Quem faz jornalismo, afinal

Anabela Paiva: "A mídia Ninja se vê como jornalismo" / Foto Marco Sobral

Anabela Paiva: “A mídia Ninja se vê como jornalismo” / Foto Marco Sobral

As formas de produção e circulação de notícia entraram na roda. Para Zuenir Ventura, a mídia Ninja sacudiu o jornalismo assim como os movimentos e manifestações fizeram com os partidos. “É da maior importância, mas me incomoda um pouco uma certa presunção. Tenho a sensação de que eles (a mídia Ninja) acham que estão inventando a imprensa. E essa prática não é de hoje, é uma reatualização de práticas do velho jornalismo”, disse.

Não basta um celular na mão. Ao contrapor imprensa tradicional e mídia Ninja, Zuenir fez questão de acentuar que a apuração é o princípio básico do jornalismo. “A internet criou um campo maravilhoso para a opinião, mas não para a informação. Tem muita coisa para ser repensada no jornalismo. Há uma petulância na exposição da plataforma dessa mídia Ninja. Ouvi dizer que é o pós jornalismo e que o papel da mídia é ativar os desejos. Pois, olha, como diz meu amigo Ancelmo, o que ativa desejo eu não preciso falar”, brincou.

Daniela Fichino ganhou tempo e fez questão de demarcar o seu lugar de fala. “Não sou orgânica do Fora do Eixo. Colaboro desde a final da Copa das Confederações. Isso para que não pareça que estou dando um tipo de resposta que tenha um valor maior que o que tem”, e contestou Zuenir: “O que tenho acompanhado não vai muito nessa direção. Há vários momentos emblemáticos, como os editorias da Folha e do Estadão que passaram a condenar a polícia”, disse. Sobre a apuração e a narrativa, ela também fez uma defesa: “Primeiro, a mídia Ninja não está inaugurando nada, todo mundo está envolvido na produção e conteúdo de forma livre e independente nos seus núcleos. A gente tem essa produção e a mídia Ninja tomou essa dimensão porque estava em condições de capilaridade, de estrutura em diversas regiões do país, tinha condições de cumprir pautas de modo descentralizado. Mas não inaugurou nem linguagem nem modo de fazer”, ela alongou a resposta.

A mídia Ninja se vê como jornalismo?Anabela Paiva perguntou a Daniela, que deu uma resposta segura.

“Sim. Existe uma disputa sobre o quanto se pode mexer na base do jornalismo a partir dessas formas de narrar. Zuenir (Ventura) é dogmático ao dizer que a grande imprensa está fazendo apuração. Desse modo, a gente toma o todo pela parte. Tenho lido coisas estarrecedoras sobre o Fora do Eixo e o que acontece nas manifestações. Eu realmente me pergunto por que os relatos da Globonews podem ser chamados de apuração e o que nós fazemos na rua não é considerado apuração bruta?”, questionou.

Mas a imprensa está em crise, Zuenir abrandou. “Ontem (em um outro debate), critiquei que as mídias se complementam e deveria haver ponto de convergência. O cinema não acabou com fotografia e a televisão não acabou com teatro. Não parta para a coisa antagônica. São convergentes”, assegurou ele.

Claudius Ceccon ressaltou que os tempos apontam para o fim do monopólio de atribuição do valor ao que acontece. “A grande mídia perdeu o monopólio de dizer o que é certo e o que é errado”, afirmou ele, e Daniela aproveitou a deixa: “O que está em disputa é quebrar com esses monopólios. Não são linguagens excludentes, mas é preciso pensar os diferentes papeis que esses mecanismos podem cumprir. Não são excludentes como linguagem, mas o que arejou foi a democratização da mídia”, disse ela.

Os estranhamentos na discussão sobre a mídia são importantes e, sim, é preciso quebrar os monopólios, ponderou Marisa Vassimon: “A gente não pode perder o acúmulo da produção de narrativas de incontáveis movimentos.”

A pauta é ainda mais extensa, defendeu José Marcelo Zacchi: “Acho que se está discutindo muito a mídia Ninja, mas a mídia Ninja é a internet, a banda larga e os aparelhos que se usam. O debate preciso não é a mídia Ninja em si, mas o efeito da universalização das tecnologias e o que isso nos traz. A mídia Ninja foi quem melhor materializou o uso dessas possibilidades, mas o debate é mais sobre essas potencialidades dessas tecnologias do que sobre o grupo em si.”

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