Uma questão de classe

Julia Michaels, criadora do Rio Real Blog: "É uma questão de classe" / Foto Marco Sobral

Julia Michaels, criadora do Rio Real Blog: “É uma questão de classe” / Foto Marco Sobral

Da mesa para a plateia, da plateia para a própria plateia. A jornalista Julia Michaels, que faz o Rio Real Blog,  propôs que as UPP’s entrassem na roda de discussão. “Não há um debate sobre as UPPS. Há muita crítica à polícia e, apesar de as pesquisas dizerem que quem está na favela aprova a pacificação, não há ninguém publicamente defendendo a pacificação. E acho que há um perigo aí…”

A jovem Shirley Rosendo, militante e manifestante mais que nunca, como ela mesma se definiu, garantiu que a pacificação é discutida, sim. “Só que os moradores (das favelas) não acreditam no modelo em execução. Tanto que propõem o fim da militarização das polícias”, disse.

Mas política de segurança adotada com as UPP’s tem defesa. Para Zuenir Ventura, foi a primeira vez que se caminhou numa direção certa. Em vez de invadir, ocupar primeiro para tirar os traficantes. Com as devidas correções, funciona. “Foi dado o primeiro passo. Depois era preciso levar a ocupação social, levar as conquistas da cidadania. O Cabral dizia ‘acabou a cidade partida’, a UPP resolveu tudo. Mas tem de fazer as correções. Seria uma pena que se perdesse. Claro que há divergências, mas o projeto em si apontou uma direção como nunca se viu”, disse.

Não é bem assim, Seu Zuenir, Igor Favelado, repórter na rádio Grande Tijuca, aproveitou a vez: “O senhor disse das conquistas que foram para as favelas, mas eu ainda não (as) vi. O debate sobre a UPP é propício. Quando a favela incomoda, a polícia vai lá e intervém. É difícil morar na favela. Tem vários Amarildos, tem o Sousa, tem o Silva. Na Lagoa, esse tipo de coisa não acontece.”

Voz jovem no Rio de Encontros: "Quem matou o Amarildo?" / Foto Marco Sobral

Voz jovem no Rio de Encontros: “Quem matou o Amarildo?” / Foto Marco Sobral

Outra voz jovem, Ana Lúcia, moradora da Rocinha, avançou.  “Vamos ser ingênuos, mas não inocentes. O policial tem voz de comando, abusa. No caso do Amarildo, como um cara desses, que tem casa de madeira e barro, é gerente de tráfico? E há uma perversidade que a gente está adquirindo, mas não está percebendo. Diante do corpo encontrado, quando se percebeu que não era o Amarildo, era uma mulher, se deixou para lá. Como o Amarildo, há muitos outros casos e ninguém fala deles.”

Assim como circula na mídia e em cartazes e camisas nas manifestações, Amarildo foi nome recorrente em toda a manhã. “O Amarildo carrega várias bandeiras. Quando se faz a pergunta, se fala de muitas coisas, inclusive da violência que impera na favela. O que significam o Amarildo e o Edson Luís e o que não significam os dez mortos da maré? Por que nenhum deles virou um mártir?”, quis saber Thainã de Medeiros, que trabalha na Agência de Redes para a Juventude. “Quem matou o Amarildo? virou problema do estado. Não acredito em quem tem qualquer certeza hoje”, afirmou a colega de projeto Veruska Delfino, seguida por Marina Moreira, também da Agência: “Nas manifestações, há um mix de pessoas de lugares e trajetórias diferentes. A bandeira do Amarildo envolve muitas coisas e precisa ser esclarecida. ”

Dulce lembrou que a História é feita de momentos de inflexão. “Em 1930, uma morte foi crucial para detonar a Revolução de 30. Um crime passional que foi tomado como político. Por uma razão que não se consegue entender, o Amarildo pegou. Essa está sendo uma bandeira muito forte e é assim que a História é montada. São processos e, por acaso, Amarildo colou porque há uma série de outros fatores”, afirmou.

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