Manifestação tem causa

Dulce Pandolfi: "O gigante não estava dormindo. O gigante não estava dormindo. A própria Mídia Ninja existe há dez anos" / Foto Marco Sobral

Dulce Pandolfi: “O gigante não estava dormindo. A própria Mídia Ninja existe há dez anos” / Foto Marco Sobral

Dulce Pandolfi tratou de juntar contrapontos: a democracia política é fato, mas o déficit de cidadania no Brasil é monumental. “Os diretos civis são relegados a segundo plano. A policia que deveria nos proteger, age como age, a justiça não funciona, a sociedade banaliza os direitos sociais”, pontuou. Segundo ela, as manifestações têm a ver com a precariedade da cidadania em que se vive. “É uma sub cidadania, tanto do ponto de vista dos direitos sociais como dos civis e esse é um ponto crucial”, afirmou.

Não há gigante acordando porque não havia sono tranquilo. Perplexos estamos todos, mas não há grande novidade. “Esses movimentos estavam se organizando há muito tempo. De modo esfacelado, mas havia uma articulação de incontáveis movimentos de luta que formavam um tecido associativo. O gigante não estava dormindo. A própria mídia Ninja existe há dez anos”, ressaltou a pesquisadora.

A sociedade brasileira mudou, e muito, nos últimos anos. “O número de jovens nas universidades dobrou, houve uma grande passagem da classe D para a C, mas, ao mesmo tempo, as frustrações são tamanhas”, Dulce diz de quem conseguiu a almejada inserção, mas não atingiu seus objetivos como cidadão. “As cidades brasileiras são lamentáveis. Aqui, público é sinônimo de popular e de coisa ruim, não é antônimo de privado”, afirmou ela.

Pedro Strozenberg, do ISER, apontou em outra direção: o uso da violência como expressão da manifestação. “Se nas duas primeiras manifestações, a polícia foi provocadora; no Leblon, foi acusada de ser facilitadora do cenário de violência. Uma manifestação de seis horas em que em algum momento explode alguma coisa e o confronto se instala. O ato só termina quando há o confronto. Saí de lá dividido se sou favorável ou contra o uso da violência. Como tratar esse personagem, o vândalo?”, questionou ele.

Tem um lado bom e um lado ruim, ponderou Dulce Pandolfi. “Parte da juventude ‘não violenta’ que criticou a Rede Globo se polarizou em dois grupos, ou seja, há os vândalos e bons moços, mas a violência é mais complexa. Já achei que a luta armada ia provocar adesões. Hoje, sou temerosa com a coisa da violência. Sei que tem muitos perfis ali, mas tem o pessoal que quer se manifestar em uma resposta contra uma violência do estado muito maior em vários níveis”, afirmou. Para Daniela Fichino, a violência tem surgido como linguagem para dizer alguma coisa: “É uma mensagem que está sendo dada.”

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