Assim nasceram as favelas

Maria Alice rezende de Carvalho: Rio de Janeiro e as reformas urbanas Foto Marco Sobral

Maria Alice rezende de Carvalho: Rio de Janeiro e as reformas urbanas Foto Marco Sobral

A decadência dos centros foi gradativa e decisiva para a mudança das configurações das cidades. Os quiosques reuniam pessoas que estavam em busca de coisas, fosse informação, fosse trabalho. “As pessoas trocavam informações sobre movimentos, motins, sempre estava acontecendo alguma coisa. Pela legislação brasileira, um escravo que demonstrasse autonomia de morada, desde que tivesse um quarto para viver, podia pedir ao juiz que o libertasse do patrão”, Maria Alice prosseguiu.

Assim, calcados no comprovante de renda, os cortiços foram se proliferando. Ter endereço era garantia de autonomia. Em meados do Século XIX, a abolição da escravidão trouxe muitos ex-escravos e europeus, especialmente portugueses, ao Rio de Janeiro.

No contexto da República Velha, estourou a Guerra do Vintém, acirrada pela cobrança de um vintém como imposto agregado ao preço do transporte. Foi primeira guerra por transportes de que se tem notícia na cidade. “A República Velha foi um momento complexo e belicoso. Sua organização produziu eventos de guerra civil iminente”, explicou Maria Alice. Foi a época de Padre Cícero, de Canudos, dos eventos de guerra acertados em reuniões nas quais o exército organizava os governos.

Com a Reforma Pereira Passos, a cidade já densamente povoada ganha uma rua que segue para o infinito, a avenida Rio Branco. É o tempo do despovoamento provocado pela reforma urbana. “Há a reformulação do centro da cidade, que deslocou a geografia do prestígio”, explicou Maria Alice. Na mesma época, muda também a configuração da imprensa. Os jornais são aplicados à dinâmica da cidade e deixam de ser literários para abranger as discussões sobre o Rio de Janeiro. 

A velha cidade tinha inconvenientes sanitários, mas favorecia o encontro entre a população. Reforma urbana bem-sucedida, para a socióloga, deve ser feita a partir de parâmetros que respeitem formas de sociabilidade e reprodução de determinadas maneiras de lidar com o espaço, que privilegiem a preservação de espaços culturais. Essencialmente, deve ser uma reforma que não implique em liquidar o espaço e a cultura anteriores. “Pereira Passos higienizou socialmente a sociedade, tirou a pobreza da visão dos estrangeiros e viajantes”, resumiu Maria Alice.

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