Rio, cidade esquecida

Maria Alice Rezende de Carvalho: Rio, cidade de insurreições populares Foto: Marco Sobral

Maria Alice Rezende de Carvalho: Rio, cidade de insurreições populares Foto: Marco Sobral

O Rio era a capital federal e potencialmente um caldeirão de revoltas e quebra-quebra. “Em 1879, na briga pelo vintém, a cidade toda vai para o evento, quebra o bonde, esfaqueia as mulas. Era tudo só no grito, as pessoas estavam face a face.”

Dono do terceiro maior porto das Américas, por onde desciam mercadorias, imigrantes, escritores, pintores, havia uma dinâmica de integração ao mundo, o Rio disputava com Buenos Aires o posto de capital da América do Sul. Uma dinâmica de inscrição no sistema mundo, que dava ao Brasil um lugar de destaque.

“A reforma urbana de Pereira Passos indicou o caminho de crescimento a cimento. Criou um eixo e o projetou para o mar, para onde a cidade cresceria. Essa tem sido a tônica até hoje”, ressaltou a socióloga.

O Brasil havia instituído, pela Constituição de 1891, preceitos ordenadores da vida urbana: não à corrupção, não ao voto descoberto, organização civil e sindical. Temas inscritos na Carta Magna, no entanto, não eram sinônimo de tempos tranquilos. “No estado de sítio na República Velha, os movimentos eclodiram com punições, prisões, desterros. O liberalismo da Constituição não conseguiu se fixar”, ressaltou.

A política efervescia. No passeio em fotos pelo Rio de Janeiro da primeira metade do século XX, Maria Alice mapeou a Revolta da Vacina, o Movimento Tenentista e a Revolta do Forte de Copacabana, a Revolução de 1930, Getúlio Vargas no Palácio do Catete, chegou a Juscelino Kubitschek, o portador da nova cidade onde os projetos nacionais de desenvolvimento ganhariam expressão.

Enquanto JK, em Brasília, erguia a nova capital e sonho de futuro, o Rio de Janeiro foi perdendo lugar para a conjugação das quatro loucuras, segundo Otto Lara Resende: de Juscelino, Niemeyer, Lúcio Costa e Israel Pinheiro. E, ao contrário de Brasília, não resguardou suas plantas ou suas memorias. “O que caracteriza Brasília é a organização espacial. É a única cidade que amarrou de maneira absoluta a vivência do urbanismo à sua planta, que virou a marca do desenvolvimento induzido dos anos 1960. O Rio de Janeiro não tem uma planta, tem um pouco de todas as cidades, tem camadas”, ponderou ela ao mostrar imagens do Planetário da Gávea, do estacionamento da Puc, do Pedregulho, da estação Central do Brasil, símbolo de um tempo em que o sistema ferroviário funcionava na cidade. “A cidade tornou-se rodoviária sem que o sistema ferroviário fosse mantido. O desmantelo do sistema ferroviário tem a ver com o fato de a Zona Norte estar hoje, de certo modo, em estado de abandono”, afirmou.

Maria Alice também exibiu imagens da Passeata dos Cem Mil (1968) e citou o centro da cidade como marca da experiência citadina, o lugar de pertencimento de todos. Durante o Golpe Militar, no entanto, o que havia de organização popular foi tolhida, cancelada e perseguida. “Não é verdade que não houvesse nucleamento, mas a Ditadura constitui canais de favorecimento de moradores de favelas através de água, luz e postos, essas foram suas políticas. A autonomia do Rio de Janeiro foi sendo destruída não apenas pela repressão, mas pela cooptação das lideranças, que consolidaram vínculos com alguns políticos”, afirmou ela.

As populações, por sua vez, ficaram vulneráveis e a cidade não resistiu à entrada do tráfico e da contravenção. “Nessa época, a organização autônoma cria mecanismos de autogestão e organização da vida coletiva, o que dificulta o trabalho dos estrangeiros que querem se instalar ali. Além dos processos de favelização do que antes era bairro estruturado, a ditadura representou isolamento urbanístico e cultural das classes populares”, ressaltou.

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