia nada, não reagia. Aqui no Brasil como em Paris, que teve seu Maio de 68. Curiosamente, se dizia desta geração atual que não quer saber de nada, de política, de leitura e, de repente, aconteceu aquilo, milhões de pessoas nas ruas. A mesma atitude em relação à juventude em 1968, tivemos agora em relação a essa garotada. O que se achava é que a internet era instrumento de alienação e isolamento. Para nossa surpresa, tudo aconteceu a partir da internet. Esse paralelo precisa ser levado em consideração. Claro que a História não se repete ou se repete como farsa, mas às vezes ela imita”, afirmou.

A Passeata dos Cem Mil, realizada em 26 de junho de 1968 e considerada a manifestação popular mais importante da resistência contra a ditadura militar, foi um momento culminante do movimento estudantil. Desde a morte do estudante Edson Luís Lima Souto, baleado pela polícia no dia 28 de março, o ano seguiu turbulento e o desfecho todo mundo conhece, a promulgação do O AI-5 (Ato Institucional nº 5), no dia 13 de dezembro.

O que preocupa Zuenir sobre as manifestações de agora são os desdobramentos: “A lição de 1968 é que esse movimento atual tem de ser preservado de qualquer maneira. Mesmo que se esvazie. Como aconteceu em 68, esse movimento precisa da classe média, ou seja, precisa da opinião pública”, ele explicou. Para vencer a resistência de uma classe média que temia a violência nas manifestações, a estratégia era aproximar o discurso do alvo: você que é explorado não fique aí parado. “Tanto que uma das palavras de ordem do enterro do Edson Luís era ‘e podia ser um filho seu’. Era uma forma de trazer a consciência de que qualquer um estava vulnerável”, Zuenir descreveu.

A forma de mobilização também mudou e a internet é responsável por outra diferença acentuada. “A Passeata dos Cem Mil levou quatro dias para ser organizada. Acho que essa de agora foi mobilizada em muito menos tempo e menos trabalho de discussão”, pontuou.

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