Rio de Janeiro, ontem e hoje

A socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho dá palestra sobre "Rio de janeiro, ontem e hoje" Foto: Marco Sobral

A socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho na abertura do Rio de Encontros  Foto: Marco Sobral

A História e as histórias do Rio ela conhece como poucos. Com a palavra, a socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho, que preparou a palestra “Rio de Janeiro, ontem e hoje”, especialmente para a abertura do Rio de Encontros.

“O Rio tem uma reflexão consolidada, já”, avisou ela, que faria uma explanação seguindo uma perspectiva bem definida. “Toda história é uma seleção. Esta é uma apresentação cheia de lacunas e isso é proposital. Indica uma construção e uma forma de ver problemas. É bom para fazer pensar, eis o meu convite à reflexão”, pontuou.

O convite começou por um tema crcial para se entender a cidade e suas formas de organização. “Somos frutos da escravidão moderna. Não foi a primeira vez que se escravizou, mas foi uma sinalização, fazia parte de um sistema composto por Brasil, África e Europa Ocidental. Aí já estavam os indícios do capitalismo. Vamos falar especificamente da escravidão urbana, muito importante na constituição da cidade”, Maria Alice discorria e ilustrava sua fala com imagens.

O Rio já foi diferente, mas nem tanto. O trânsito na cidade era livre, ainda que o compromisso de entrega de recursos ao proprietário não o fosse. O folguedo urbano se assemelhava ao Carnaval. “Os relatos de viajantes europeus nos quais chamam atenção para a vida a livre dos escravos brasileiros, o que era estranho para a perspectiva de um europeu. A cidade se abriu para a presença do escravo. Não era benevolência, mas assenhoramento da cidade, o que fez com que as práticas culturais se desenvolvessem com maior liberdade”, explicou.

A liberdade torna-se, assim, um componente importante. O que significa haver imaginação e produção cultural? Os escravos, de certo modo, tinham domínio da cidade, atestam os depoimentos de vários viajantes.

Havia uma presença cultural na cidade sobre a qual se deve pensar, Maria Alice seguiu a exibição das imagens representativas da vida na cidade no período da escravidão: o antigo Mercado do Peixe e a ocupação pré-reforma Pereira Passos aproximava o Rio das cidades medievais europeias. “O mercado tinha papel não apenas mercantil, mas de troca cultural, de apropriação do espaço. O contrário era o feudo. Quando vinham para a cidade, os personagens do mundo medieval se viam mais livres. As pessoas gozavam de certa apropriação de espaço sem segmentações e diferenciações”, ressaltou ela.

As cidades medievais, segundo Maria Alice, eram emblemáticas das formas múltiplas de utilização da cidade,  lugar onde se faziam muitas coisas, como trabalhar e, inclusive, morar. “Mesmo na Europa, muitas pessoas moravam nas ruas. São formas de ocupação do espaço. Às vésperas da I Guerra Mundial, Viena tinha uma população de rua enorme. A Revolução Francesa foi deflagrada por um exército de pessoas donas daquele espaço”, relembrou.

Na cidade industrial, o cenário mudou. Londres, com sua ideologia do Protestantismo, que não é a da piedade católica, representa uma passagem importante e complexa da subsistência para o trabalho assalariado.”A pobreza industrial é diferente da anterior. Já há um mercado de trabalho institucionalizado. Todas as formas de obtenção de moradia e trabalho dependem de um contrato, não existem mais formas de sobrevivência que não sejam dadas pelo mercado de trabalho. Para se alimentar, vestir ou estudar é preciso estar no mercado”, disse ela, fazendo uma comparação com realidades mais próximas e demarcando as diferenças entre a cidade e a cidade capitalista institucionalizada pelo mercado de trabalho. “Na Amazônia, por exemplo, há muita pobreza, mas existem formas alternativas de alimentação. As pessoas comem peixe e açaí, há uma possibilidade, coisa que o mercado de trabalho institucionalizado vai excluindo.”

Cada lugar reagiu e promoveu suas revoluções de modos diferentes. Paris é um exemplo. “Algumas cidades viveram o processo temporalmente de maneira muito mais dilatada que outras.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s