Longa história entre dois junhos

Dulce Pandolfi: "Estou no fio da navalha entre a memória e a história" / Foto Marco Sobral

Dulce Pandolfi: “Estou no fio da navalha entre a memória e a história” / Foto Marco Sobral

Coube a Dulce Pandolfi comparar o papel de intelectuais, artistas e da própria imprensa nos dois junhos – de 1968 e de 2013 -, além de outros momentos de mobilização jovem, como as  Diretas Já e impeachment do presidente Collor. Só uma palhinha, brincou Anabela sobre a pauta tão ampla.

Clara e didaticamente, a professora e pesquisadora do CPDOC/FGV discorreu sobre o que a sua própria geração fez e testemunhou. “O pano de fundo dessa geração de 1968 são as certezas absolutas, essa é uma marca. A certeza no socialismo, fosse pelo caminho revolucionista ou o mais radical. A gente também queria liderança, vanguarda; e sabia também que só quando corrigisse esse mundo, as minorias alcançariam o seu lugar. O importante era a classe operária.”

Passados alguns anos, depois de vitórias e derrotas, a esquerda começou a se questionar. “O Muro de Berlim caiu, a divisão bipolar entre capitalismo e socialismo perdeu sentido. Essa é uma marca forte que abala a certeza da antiga esquerda”, avaliou.

Sem mais o paradigma como se tinha no passado, segundo ela, estão todos em busca de um modelo. Não há mais receita de bolo. “O mundo do trabalho mudou enormemente, hoje são vários sujeitos históricos, não há mais hierarquias dos movimentos sociais. Não só no Brasil, mas no mundo, os partidos estão em crise. Há uma série de questionamentos e possibilidades de novas apropriações do saber antigo.”

No fio da navalha entre a memória e a história, ela fez a comparação: “Em 68 havia o projeto contra a sociedade capitalista em prol de um novo modelo. Havia um trabalho brutal de mobilização, não existia celular nem internet. A gente passava a noite fazendo panfletos, usava mimeógrafo, percorria sala por sala, numa convocação que demorava muito tempo. O movimento estudantil era estruturado, do diretório acadêmico até a UNE. Havia reuniões por sala, depois por escola, finalmente uma assembleia geral que resultava em comício. Meus alunos não sabem o que é telegrama”, ela descontraiu.

As formas de mobilização e o período fazem toda diferença. “Era uma ditadura. Além da dificuldade de comunicação, havia a repressão. De um modo geral, as manifestações eram feitas com muito cuidado para que a repressão não soubesse antes. Os comícios eram surpresa e o clima era completamente diferente”, ela ressaltou também que havia uma pauta precisa.

“Abaixo a ditadura” e “O povo no poder” eram os motes. “Hoje, as questões de exploração econômica quase não aparecem. A pauta é em cima da cidadania, do direito à cidade e por aí vai. A pauta torna os movimentos divergentes. A Passeata dos Cem Mil de 2013 foi o acúmulo de uma série de outras manifestações de que não se ouvia falar”, afirmou. Para além dessas diferenças, não há lideranças. “Em 2013, há uma diversidade de atores”,

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