Salve-se quem puder

Cecília Herzog

Cecília P. Herzog: “O que a gente quer é só carro? Palmeira e gramado não são árvores e não têm função ecológica”
Foto: Ariel Subirá

A paisagista Cecília P. Herzog carrega uma causa no laptop. É do pequeno computador que ela tira as imagens de uma paisagem deslumbrante que ela tando defende: o Rio de Janeiro. Principalmente se vista do alto, a cidade é espetacular, ela afirma, de braços abertos.

Realista ao apontar problemas, Cecília também é confiante que as soluções uma hora aparecem. Não sem esforço, é bom lembrar. À frente do INVERDE (Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana), ela tem se dedicado, nos últimos sete anos, a pesquisas sobre como as cidades podem se tornar sustentáveis e resilientes. O Rio, em particular, tem muito que aprender.

As lições e o alerta vêm da natureza. “Tirando a paisagem, o Rio é uma cidade como outra qualquer. A gente ocupou os lugares que eram das águas e não fez nada a respeito. As lagoas estão fadadas a desaparecer, mas estamos adiantando esse processo. A cidade é extremamente rodoviarista, as águas acabam nos bueiros, é uma dragagem sem fim, tudo caindo, não se consegue andar em calçadas. A gente vive enxugando gelo nessa cidade, não parte para soluções sustentáveis de longo prazo”, a contagem estava apenas no início.

A cada chuvarada, o caos. Entre um slide e outro na apresentação da paisagista, uma beleza e uma tristeza. “O que estamos fazendo na baixada de Jacarepaguá?”

Ao mostrar a geometria das retas e das esquinas, Cecília explicou funções ecológicas e foi taxativa sobre o que vê: ecossistemas sem funcionalidade. “Estamos simplesmente fazendo mais do mesmo, não partimos para um modelo novo. Jardins de condomínios não têm função. Em vez de arvores temos palmeiras e gramado de plástico.”

Cecília assegura que a população está completamente desconectada do ecossistema. Ninguém sabe nem pergunta de onde vem água ou comida.

“É para assustar. O problema é mais sério do que se imagina. O que acontece com as crianças que vivem de caixa em caixa? Como as crianças vão cuidar da natureza se não a conhecem? As doenças são fruto do nosso descolamento. Nos últimos anos, a cidade industrial nos descolou da natureza. Todo mundo vive estressado, a gente vive assim na cidade. Nossa baixa qualidade de vida é total: engarrafamentos, enchentes e deslizamentos, altos índices de ruídos, falta de espaço público.”

Para piorar, um campo de golfe

Nas andanças pela cidade, Cecília colhe exemplos de abuso e retrocesso: a eliminação da floresta de Deodoro, uma floresta primária; as desapropriações pela Light, no Complexo do Alemão; ameaças aos manguezais de Guaratiba, que estão morrendo por falta de aporte de água doce; a Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.

“A Transoeste é feita sem o menor estudo de ecologia de estrada, que tinha de ser feito sob uma outra ótica. Imagina o túnel, que vai ser construído, em dia de tempestade?”, ela pergunta e tece mais assombros: “Áreas alagadas estão sendo ocupadas sem plano e sem visibilidade. É tudo feito no tapa. Jogo a tolha e vou morar em Paris ou continuo aqui brigando?”

A cidade, na visão de Cecília, planta erros. “É essencial adaptar as cidades para as pessoas viverem em harmonia com a natureza. Ou essa cidade maravilhosa que se tem vai se perder. Fico muito preocupada com a cidade que as minhas netas vão ver.  Como é que faz? Ninguém sabe, as pessoas estão buscando, mas se sabe que é preciso sair disso.”

Os parques de Seul

Cecília enxerga o Rio mas amplia o olhar em direção ao mundo. “As mudanças climáticas estão agindo. Como estamos nos preparando? O mar não quer saber, ele entra, a gente não controla a natureza. A Holanda já aprendeu, deixa o mar entrar. O mar já subiu nas últimas décadas, a gente vai ficar sobre as águas, mas isso não nos está impedindo de estreitar rios. Continuamos fazendo as mesmas bobagens que fizemos esses anos todos. Continuamos aterrando e construindo empreendimentos imobiliários”, o tom é de revolta baseada em dados concretos.

Na lista de bons exemplos, Seul é o mais emblemático: “É um caso de mudança radical, de transformação de uma cidade infernal em cidade celestial. Tudo que eles fizeram calcados em educação e em planejamento da paisagem urbana que privilegia o verde”, ela explicou como a cidade aproveitou os Jogos Olímpicos de 1988 e a Copa do Mundo de 2002. “Ficaram cinco parques de herança para a cidade. É um exemplo de desenvolvimento com harmonia, de serviços ecossistêmicos. Tanto que o prefeito virou presidente e, hoje, a Coréia vende tecnologia para o mundo inteiro”, ela ressaltou.

O que a gente quer é só carro? Palmeira e gramado não são árvores e não têm função ecológica, adianta Cecília, para quem ainda não entendeu. “O que a gente está construindo nessa cidade? O Rio tem de ser uma cidade inclusiva e a escolha é nossa. Se eu achasse que estava tudo perdido, não estava aqui.”

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